Projeto ABC do Filé conquista prêmio internacional de design

Latin American Design Awards premiou o estudante Pedro Zip e o egresso Paulo Accioly por trabalho que transforma bordado em tipografia digital

Por Izadora Garcia - relações públicas
Pedro Zip e Paulo Accioly foram premiados no Latin American Design Awards (LAD Awards)
Pedro Zip e Paulo Accioly foram premiados no Latin American Design Awards (LAD Awards)

Um projeto que une tradição, tecnologia e identidade cultural alagoana conquistou reconhecimento internacional. O ABC do Filé, desenvolvido pelo estudante de Design da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Pedro Zip e pelo egresso Paulo Accioly, foi premiado no Latin American Design Awards (LAD Awards), uma das principais premiações de design da América Latina. O resultado foi anunciado durante a cerimônia realizada em 10 de outubro, em Lima, no Peru.

A iniciativa transforma os pontos tradicionais do bordado filé, manifestação cultural representativa de Alagoas, em uma tipografia digital. Idealizado por Paulo Accioly, egresso da especialização em Práticas Culturais Populares, o projeto contou com a colaboração de artesãs do Instituto do Bordado Filé (Inbordal) e teve na atuação de Pedro Zip uma etapa fundamental para transportar os desenhos do artesanato para o ambiente digital.

Em maio deste ano, o trabalho havia sido selecionado entre os cinco finalistas da categoria Tipografia Estudantil. A conquista representa mais um reconhecimento para uma iniciativa que aproxima o saber tradicional das possibilidades contemporâneas do design gráfico. “Recebemos o resultado no palco do Latin Design Awards, assim como todos os vencedores. Ficamos bastante felizes com o reconhecimento do projeto”, relembra Pedro Zip.

Do bordado à tipografia digital

O ABC do Filé surgiu da aproximação entre o design gráfico e o bordado filé, técnica artesanal tradicional de Alagoas. A proposta consiste em associar cada uma das 26 letras do alfabeto a um ponto característico do bordado, criando uma fonte digital que permite utilizar os desenhos tradicionais na composição de textos e projetos gráficos.

O desenvolvimento envolveu pesquisa participativa com artesãs do Inbordal, análise do Manual de Instruções do Filé e mapeamento técnico dos pontos. A partir desse levantamento, os desenhos foram convertidos em vetores e organizados em uma tipografia do tipo dingbat, na qual os caracteres representam símbolos e formas gráficas, em vez de letras convencionais.

A ferramenta amplia as possibilidades de aplicação do filé em projetos de design, moda e comunicação visual. A partir dela, é possível compor digitalmente padrões que podem servir de referência para a produção de peças bordadas pelas artesãs.

O projeto também passou por treinamentos, testes e protótipos, que culminaram em uma apresentação na edição de 2024 da São Paulo Fashion Week (SPFW). Desde então, a iniciativa circulou em diferentes espaços e veículos especializados, ampliando a visibilidade do bordado alagoano.

Reconhecimento internacional e valorização da cultura alagoana

Para Pedro e Paulo, a premiação reforça a capacidade criativa de Alagoas e evidencia a importância de desenvolver projetos conectados às referências culturais do próprio território. “Alagoas é uma grande potência para o meio criativo do mundo, ainda mais quando a criação é feita por quem vive a cultura”, destacam.

Pedro conta que participar do Latin American Design Awards era um desejo antigo. Antes mesmo de o projeto chegar à premiação, ele conversava com Paulo sobre a possibilidade de alcançar um evento dessa dimensão. A conquista, segundo o estudante, foi especialmente marcante pelo contato com profissionais cujos trabalhos já admirava: “Não queria tornar isso um processo validador, mas que, no fim, finaliza um trabalho muito bem-sucedido. Durante a premiação, tivemos contato com várias pessoas que desenvolvem trabalhos gigantes pelo Brasil e pelo mundo”, afirma.

