Estudante de Agroecologia apresenta resultado de estudo em texto literário
Pesquisa de William Calixto, na área de Botânica, foi selecionada para compor publicação nacional e agraciada com o Prêmio de Excelência Acadêmica da Ufal 2024/2025
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Uma visita de campo em busca de possíveis novas espécies que, após encontradas, serão estudadas e apresentadas no formato de artigos acadêmicos. Essas são algumas das atividades rotineiras no trabalho de quem se dedica à pesquisa na área de Botânica, ramo do conhecimento dedicado ao estudo das plantas.
Só que no caso de William Calixto, estudante de Agroecologia do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (Ceca) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que tem começado a pesquisar nessa área, a experiência seguiu um percurso um pouco diferente. Ele fez a visita e se valeu da precisão da lente científica, mas usou de sua habilidade com as palavras e escolheu a linguagem poética para apresentar parte de seu estudo e o processo de identificação da espécie Praxelis clematidea, mais conhecida pelo nome de botão-azul. O estudo, realizado em uma área de mata no município alagoano de Colônia Leopoldina, deu origem ao conto “O Segredo Lilás da Serra Alagoana”.
O texto concorreu ao concurso de Poesia Floral, durante o 75º Congresso Nacional de Botânica, realizado em agosto de 2025 e, por unir a riqueza cultural ao conhecimento botânico, foi um dos 20 selecionados para compor a publicação nacional do e-book “A arte pela botânica: obras artísticas para apreciação e ensino sobre o reino vegetal”, editado pela Sociedade Botânica do Brasil (SBB), entidade da qual William se tornou sócio por causa do projeto. Clique aqui para conferir a publicação .
Em “O Segredo Lilás da Serra Alagoana”, o estudante da Ufal une literatura e natureza, suas duas paixões, para descrever como foi sua primeira visita de campo e o processo de identificação da espécie. O conto transporta o leitor para o local, fazendo-o imaginar e sentir, de uma forma muito particular, como foi aquele momento de pesquisa.
“O conto é uma narrativa do 'batismo' da minha primeira viagem oficial de coleta. A Praxelis clematidea, de fato, foi identificada pelo professor Gustavo Heiden, um especialista nessa família botânica, e ela foi um dos achados. Ali, montei as minhas primeiras exsicatas [exemplares de plantas preparadas para serem armazenadas em herbários], sentado nas pedras, e que se tornou o símbolo perfeito desse meu início na botânica”, relatou.
A intenção de se valer da literatura, diz William, foi “diluir” os desafios da vivência acadêmica e que apresentar o conteúdo do arcabouço científico “poeticamente” foi inspirador e atrativo. “Escolhi a linguagem literária, ou poética, para humanizar o rigor científico. Queria que o leitor sentisse a textura do caule hirsuto e o tom exato do lilás das flores. Algo que um relatório técnico nem sempre permite explorar com emoção”, contou.
Sobre a pesquisa
O conto de autoria de William Calixto tem origem em uma experiência prática de pesquisa botânica pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O estudo foi agraciado com o Prêmio de Excelência Acadêmica da Ufal, ciclo 2024/2025.
“Eu estava em processo de visita a cinco municípios alagoanos, catalogando espécies da família Asteraceae, a mesma do girassol e da carqueja, que fossem medicinais e de interesse para polinizadores. Essa etapa ocorreu entre o final de dezembro de 2024 e o início de janeiro de 2025. O objetivo central era a coleta e a herborização de espécies para fins de estudo da flora nativa alagoana”, detalhou.
O resultado, informa o estudante, além de dados técnicos, foi o registro de espécies em áreas de difícil acesso, como a Mata Atlântica, Floresta Ombrófila Densa da região. O material coletado foi depositado no Herbário MAC do Instituto do Meio Ambiente (IMA) e apresentado no 75º Congresso Nacional de Botânica, em Parnaíba, Piauí.
Ao longo do estudo, realizado sob orientação da professora Ana Paula do Nascimento Prata Lins, em parceria com Gustavo Heiden, da Embrapa Clima Temperado, William detalha que foram identificadas 15 espécies e 14 gêneros de Asteraceae, também conhecida como Compositae, em regiões alagoanas de apiário e meliponário.
“Essas ocorrências correspondem a cerca de 21,4% do total de espécies registradas para a família no estado de Alagoas. Com destaque para as espécies Baccharis cinerea DC. (Erva de Santa Maria), Conyza sumatrensis (Retz.) (Buva ou Avoadinha), E. Walker (Rabo de Raposa), Sphagneticola trilobata (L.) Pruski (Margarida) e Vernonanthura brasiliana (L.) H.Rob. (Assa Peixe) que ocorreram nas cinco áreas estudadas”, informou.
A escolha pela linguagem literária
Além de estudar Agroecologia, integrar o Laboratório de Sistemática Vegetal, William é ator e escritor, membro da Academia Palmeirense de Letras. “Sempre utilizei da escrita, desde criança, como uma forma de manter minha sanidade nesse mundo tão intenso e caótico; ou, talvez, eu seja intenso e tenha uma mente caótica. Por isso, gosto de transcrever o que sinto, percebo e vejo. Não poderia ser diferente no meio científico e sou apaixonado pela pesquisa. Cheguei muito verde e a professora Ana Paula Lins me guiou com firmeza, afeto e presença nesse sentido”, explicou.
Desde os primeiros anos do curso, ele lembra que sempre buscou não se limitar às normas do texto acadêmico tradicional e que a ideia do conto surgiu da necessidade de traduzir, aproximar os termos técnicos taxonômicos de uma maneira plural, acessível e atrativa, além de poder compartilhar as experiências dele como iniciante na pesquisa.
“O conto 'dilui' a experiência do projeto de pesquisa em narrativa. Sempre fui amante das palavras e do reino vegetal. Meu objetivo é provar que a linguagem científica pode, e deve, ser aproximada do público por meio da arte. O conto mostra uma jornada que une ciência, arte e o apoio crucial de nossos pesquisadores e da comunidade local, além de evidenciar a amplitude da expressão artística que pode servir de ponte para aproximar o conhecimento científico de outros discentes e futuros acadêmicos”, comentou.
E destacou: “O Segredo Lilás da Serra Alagoana não é apenas um conto premiado, mas um convite à preservação da nossa biodiversidade e à valorização da pesquisa feita na Ufal”.