Doutoranda participa de curso sobre arbovírus pela Imperial College London
Além de representantes brasileiros, a capacitação contou com pesquisadores oriundos da Colômbia, Argentina, países da África do Sul, Reino Unido e Paquistão. O curso teve como local a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estado de São Paulo (SP)
- Atualizado em
A bióloga e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Camila Rose Bezerra de Lima, foi a única aluna selecionada da instituição alagoana para participar do curso sobre Vigilância Genômica de Arbovírus promovido pela Imperial College London (Inglaterra), uma das universidades mais antigas, tradicionais e renomadas do mundo. Além da pós-graduação que faz na Ufal, Camila trabalha no Laboratório Central de Saúde Pública de Alagoas (Lacen-AL), onde atua no setor de vigilância genômica de arbovírus e vírus respiratórios, contribuindo diretamente para o monitoramento epidemiológico e a resposta em saúde pública no Estado.
De acordo com a representante da Ufal, o curso teve como objetivo capacitar jovens cientistas, pesquisadores e formuladores de políticas públicas brasileiros para o sequenciamento genômico de arbovírus (vírus transmitidos por mosquitos), considerando que o Brasil enfrenta grandes epidemias de dengue, chikungunya e oropouche, e que representam desafios constantes para a saúde pública.
Arbovírus são vírus transmitidos por artrópodes, incluindo os mosquitos. Entre os principais exemplos estão os vírus da dengue, Zika, chikungunya, Oropouche,Mayaro e vírus da febre amarela, que representam desafios na saúde pública no Brasil e no mundo. “Esses vírus podem causar desde quadros leves até formas graves, com complicações hemorrágicas, neurológicas, podendo evoluir ao óbito, além de impactos socioeconômicos significativos em períodos de surtos e epidemias, como observado em 2024, onde mais de 6 milhões de pessoas foram acometidas pela dengue no Brasil”, diz a pesquisadora .
Ela destaca que a vigilância genômica dos arbovírus é fundamental porque permite monitorar a introdução de novas linhagens e variantes virais, detectar mutações associadas a uma maior transmissão e virulência, identificar as rotas de dispersão do vírus entre municípios, estados ou países, colaborar com estratégias em saúde pública, como a sugestão de medidas de controle do vetor e incentivo a vacinação, além de antecipar possíveis surtos antes que atinjam grandes proporções. “Assim, a vigilância genômica não atua apenas no combate aos arbovírus, mas principalmente na prevenção e na resposta rápida a emergências epidemiológicas, fortalecendo a capacidade do sistema de saúde em reduzir casos graves e óbitos”.
Estudos científicos
Camila é graduada em Ciências Biológicas pela Ufal, onde também é mestre em Ciência Animal pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal nessa mesma instituição. No mestrado, sob orientação do professor Abelardo Silva Júnior, desenvolveu pesquisa na área de Virologia Molecular com enfoque em Saúde Única financiado pela Iniciativa Amazônia +10, trabalhando com a identificação de vírus emergentes e zoonóticos em botos amazônicos e em águas residuárias do Rio Tocantins.
Os estudos foram desenvolvidos no Laboratório de Pesquisa em Virologia e Imunologia (Lapevi), que pertence ao Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), unidade acadêmica do Campus A. C. Simões, da Ufal. Parte dos experimentos foi realizada na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e na Universidade Rural da Amazônia (UFRA), parceiras da pesquisa.
Como aluna do doutorado do PPGCA, Camila vem desenvolvendo estudos sobre vigilância genômica de vírus respiratórios em Alagoas, como também, realiza pesquisas voltadas para arbovírus no estado. Além do professor Abelardo Silva Júnior, o estudo tem também a orientação da professora Thais Fernanda de Campos Fraga da Silva.