A experiência também foi marcada pela surpresa de subir ao palco e receber o reconhecimento de profissionais da área. Mesmo depois de conquistar o prêmio, Pedro diz que ainda é difícil dimensionar o que aconteceu. “Ainda foi surpreendente subir ao palco de um dos maiores eventos de design do mundo, receber um prêmio e ser aplaudido pelos designers de quem sou fã. Ainda é meio doido pensar sobre isso”, relata.

Artesãs compartilham a conquista

A participação das bordadeiras foi essencial para a construção do ABC do Filé. O conhecimento das artesãs sobre os pontos tradicionais orientou a pesquisa e contribuiu para que a transposição para o meio digital preservasse as características da técnica artesanal.

Segundo os criadores, todas as pessoas envolvidas na idealização, na pesquisa, no desenvolvimento e na materialização do projeto estão contempladas nos créditos, de forma horizontal. O reconhecimento, portanto, é compartilhado por quem contribuiu para que a iniciativa se tornasse realidade. “As bordadeiras foram essenciais para a pesquisa dos pontos e para a implementação do projeto”, ressaltam.

A proposta também busca ampliar o acesso à ferramenta. O ABC do Filé está disponível para uso público, permitindo que designers, estudantes, estilistas e outras pessoas interessadas explorem a tipografia e desenvolvam novas aplicações a partir dos pontos do bordado.

Para Pedro e Paulo, a premiação e a repercussão na mídia nacional e internacional podem levar o projeto a novos públicos, contribuindo para que mais pessoas conheçam a técnica e suas possibilidades.

Formação acadêmica e representatividade no design

Estudante do oitavo período de Design da Ufal, Pedro Zip destaca a importância da formação acadêmica para o desenvolvimento de seu trabalho, especialmente no que diz respeito à construção e ao refinamento dos vetores e à adaptação das formas gráficas ao ambiente digital.

Ele também reconhece que parte dos conhecimentos utilizados no projeto foi adquirida de maneira autodidata. Na avaliação do estudante, a graduação contribui para aprimorar a produção e ampliar as possibilidades de atuação profissional.

Pedro ressalta, contudo, que a participação na cerimônia não contou com apoio financeiro da Universidade ou do curso de Design. Segundo ele, os custos foram cobertos com recursos próprios e contribuições de parceiros. Para além do reconhecimento profissional, a conquista tem um significado particular para o estudante, que chama a atenção para a importância da representatividade de pessoas negras e LGBTQIA+ nos espaços de destaque do design. “Quando a gente pega a produção de design, principalmente no curso de Design, raramente entramos em contato com designers regionais, e quando a gente fala de designers pretos, então… é quase zero”, ressalta.

Ele espera que sua trajetória ajude outros estudantes a enxergar possibilidades de participação em eventos e espaços de reconhecimento nacionais e internacionais. “Acredito que ter um estudante de Design, preto e LGBT nessa posição ainda é possível acreditar que dá para chegar lá e participar dos mesmos ambientes que as nossas referências, e que a gente admira tanto. Não precisamos ser menos que o resto do país, também podemos conquistar o mundo”, afirma.

O estudante também incentiva outros alunos, especialmente aqueles que enfrentam barreiras de acesso e representatividade, a inscreverem seus projetos em premiações e mostrarem o potencial de suas produções.

Projeto que segue disponível ao público

Embora a premiação abra novas possibilidades de visibilidade, Pedro e Paulo explicam que o ABC do Filé já é um projeto concluído. Para eles, o reconhecimento internacional não representa o encerramento de uma trajetória criativa, mas uma etapa de consolidação de um trabalho que já circula e pode continuar sendo utilizado por outras pessoas.

A tipografia permanece disponível para uso, de modo que novos designers e interessados possam criar, escrever e explorar aplicações a partir dos pontos tradicionais do filé.

Ao refletir sobre o legado da iniciativa, os criadores destacam a possibilidade de fortalecer referências locais e ampliar a presença da cultura alagoana no design contemporâneo.

“Acredito que a possibilidade, mesmo. Que somos potência para cultura, artesanato e design mundial. Podemos utilizar de referência a nossa terra, sem precisar apenas de referências estrangeiras. Somos nossas próprias referências”, conclui Pedro.

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