Egressa da Ufal conquista três prêmios no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Leviathan foi premiada nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Montagem e Melhor Figurino com curta que resgata a memória da cena noturna LGBTQIA+ de Maceió

Por Ryan Charles - estudante de Jornalismo
Leviathan foi premiada no Festival nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Montagem e Melhor Figurino
Leviathan foi premiada no Festival nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Montagem e Melhor Figurino

A egressa do curso de Teatro da Escola Técnica de Artes (ETA) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), atriz, drag queen, cineasta e produtora cultural alagoana Leviathan, foi premiada em três categorias no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB), o mais longevo festival do país, realizado entre 11 e 19 de setembro, em Brasília.

Leviathan participou do evento com seu curta-metragem “Futuro Decadance”, que marca sua estreia na direção e no roteiro. Além de participar da montagem, dividiu a direção de arte com Bela Magalhães e participou da criação dos figurinos, além de dividir a produção da obra com Marina Bonifácio, também egressa da ETA. Juntas, destacam-se por serem as primeiras pessoas trans de Alagoas a participar do festival em quase 60 anos de existência.

Figurinista, graças à sua atuação como drag queen e performer, e editora de vídeo desde a adolescência, Leviathan foi premiada nas categorias de Melhor Figurino, Melhor Montagem e Melhor Atriz, talentos que foram aperfeiçoados durante sua formação no curso da Ufal. A artista também integrou a primeira turma do Ateliê Chica Manicongo, formada por mulheres trans e travestis, iniciativa que desenvolveu atividades em parceria com a ETA.

“Minha trajetória ao longo do curso foi desafiadora, mas também representou um processo de autodescoberta pessoal e profissional. Durante o curso, passei a me envolver ainda mais com os aspectos visuais das atividades. Essa experiência me permitiu desenvolver não apenas a atuação, que é uma das áreas contempladas pelo curso, mas também o trabalho com figurino, que é a área em que atuo profissionalmente hoje”, disse a artista.

Além disso, o curta conta com uma cena gravada no espaço da ETA, justamente aquela que levou à conquista do prêmio de Melhor Atriz, uma vitória que, segundo ela, foi a mais inesperada e emocionante. “Conseguimos transformar o local no cenário de uma das cenas, reproduzindo uma boate onde acontecem as performances. Receber o prêmio de Melhor Atriz por uma cena gravada na ETA, em um espaço onde sempre ensaiamos nossos trabalhos de teatro, foi muito emocionante. Senti como se um ciclo estivesse se fechando”, exclamou.

Para a diretora da ETA, Valéria Nunes, a participação da escola, tanto na formação da artista quanto na realização de uma das cenas do filme, faz parte da essência do espaço como instituição pública, sendo uma maneira de estabelecer trocas e contribuir para o desenvolvimento da produção artística local.

“Leviathan concluiu sua formação no ano passado e foi uma aluna maravilhosa. Tive o prazer de acompanhá-la em um dos processos de montagem, quando auxiliei o diretor do espetáculo. Foi incrível trabalhar com ela. É uma pessoa muito dedicada, que atua em diferentes frentes artísticas. A ETA já desenvolve esse trabalho de apoio aos artistas da cidade há alguns anos, fortalecendo esse compromisso com a sociedade”, complementou a gestora.

Para a artista, representar Alagoas no festival foi uma oportunidade de dar visibilidade não apenas ao seu trabalho, mas também às histórias de artistas que enfrentaram e ainda enfrentam os desafios de viver da arte em Maceió. Segundo ela, a conquista também representa a força da coletividade e a importância de espaços de formação e acolhimento, como a Universidade Federal de Alagoas, para o desenvolvimento de novos talentos.

“Os anos passam, mas ainda precisamos resistir para lidar com essas dificuldades. Uma das formas de fazer isso é nos reunirmos em coletivos e estarmos próximas das amigas que nos apoiam. A universidade é essencial nesse processo porque, além da formação, proporciona contato com outros profissionais e professores que nos orientam. Representar a Ufal também significou representar tudo o que vivenciei durante os dois anos de formação no curso de Teatro da ETA”, destacou.

Conheça mais sobre a obra

O filme leva às telas a cena clubber e queer de Maceió nos anos 1990 e aborda arte, identidade e a complexidade de ser artista na cidade. Leviathan explicou que a inspiração para a obra veio de suas vivências como performer e da percepção da falta de produções que retratassem as festas noturnas da comunidade LGBTQIAPN+ maceioense.

“Eu já sentia que essa história precisava ser contada e acreditava que isso aconteceria em algum momento. A pesquisa surgiu justamente dessa necessidade. Ao observar como as pessoas se vestiam e se posicionavam naquela época, especialmente nos anos 1990, no período posterior à ditadura, percebemos o fervor cultural daquele momento. Isso permite comparar a forma como a geração atual se posiciona e produz cultura”, explicou a artista.

Para ela, é importante ressaltar na obra que, desde sempre, e não apenas em Maceió, as festas que fazem questão de ter artistas se apresentando nos palcos representam oportunidades de expressão. Para muitos artistas, esses são os únicos espaços possíveis para mostrar seus trabalhos. Leviathan reforça que é interessante observar não apenas quem frequentava essas festas, mas também quem trabalhava artisticamente nelas.

“São lugares onde as pessoas podem se expressar, extravasar sentimentos e emoções e encontrar, nos fins de semana, uma forma de escapar da rotina. Mas também precisamos considerar quem está trabalhando artisticamente nesses ambientes, sejam os DJs, na música, sejam as performers, no teatro e em outras linguagens. Muitas dessas pessoas hoje ocupam outras posições e estão em outros espaços, e o filme nos permite estabelecer conexões com suas histórias”, revelou.

Para Leviathan, a obra apresenta um contraste que quebra a tendência de subestimar quem veio antes. Ao assistir às imagens, o público percebe que as gerações anteriores produziram muito e, em alguns aspectos, entregaram até mais do que se vê hoje.

“É um choque interessante, porque nos faz reconhecer a força dessas histórias e a importância de preservá-las. O filme carrega um discurso não apenas sobre as festas e a memória LGBT, mas também sobre o que significa ser artista em Maceió e sobreviver da arte na cidade. Ao conhecer aquelas histórias e observar o que apresentamos por meio da ficção, percebemos que muitos desafios continuam existindo”, contou.

A artista contou que o processo de pós-produção durou um ano e passou por quatro versões até chegar ao resultado final. Para ela, as premiações representam uma conquista que, além de ser extremamente significativa por todo o simbolismo que carrega, também contribui para o reconhecimento e fortalecimento de sua trajetória profissional.

“Durante os dias do festival, eu ouvia pessoas comentando sobre a montagem do filme, e isso já estava me dando esperança de que poderia ganhar esse prêmio. O de Melhor Figurino também foi muito importante, porque foi uma forma de validar um trabalho que eu já faço. E o prêmio de Melhor Atriz foi a maior surpresa de todas, porque eu realmente não esperava ganhar. Fiquei muito feliz, porque é um trabalho que também faço há quase dez anos. Foi uma experiência muito importante para minha trajetória pessoal e profissional”, reforçou.

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