Estudante conquista Excelência Acadêmica em pesquisa sobre o bem-estar de idosos

Trabalho integra educação midiática e atividade física para promover saúde, inclusão digital e bem-estar na terceira idade

Por Ryan Charles - estudante de Jornalismo
- Atualizado em
Utilizando dinâmicas sobre aplicativos, segurança digital, análise de propagandas, inteligência artificial e jogos educativos, José Cícero conseguiu unir educação em tecnologias com educação física
Utilizando dinâmicas sobre aplicativos, segurança digital, análise de propagandas, inteligência artificial e jogos educativos, José Cícero conseguiu unir educação em tecnologias com educação física

O estudante do Instituto de Educação Física (Iefe) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), José Cícero Pereira da Silva, foi um dos selecionados para receber o título de Excelência Acadêmica do Programa de Iniciação Científica Ciclo 2024/2025 em razão de um trabalho inovador que une educação midiática para idosos no contexto da educação física.

A pesquisa surgiu a partir de sua participação no grupo Observatório de mídias, tecnologias digitais e práticas corporais (Remix/Ufal), coordenado pelo professor Silvan Menezes, que estuda a educação midiática alinhada ao bem-viver e às pessoas idosas, e ativou a curiosidade do estudante sobre o tema.

“A ideia era falar sobre tecnologia, mas também dar um passo atrás para entender como as pessoas estão se relacionando com ela. Trata-se de educar para desenvolver um pensamento mais crítico e ético sobre o uso da tecnologia, principalmente entre pessoas idosas, que muitas vezes sofrem exclusão digital”, contou.

Para a escrita do artigo, o estudante contou com a orientação do coordenador do grupo e desenvolveu a ação em dois projetos de extensão do Iefe, o grupo de musculação e o de ginástica, e adotou uma abordagem qualitativa, descritiva e exploratória, através da aplicação de formulários, entrevistas e planos de aula integrados às práticas corporais com idosos de 51 a 82 anos, usuários de tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs).

José explicou que as atividades pedagógicas incluíram dinâmicas sobre aplicativos, segurança digital, análise de propagandas, inteligência artificial e jogos educativos, favorecendo a compreensão crítica, a cidadania digital e a integração corpo-mente, e observou que o letramento midiático contribuiu para maior autonomia, fortalecimento de vínculos sociais e reflexão ética sobre o uso das mídias, ampliando as possibilidades de inclusão digital e promoção da qualidade de vida.

Mesmo com o engajamento dos idosos, o estudante enfrentou desafios; o maior deles foi as diferentes propostas de experimentação ao abordar o assunto com os idosos, já que a temática ainda é pouco conhecida entre o público.

“Eu parto da ideia de que a educação deve ser integral. Qualquer espaço pode ser educativo. Usei ludicidade, dinâmicas e práticas corporais para inserir a educação midiática, então ajustei as abordagens entre os grupos: o de ginástica era mais dinâmico e lúdico, enquanto o de musculação era mais estruturado. Muitas vezes os participantes confundiam assuntos ou utilizavam o espaço como desabafo sobre suas experiências com tecnologia e exclusão digital. Foi necessário ter jogo de cintura para conduzir tudo”, explicou.

O professor orientador contou que o diferencial para que o trabalho tomasse forma foi justamente a metodologia de José para entender a necessidade de cada participante e acredita que essas estratégias, inclusive, podem ser utilizadas em diferentes contextos por profissionais da saúde. “Foi um processo muito criativo, com resultados positivos. Os idosos demonstraram engajamento, interesse e até pediram o retorno dele ao projeto”, destacou Silvan.

Para José, além dos resultados obtidos para o artigo, a produção resultou em uma troca significativa para sua trajetória profissional. O contato com os participantes ultrapassou o contato acadêmico e se transformou em carinho. “Do lado de fora, às vezes você não percebe o impacto que tem na vida do outro. Mas as conversas foram muito marcantes, porque eles conseguiam se expressar. Às vezes você via alguém querendo falar, mas com vergonha, e incentivava, e a pessoa começava a se colocar como alguém que também contribui com conhecimento”, revelou.

Trajetória até a excelência

Por trás de toda produção acadêmica existe a história e a visão de mundo de quem a produz, e a trajetória de José remonta às vivências de diversos outros estudantes. Um jovem negro, vindo do interior, com pouco acesso à escolaridade e que enxergou na educação uma oportunidade de transformar sua realidade.

“Eu vim de uma educação pública em que não tive incentivo além do ‘precisa estudar’. Não tive orientação de como estudar, escrever, ler. Não fiz reforço, não fiz cursinho, não tive esse apoio. Quando entrei na universidade, foi quatro anos depois de sair do colégio. Cheguei com muitas dificuldades de aprender, de raciocinar, de escrever e de ler. Mas tive muito incentivo, principalmente do meu orientador Silvan, que desde o primeiro período me acompanha e me motiva”, relembrou.

E mesmo na dificuldade, o estudante não desistiu. Hoje, José conta que já enxerga os impactos que o ensino de qualidade trouxe para sua vida. “É uma luta diária, mas eu realmente vivo a universidade pública. Sou da residência universitária e tive acesso a bolsas que me ajudaram a permanecer. Sem esses auxílios, eu não estaria aqui. Essas oportunidades me permitiram estudar, pesquisar e até viajar. Fiz minha primeira viagem de avião com apoio da universidade. Tenho muito orgulho disso. A universidade pública me deu condições de continuar e crescer”, comemorou José.

Se para José sua caminhada era de dúvida, para o professor Silvan nunca houve incertezas de que o estudante conseguiria alcançar objetivos dos quais ele nem imaginava e que a história do estudante é um dos grandes exemplos pelos quais a educação pública de qualidade deve continuar sendo valorizada.

“O José é um estudante desses que justificam a existência da universidade pública, gratuita e de qualidade. Ele vem do interior do estado, de São José da Laje, em busca de conquistar o mundo por meio dos estudos. Tem uma trajetória de envolvimento com projetos, pesquisas, atividades de extensão e interação com a comunidade desde os primeiros dias na universidade. É um estudante que enfrenta, inclusive, limitações da educação básica, mas que tem superado pouco a pouco todas essas barreiras sociais impostas a esses jovens”, afirmou o professor.

Silvan acrescentou dizendo que o título de Excelência Acadêmica conquistado junto ao estudante é o que dá sentido à docência. “É para isso que nós, docentes do ensino superior, estudamos tantos anos: para potencializar a vida de outras pessoas e formar novas gerações de profissionais, pesquisadores e professores com compromisso social. Com perseverança, apoio da universidade, políticas públicas e acesso à bolsa e à formação superior, ele hoje é reconhecido por seu trabalho”, destacou.

Para José, o título chega como uma forma de consagrar toda essa trajetória, além de ser um incentivo para que continue seguindo o caminho da aprendizagem. “Muitas pessoas falam que quem recebe bolsa não trabalha, mas ninguém vê que estamos trabalhando dentro da universidade, produzindo pesquisa e atuando com a sociedade. A forma como fui criado fez com que eu não visse o estudo como um caminho. Mas estou lutando cada vez mais, e esse reconhecimento me dá fôlego. Mostra que estou no caminho certo e fazendo um bom trabalho. É um reconhecimento da luta que eu tive”, finalizou.

 

 

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