“Para o doutorado que realizo, a capacitação da Imperial College London teve contribuição direta. O aprofundamento em técnicas de sequenciamento por Nanopore, análise de variantes, construção de árvores filogenéticas e integração de dados genômicos com informações epidemiológicas, fortaleceu as abordagens metodológicas que aplico na vigilância de vírus respiratórios e arbovírus em Alagoas. Além disso, o curso possibilitou ampliar redes de colaboração científica, o que é fundamental para o avanço de pesquisas na área de saúde pública”, enfatiza Camila. O estudo científico tem também como local o Lapevi e conta com a parceria do Lacen-AL.
O Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da (PPGCA) da Ufal está na estrutura do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (Ceca) oferta mestrado e doutorado voltados para o desenvolvimento regional, saúde única e produção animal sustentável. Tem conceito 4 na Capes e visa formar pesquisadores e profissionais qualificados.
Troca de experiências
O curso, realizado presencialmente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de 2 a 6 de fevereiro, segundo a pesquisadora, representou uma conquista acadêmica e científica e diz considerar ter sido relevante para a Ufal e para a formação de recursos humanos na área de saúde pública. A capacitação reuniu 53 participantes de diferentes países, incluindo Brasil, Colômbia, Argentina, países da África do Sul, Reino Unido e Paquistão, o que proporcionou um ambiente de grande troca científica e colaboração internacional.
Entre os principais conteúdos abordados, destacaram-se: A importância da vigilância genômica no monitoramento e controle de arbovírus; Os principais arbovírus circulantes no Brasil e no mundo; Técnicas de sequenciamento genético utilizando a plataforma Nanopore; Análise de variantes e mutações; Construção de árvores filogenéticas; Aplicações de ferramentas de bioinformática capazes de gerar dados.
Sobre ser a única aluna da Ufal selecionada para participar do curso realizado pela renomada universidade europeia, a pesquisadora, aproveita para destacar: “Para mim representou, um reconhecimento da trajetória acadêmica e profissional que venho construindo na área de vigilância genômica. Também foi uma grande responsabilidade, por saber que eu estava representando a universidade e o estado de Alagoas em um ambiente internacional de alta qualificação científica. O curso ampliou minha visão sobre a aplicação prática da vigilância genômica em cenários reais de saúde pública, especialmente no contexto de arbovírus”.
E enaltece a positividade proporcionada pela capacitação: “A troca de experiências com pesquisadores altamente qualificados, com destaque para as doutoras Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP). Em 2020, sua equipe foi responsável pelo primeiro sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 na América Latina, apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso no Brasil, além de pesquisadores de renome da Imperial College London”. Complementa: “Uma experiência que me permitiu compreender melhor como estratégias de sequenciamento e análise genômica vêm sendo utilizadas globalmente para monitoramento de surtos e detecção precoce de novas variantes”.
Qualificação e impacto social
Sobre a oportunidade de um treinamento em uma área tão específica, especialmente na vigilância genômica, a doutoranda diz que representa um investimento na capacidade técnica do sistema de saúde. “Quando um profissional é capacitado em técnicas avançadas de sequenciamento e análise genômica, ele passa a contribuir de forma mais estratégica para a detecção precoce de surtos, identificação de novas variantes e monitoramento da circulação viral. Isso permite respostas mais rápidas, direcionamento adequado de recursos e tomada de decisão baseada na ciência”, afirma.
Aproveita para fazer um destaque para o grande benefício proporcionado pela capacitação, também do ponto de vista social:
“Melhor prevenção, diminuição de casos graves, ausência de colapso nos hospitais e maior segurança na saúde da população. A vigilância genômica funciona como um sistema de alerta que é capaz de antecipar cenários e evitar que situações relacionadas aos agentes infecciosos se agravem em determinado local. Além disso, treinamentos internacionais fortalecem as colaborações científicas e possibilitam que metodologias atualizadas sejam implementadas localmente. Em resumo, capacitação técnica nessa área representa ciência aplicada com impacto real na vida da população”, finaliza.
Mais informações sobre o evento aqui.