Da pesquisa em Alagoas ao mestrado internacional: o percurso de Jimena Cortés
A egressa de Ciências Biológicas na Ufal conquistou bolsas internacionais para aprofundar estudos sobre biodiversidade e mudanças globais
Antes de ser selecionada para dois mestrados internacionais, Jimena Cortés aprendeu a olhar para um problema ambiental por diferentes ângulos. Em Alagoas, a estudante da Guatemala fez perguntas. Fez ciência. Pesquisou a poluição por plástico, acompanhou o monitoramento do branqueamento de corais, conheceu o trabalho de comunidades de pesca artesanal e participou de ações de educação ambiental. Ouviu e dialogou. Agora ela vai aprofundar na Europa os conhecimentos adquiridos durante a graduação na Universidade Federal de Alagoas.
As experiências, construídas no curso de Ciências Biológicas ajudaram a definir a pergunta que hoje orienta seus próximos passos: como produzir conhecimento capaz de contribuir para a conservação e, ao mesmo tempo, dialogar com a vida das pessoas?
A recém-formada Jimena foi selecionada com bolsa integral para o Erasmus Mundus Joint Master in Global Change Ecology and Biodiversity Management (Globe) e para um programa da University for Peace (Upeace), na Costa Rica, com bolsa do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). Ela escolheu cursar o Globe, mestrado de dois anos voltado ao estudo das mudanças globais, da conservação da biodiversidade e da gestão ambiental. De Alagoas Jimena partiu para o programa que reúne instituições parceiras na Espanha, no Reino Unido, em Portugal e no México, com atividades iniciadas no último mês de setembro.
A aprovação em duas seleções internacionais representa o reconhecimento de uma trajetória que Jimena construiu passo a passo na Ufal. Ela participou de diferentes laboratórios e projetos de iniciação em desenvolvimento tecnológico e inovação e recebeu, por três vezes consecutivas, bolsas de mérito do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), destinadas a estudantes de destaque.
“Vejo essa próxima etapa internacional como uma oportunidade de continuar aprendendo e de ampliar as perguntas que comecei a fazer no Brasil”, destacou. Entre os assuntos que estudou, a relação entre poluição por plástico e mudanças climáticas teve um peso especial: tornou-se o tema de seu trabalho de graduação. “Ao estudar esses dois estressores, comecei a perceber com mais clareza como problemas ambientais que muitas vezes são analisados separadamente podem estar profundamente conectados e afetar tanto os ecossistemas quanto as pessoas que dependem deles”, relatou.
As demais experiências de pesquisa deram outra dimensão a essa descoberta. O contato com os recifes e as comunidades costeiras mostrou a Jimena que dados ecológicos não explicam sozinhos o que acontece em um território. “É preciso também compreender o território, ouvir as pessoas e considerar os diferentes contextos em que as decisões são tomadas. Foi dessa combinação de experiências que cresceu meu interesse por abordagens mais interdisciplinares de conservação”, avaliou.
Uma formação entre países e perspectivas
A mudança da Guatemala para o Brasil também fez parte desse aprendizado. Jimena conta que chegou para estudar Ciências Biológicas sem imaginar quanto a experiência transformaria sua maneira de entender a conservação. Além da formação acadêmica, viver em outro país exigiu adaptação e a aproximou de perspectivas diferentes das que conhecia.
“O que mais me marcou foi perceber que os desafios ambientais não podem ser compreendidos apenas a partir da perspectiva ecológica. Por trás de uma questão ambiental existem comunidades, modos de vida, decisões sobre o território e diferentes formas de se relacionar com a natureza”, afirma.
Ela reconhece ainda a importância das pessoas que participaram de sua formação. Os projetos de pesquisa que ensinaram a fazer perguntas, trabalhar em equipe e comunicar ideias. Já as bolsas de pesquisa e de mérito trouxeram apoio e confiança para continuar buscando novos desafios. Para Jimena, essas conquistas também refletem a contribuição de professores, colegas e instituições ao longo do percurso.
A escolha pelo Globe reúne os interesses que amadureceram durante a graduação. “As questões ambientais que me interessam não cabem em uma única área. O programa representa justamente a oportunidade de aprofundar essa visão, conhecer diferentes contextos e aprender com outras formas de produzir conhecimento e pensar a conservação”, explicou, sobre a ansiedade de explorar diferentes perspectivas.
Jimena espera que o conhecimento adquirido nessa etapa também possa contribuir, no futuro, com seu país de origem. “Quero levar parte desse aprendizado de volta à Guatemala e contribuir para iniciativas relacionadas à poluição plástica e eventos extremos, aproximando pesquisa científica, conservação da biodiversidade, comunidades e tomada de decisão”, disse, sobre os problemas enfrentados no país.
Aos estudantes brasileiros e internacionais que desejam seguir uma carreira acadêmica fora do país, a egressa aconselha valorizar as experiências que já possuem, mesmo que não correspondam a uma trajetória que considerem ideal. “Não tenham medo de tentar. Nem sempre sabemos onde cada experiência vai nos levar, mas cada passo pode contribuir para construir o próximo”, disse a menina que tentou fazendo perguntas e segue buscando a ciência em movimento.