Requerimento Diplomacao Postuma.pdf

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
CONSELHO UNIVERSITÁRIO - CONSUNI

Maceió, 14 de março de 2025.
Ao Magnífico Reitor,
Professor Josealdo Tonholo
Gabinete da Reitoria
Universidade Federal de Alagoas
Assunto: Requerimento de Diplomação Póstuma de estudantes da Ufal mortos
pelo estado durante a Ditadura Militar (1964-1985)
Prezado Sr. Reitor,
Vimos, por meio deste, requerer à Vossa Magnificência, a diplomação póstuma dos
estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) mortos pelo estado brasileiro
durante a Ditadura Militar (1964-1985). Ao final deste mês, no dia 31 de março de
2025, o Golpe Militar completa 61 anos e, apesar disso, a sociedade continua sendo
assombrada por seus fantasmas, que permanecem à espreita na tentativa de
retomar os horrores do período de chumbo.
A diplomação póstuma de estudantes mortos pela Ditadura é um ato de justiça e
reparação histórica com o intuito de honrar a memória das vidas interrompidas pela
repressão. O filme Ainda Estou Aqui, que recentemente ganhou o Oscar, demonstra
a relevância e o impacto histórico do tema, trazendo à tona a resistência tanto
daqueles que se opuseram ao autoritarismo da Ditadura como a dor daqueles que
ficaram. Este reconhecimento internacional reflete a urgência de refletirmos sobre o
passado, especialmente em um momento em que tentativas de golpe ameaçam a
estabilidade democrática. A anistia dos assassinos deixou sequelas em nossa
democracia, sendo a semente dos recentes episódios golpistas, da profusão do
negacionismo político e dos discursos de ódio.
Os julgamentos sobre os crimes cometidos pela Ditadura e mais recentemente na
tentativa de golpe, que teve como ápice o tentativa de tomada do poder em 8 de
janeiro de 2023, evidenciam a necessidade de continuar a busca pela verdade e
pela reparação das vítimas. A criação das Comissões da Verdade a nível nacional e
local foram um importante passo nesse sentido, mas é preciso ir além. Em um
cenário de intensas disputas geopolíticas, é crucial que as universidades públicas
brasileiras, usufruindo de sua autonomia, se posicionem como defensoras da
democracia, da memória e da justiça, garantindo que as vozes dos estudantes

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mortos pela Ditadura sejam reconhecidas e lembradas, assegurando que o passado
nunca seja esquecido e lutando para que jamais seja repetido.
Abaixo, os estudantes da Ufal mortos pela Ditadura.

José Dalmo Guimarães Lins - Era estudante da Faculdade Direito na Ufal quando
foi expulso sob a acusação de envolvimento com atividades subversivas. Ele
também atuou como militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)1. Foi
duramente torturado, o que impactou profundamente em sua saúde física e mental,
o que o levou ao suicídio em 11 de fevereiro de 1971, no Rio de Janeiro.

Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão - Era estudante da Faculdade de Economia da
Ufal e militante da Juventude Estudantil Católica (JEC)2. Capturada e torturada
pelos militares, Gastone foi morta em 22 de janeiro de 1972 por agentes do
Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS-SP).

1
2

https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/jose-dalmo-guimaraes-lins/
https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/gastone-lucia-carvalho-beltrao/

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Manoel Lisboa de Moura - Era estudante da Faculdade de Medicina da Ufal e teve
uma intensa atuação política como aluno e militante, atuando na União Nacional dos
Estudantes (UNE), na Juventude do PCB, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB),
e, posteriormente, no Partido Comunista Revolucionário (PCR)3. Foi preso, torturado
e viveu na clandestinidade, até ser capturado e torturado até a morte, em 4 de
setembro de 1973.
Esses estudantes tinham nome, rosto, família, professores, amigos e colegas de
universidade. Não são apenas números, mas pessoas como nós, membros da
comunidade acadêmica da Ufal. São contemporâneos de muitos servidores e
servidoras deste Conselho e desta universidade. Eles poderiam, inclusive, pelo
histórico de luta, estarem sentados entre nós conselheiros, ajudando a construir
uma universidade para todos e todas. Mas nunca saberemos, e não saber é um
sentimento dilacerante.
O pedido está em conformidade com a ação de outras instituições que já realizaram
o mesmo tipo de diplomação, a exemplo da Universidade de São Paulo (USP) e da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Apesar da literatura e do
audiovisual retratarem uma repressão centrada no eixo Sul-Sudeste, diversos
estudos acadêmicos, inclusive da Ufal, e das Comissões da Verdade locais mostram
como o Nordeste abraçou o movimento golpista e trabalhou contra o seu povo. Em
Alagoas, a Ditadura foi silenciosa e se dissolveu em uma cultura coronelista que
ainda hoje interdita a memória dos alagoanos e define quem pode viver e quem
deve morrer.
Mas Alagoas também é terra de Zumbi, onde a resistência e a liberdade são
princípios inegociáveis. Se o esquecimento é a prova do fracasso, necessitamos
https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/manoel-lisboade-moura/
3

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manter nossa memória viva para que o terror de estado jamais aconteça
novamente. Se a anistia aos algozes da Ditadura foi um erro que persegue as novas
gerações, não podemos reproduzi-lo. Diplomar nossos estudantes que tiveram suas
vidas e sonhos interrompidos é honrar o espaço que ocupamos, é valorizar a vida
de todos e todas que fazem parte desta instituição, é um ato de humanidade para
com nossos companheiros e companheiras, é um grito em defesa da democracia, e
é, sobretudo, um dever moral para com a sociedade alagoana, para quem
dedicamos nosso trabalho todos os dias.
Nesse sentido, propomos a diplomação dos estudantes mencionados, aqueles que
pudemos identificar com base no relatório da Comissão Nacional da Verdade e com
o apoio de colegas envolvidos na Comissão Estadual da Verdade e na militância
política contra a anistia. Sugerimos, ainda, que, em caso de aprovação, seja
realizada uma solenidade para a entrega dos diplomas a familiares, com a presença
de conselheiros, diretores das faculdades em que os alunos estudavam, amigos e
membros da sociedade civil organizada, podendo ocorrer na data simbólica de 31
de março de 2025.

Respeitosamente,

Iracilda Maria de Moura Lima
Conselheira Titular - Representante Docente
Siape 1120609

Emanuelle Gonçalves Brandão Rodrigues
Conselheira Suplente - Representante Docente
3346579