Aula inaugural na Ufal contou com palestra do jornalista Leonardo Sakamoto
Boas vindas aos estudantes também rememorou a história da instituição, que completa 65 anos em 2026
A Universidade Federal de Alagoas (Ufal) promoveu, na tarde da última segunda-feira (23), um momento especial de recepção aos novos estudantes e boas-vindas à comunidade acadêmica no primeiro semestre de 2026. Um momento de integração, acolhimento e, sobretudo, de celebração pela educação pública de qualidade.
O evento, realizado de forma presencial para alunos dos campi A.C. Simões e de Engenharias e Ciências Agrárias (Ceca) e transmitido de forma simultânea para os campi Arapiraca e Sertão, localizado em Delmiro Gouveia, marcou o início de uma nova jornada de autoconhecimento e aprendizado profissional.
Um sonho que se inicia para diversos jovens, como Clara Letícia, de 18 anos, aprovada no curso de Matemática/Licenciatura: “estou mergulhando de cabeça, sem ter certeza, mas disposta a aprender e ver se é isto que quero. Até pensei em trabalhar, mas decidi entrar na faculdade. Sempre com o apoio das pessoas que acompanharam minha trajetória, como a minha mãe, que nunca quis que eu desistisse da universidade, e de professores, que me apoiaram para que eu estivesse aqui hoje”, contou a caloura.
Ufal como instrumento de transformação social
A cerimônia iniciou com a exibição de um compacto do documentário “Dizeres e Memórias do Reitorado”, que narra os 65 anos da Ufal pelo olhar das reitoras e reitores que acompanharam o nascimento, crescimento e consolidação da instituição. Após, foi informada aos estudantes a disponibilização do manual de boas-vindas, com dicas e esclarecimentos que auxiliarão nessa nova jornada.
Em seu discurso, o reitor, Josealdo Tonholo, parabenizou todos os aprovados, pontuando sobre a abrangência da atuação da Ufal: “Nossa universidade está fazendo 65 anos, uma jovem senhora, mas responsável pela transformação da nossa gente. É a maior gestora de desenvolvimento desse estado, que usa a educação para fazer a transformação das pessoas. Muito obrigado pelo crédito que vocês dão à nossa universidade e mantenham-se a postos para serem transformados e ajudarem a transformar a nossa sociedade”.
Representando os estudantes, o coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Ufal, Matheus Vasconcelos, destacou a contribuição da Ufal para a sociedade: “O ingresso na universidade é um sonho, uma alternativa de ascensão social, de alcance de objetivos que sonhamos desde pequenos, do que a gente quer ser profissionalmente. Mas não transforma só academicamente, também transforma socialmente. Nossos pais pagaram impostos que permitiram a nossa entrada, e retribuímos isso, através da extensão e da nossa carreira, para a sociedade. E, para isso, temos que popularizar e democratizar o acesso ao ensino superior. Quantos entraram através das cotas sociais, étnico-raciais e, agora, a primeira instituição a ter cotas para pessoas trans. Que a gente siga avançando cada vez mais e que seja uma universidade vestida de povo”, pontuou.
A presidente da Associação dos Docentes da Ufal (Adufal), Rosângela Reis, falou um pouco mais sobre o papel da entidade na luta pelos direitos dos professores, ressaltando que a atuação dos docentes vai além do ensino, fomentando também o desenvolvimento de pesquisa, extensão e apoio aos estudantes.
Em seu discurso de boas-vindas, a vice-reitora, Eliane Cavalcanti, parabenizou todos os estudantes e relembrou a caminhada de cada um em busca da concretização de seus sonhos e objetivos, ratificando também o papel social da universidade, que, por meio de seus profissionais e alunos, atua em diversas frentes e segmentos em defesa dos direitos humanos.
Responsável pela apresentação do convidado especial, Leonardo Sakamoto, o jornalista Carlos Madeiro pontuou sobre o pensamento errôneo de que as universidades públicas corrompem o sujeito, rememorando sua jornada na Ufal enquanto estudante, citando também os impactos positivos que a pesquisa traz para a sociedade, como a realizada pela doutora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que vem permitindo o uso da polilaminina na reabilitação de pacientes com lesão na medula.
Críticas à falta de pensamento crítico
A palestra do jornalista Leonardo Sakamoto, intitulada “Falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto”, debateu sobre a defesa exacerbada de visões de mundo sem conhecimento ou entendimento do que é dito, criticando visões contrárias, o que seria uma burrice:
“Ressalto que a burrice não é falta de conhecimento específico, a beleza da sociedade não é todo mundo saber de tudo, mas sim ter complementaridade de saberes. É burrice achar que quem não usa a norma culta da língua não deve participar da vida pública; é quem menospreza o conhecimento, desprezando quem detém o conhecimento e o estimula. Burrice é soberba e achar que quem discorda da sua visão de mundo é manipulado, influenciável ou pessoa que não sabe argumentar sobre, e não aceita a existência de qualquer fato que vá na direção contrária da sua crença. E, diante de denúncias ou críticas baseadas em fatos, a burrice brada que é tudo fake news, por não admitir ser contestada com a verdade dos fatos”, frisou o jornalista.
Sakamoto também destacou o falso moralismo existente na sociedade, com justificativas vazias para ratificar comportamentos que considera não adequados, mascarando reais motivos de repulsa à atividade intelectual existente. Também expôs a violência presente nas discordâncias de opiniões, com comentários agressivos e pontuados em tons de ameaça diante de pessoas com pontos de vista divergentes.
Por fim, o palestrante pontuou sobre os direitos humanos, exemplificando ações como o direito à moradia, qualidade de vida e respeito à população independentemente do status social, além do menosprezo em relação às necessidades humanas, latentes em nossa sociedade atual: “nossos líderes estão mais preocupados com a vida em Marte do que a vida na Terra”.
A ampla participação do público foi elogiada pelo jornalista: “encontrei um público extremamente interessado em entender e discutir a democracia, direitos humanos, em debater formas, inclusive, de criar pontes para que o Brasil reduza toda essa polarização, que acaba atrapalhando bastante a validação dos direitos efetivos. A universidade tem um papel fundamental na construção não apenas da cidadania, mas na construção do respeito, da empatia, na construção de pontes entre diferentes pontos de vista. Então é com muita alegria que eu vim pra cá para poder, na verdade, trazer e contribuir um pouco com esse debate”, finalizou Sakamoto.
Assista à aula inaugural completa através do canal da Ufal no Youtube.