Pesquisa da Ufal evidencia força da comunicação comunitária nas periferias

Trabalho de concluintes de Relações Públicas estuda o Programa Conexão Periferia e recebe nota máxima

Por Ryan Charles - estudante de Jornalismo
Trabalho inovador deu destaque à periferia
Trabalho inovador deu destaque à periferia

Na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) sempre há espaço para os estudantes explorarem a diversidade de seus cursos durante a graduação. Isadora Ulisses e Sérvio Diniz, concluintes do curso de Relações Públicas, são exemplos disso. Com o trabalho de conclusão de curso (TCC) os egressos adentraram no universo da comunicação dando destaque a um trabalho inovador na periferia. 

Apresentado em novembro de 2025, o trabalho foi orientado pela professora Manuela Callou e teve como tema “Impacto da Comunicação Comunitária no Fortalecimento da Identidade Cultura Periférica: O Caso do Programa Conexão Periferia” e, como o nome já diz, destaca o trabalho comunicacional e voluntário realizado pelo programa. 

Idealizado pela apresentadora Alyne Sakura há quase uma década, o programa constrói um espaço democrático para fazedores de cultura invisibilizados pela mídia tradicional discutirem ideias e apresentarem sua visão sobre o mundo, focando sempre na construção cultural dos convidados. Além disso, o projeto faz cobertura em eventos do segmento e foi em uma dessas coberturas que Isadora conheceu e se encantou pela ação.

A egressa explicou que já tinha decidido outro tema para retratar como TCC, mas tudo mudou desde aquele primeiro contato com o programa e não tinha dúvidas que ele seria seu objeto de estudo devido à sua relevância para a comunicação local e pelo formato pioneiro dele dentro das periferias. 

“Eu conheci o projeto do Movimento dos Povos das Lagoas, onde, todo primeiro domingo do mês, aconteciam atividades na beira da lagoa. O Programa Conexão Periferia fazia a cobertura desse evento. E, a partir daí, vendo a forma como ele se comunicava com o público e como a comunidade também auxiliava nesse processo, eu me encantei. Simplesmente me encantei. Decidi jogar fora o outro tema, que já estava todo pronto, começar tudo do zero”, relembrou Isadora. 

À partir disso, ela convidou Sérvio, que é seu parceiro desde o primeiro período, e buscaram entender mais sobre a existência da ação e seu impacto na comunicação local e detalhou os desafios da escolha do tema. 

“Ele começou na rádio, discutindo política, com o pessoal ouvindo reggae, hip hop. Depois, teve um período em que o programa esteve na TV e a gente conseguiu um portfólio legal dessa fase, mas com muita dificuldade, porque não havia dados disponíveis. A gente viu uma dificuldade muito grande enquanto pesquisadores, porque a comunicação comunitária ainda é invisibilizada. Quando a gente precisava de embasamento teórico, de falas ou reportagens sobre o próprio Conexão, encontramos apenas uma única entrevista Isso mostra o quanto a comunicação periférica ainda é invisível para os meios de comunicação tradicionais. Essa foi, sem dúvida, a maior dificuldade”, destacou. 

Isadora conta que, mesmo com as adversidades, ela e sua dupla não pensaram em desistir do tema e que acabaram descobrindo muita coisa boa graças à pesquisa sobre o programa. Para ela o grande destaque é que, mesmo sendo apagado pela mídia local, a maior surpresa foi o alcance que ele tem, alcançando até público internacional. 

“A gente fez análise do Instagram e do YouTube. Quando puxamos essas métricas, vimos que pessoas fora do Brasil, como da Groenlândia, Canadá e Finlândia, acessaram o perfil com frequência. Também havia dados de outros estados brasileiros. Isso mostrou que o Conexão consegue sair da bolha de Alagoas e atingir outros territórios, inclusive internacionais. Isso evidencia como a internet rompe fronteiras. Eu fiquei realmente surpresa com o resultado”, ressaltou.

Valorizando as vivências periféricas

A idealizadora, Alyne Sakura, conta que, inicialmente, foi resistente, mas que  acredita que a universidade precisa estar presente nesses espaços de construção política e cultural. “Já vivi situações em que pesquisadores iam aos territórios, nos estudavam como ratos de laboratório e nunca mais voltavam. A gente nunca sabia o que foi feito, o que foi dito. Mas o trabalho foi muito bem elaborado, muito cuidadoso. E algo que me marcou foi a delicadeza com que Isa e Sérvio falaram do Conexão Periferia. Mesmo usando a linguagem acadêmica necessária ao TCC, eles fizeram questão de valorizar o nosso falar periférico e a importância da nossa comunicação”, disse a apresentadora.

Sakura afirmou ainda que, mesmo não tendo formação acadêmica, vive a comunicação há bastante tempo e que sempre quis evidenciar toda potência que existe dentro das periferias, e que foi emocionante ver pesquisadores da área interessados em seu projeto.

“O foco principal do Conexão sempre foi dar visibilidade aos artistas e à cultura periférica, mas isso não me impediu de entrevistar dessa bolha ser furada, inclusive para fazer com que o Conexão Periferia chegasse em determinados espaços. E isso foi muito bem representado na pesquisa. E o que Isa e Sérvio mostraram no TCC foi que o Conexão Periferia não é só visibilidade, é memória. Somos nós contando nossas próprias histórias”, reforçou Sakura.

Dever cumprido

E a apresentação do trabalho rendeu a nota máxima para a dupla. Isadora relata que a felicidade tomou conta dela e de Sérvio. “Foi uma sensação de dever cumprido. Foram dois anos e meio de construção do TCC, com muitas dificuldades. O Sérvio sofreu um acidente e ficamos um tempo parados, tivemos problemas no campo de pesquisa e ainda depois enfrentamos uma greve. Foi um contexto bem caótico. Mas o Sérvio é minha dupla de vida.  Dividimos tudo.  A gente se organiza muito bem profissionalmente, e isso refletiu no TCC também”, comemorou.

Para Sakura, essa conquista também a impacta como comunicadora. “Quando o TCC recebeu nota máxima, eu chorei. Eu sou comunicadora popular, sou do movimento hip-hop, sou rapper, sou “artivista”. Eu chorei a apresentação inteira. Quando a professora falou que era nota dez, eu senti como se aquele dez fosse meu também.  Fazer comunicação popular, ser comunicadora, ser repórter, está falando, é um ato revolucionário. Então, ver dois revolucionários tirando dez foi lindo. O coração quase saiu pela boca ", relembrou.

Ela acrescenta que, quando leva o Conexão Periferia para dentro da universidade, leva a cultura periférica. E não basta só abrir as portas, é preciso fazer com que se sinta parte “Ainda é muito real o distanciamento da menina periférica, do menino preto periférico, da universidade. Mas estar dentro da universidade, dialogando com ela, sendo ouvida, foi muito bonito”, exclamou.

Agora formada, Isadora disse que o título de Relações Públicas formada pela Universidade Federal de Alagoas é realizar o sonho de uma vida e que conclui essa etapa tão realizada quanto quando ingressou.

“Era exatamente o curso que eu queria. Me apaixonei ainda mais ao longo da graduação. Eu amo minha profissão e acho o profissional de Relações Públicas extremamente multifacetado. A gente tem um universo de possibilidades. Todo lugar precisa de um profissional de Relações Públicas. Se isso fosse mais reconhecido, estaríamos muito melhor posicionados no mercado. Ainda temos muito a evoluir profissionalmente, mas existe esperança”, finalizou.

 

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