Mestrando da Ufal publica pesquisa na capa da revista internacional Immunology
Estudo reúne evidências sobre os impactos da leishmaniose no sistema imunológico e foi destaque em um dos mais tradicionais periódicos da área
O mestrando do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PPGCS), integrante do Laboratório de Biologia Celular (LBC) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Alef Barros, ganhou destaque internacional ao ter seu artigo publicado e selecionado para ser capa da edição de julho da revista Immunology, um dos mais antigos periódicos científicos na área de imunologia e uma das principais publicações do campo. Acesse aqui.
O trabalho intitulado Thymus and Leishmania at the Crossroads: Autoimmunity and Cancer (Timo e Leishmania na Encruzilhada: Autoimunidade e Câncer), além de ter a autoria principal de Alef, teve como articulador e pesquisador líder o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGCS/UFMT) e egresso da Ufal, Marvin Lins.
A pesquisa também contou com a parceria de outros pesquisadores, sendo eles Gabriel Augusto Leite, vinculado à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e Arthur Gomes de Andrade, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de Danielma Reis, do PPGCS/Ufal, e Luiz Henrique Agra Cavalcante-Silva, professor adjunto do curso de Medicina no campus Arapiraca da Ufal e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF/Ufal).
Foco do estudo
Embora a leishmaniose seja uma doença amplamente estudada, ainda existia uma lacuna na literatura científica sobre seus impactos no timo, órgão responsável pela maturação dos linfócitos T, células fundamentais para o funcionamento do sistema imunológico. Foi justamente essa ausência de uma visão integrada que motivou o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores.
Segundo o mestrando Alef, já existiam diversos estudos investigando os mecanismos da infecção, mas essas informações permaneciam dispersas. "Quando fomos à literatura, encontramos muita coisa sobre timo e doenças parasitárias. Só que você tinha muitos trabalhos em modelo animal, um ou outro em humanos, e muitos artigos discutindo mecanismos. Se eu infectar um camundongo com Leishmania, encontro o parasito na região tímica, mas qual é o impacto disso? Havia muitos trabalhos descrevendo esses achados, mas não existia um estudo que reunisse tudo."
A revisão mostra que o timo exerce um papel essencial no desenvolvimento da resposta imunológica por ser o órgão responsável pela formação dos linfócitos T. De acordo com o discente, compreender como a infecção interfere nesse processo pode ajudar a explicar consequências mais amplas da doença.
"O timo é um órgão extremamente especializado. Ele é um órgão linfoide primário e sua principal função é sintetizar linfócitos T competentes. Então, se você tem um parasito que consegue infectar esse órgão e desregular sua funcionalidade normal, quais impactos isso pode trazer? Foi exatamente essa pergunta que o trabalho buscou responder."
Ao reunir resultados publicados ao longo dos últimos anos, os pesquisadores identificaram um padrão observado principalmente em modelos experimentais: a infecção por Leishmania pode provocar redução da massa do timo, perda de células e comprometimento da produção de linfócitos T.
"Você encontra muitos artigos mostrando que, quando animais são infectados por Leishmania, há diminuição da resposta imunológica, perda significativa do peso e da área do timo e perda de muitas células, principalmente dos linfócitos T. Se você perde o principal órgão responsável por gerar essas células, quais são os impactos? Essa foi a discussão que nós trouxemos."
A partir dessas evidências, o artigo discute possíveis consequências da desregulação do timo para o organismo. Entre elas estão o desenvolvimento de doenças autoimunes e uma possível relação com alguns tipos de câncer, já que a redução dos linfócitos T pode comprometer a capacidade do sistema imunológico de reconhecer células anormais.
O pesquisador ressalta, entretanto, que essas associações ainda não representam uma relação comprovada de causa e efeito. "Nós não podemos bater o martelo porque ainda faltam estudos. Temos um indicativo, mas isso não quer dizer que exista causalidade. O que temos hoje são evidências mostrando a diminuição da resposta imunológica e, a partir disso, discutimos quais podem ser os principais desfechos."
Para Alef, a principal contribuição da revisão foi organizar um conhecimento que antes estava fragmentado em diferentes publicações. "Tudo isso que escrevemos já existia na literatura. O que fizemos foi sintetizar essas ideias em um único lugar. Existiam artigos levantando hipóteses sobre doenças autoimunes, outros relacionando a perda de linfócitos T ao desenvolvimento de doenças malignas, mas não havia um compilado reunindo essas evidências. Foi justamente essa lacuna que o nosso trabalho procurou preencher", destacou.
Referência institucional
Com o destaque, o mestrando leva o nome da Ufal para mais um patamar de relevância internacional. Ele contou que, logo após a publicação, o artigo entrou para a lista dos mais lidos do periódico no período de sua publicação, conseguindo, inclusive, diversos acessos na ResearchGate, uma das maiores redes sociais e bancos de dados acadêmicos do mundo.
“Essa visibilidade foi muito importante, porque desde os primeiros dias o artigo já estava sendo bastante lido e recomendado pelos pesquisadores. Quando, além disso, a editora escolheu o artigo para ser a capa da edição, foi uma alegria enorme. A ciência também é movida pela emoção. Foi o meu primeiro artigo como primeiro autor. Eu já havia participado de outros trabalhos em colaboração com o meu orientador, mas esse foi o primeiro em que assumi a liderança da escrita e da organização do artigo. Então, receber esse reconhecimento e essa visibilidade dá ainda mais motivação para continuar trabalhando”, destacou.
Para Marvin Lins, articulador da pesquisa e pesquisador líder na pesquisa, o resultado é a prova de que, sem ciência, não há futuro e, por isso, é essencial acreditar na educação pública, apesar das adversidades. “Os cientistas brasileiros são brilhantes e cheios de resiliência. Apesar da falta de investimento e do trabalho contrário dos negacionistas, devemos continuar avançando. Propor futuros trabalhos inovadores nos projeta internacionalmente, o que, por sua vez, nos abre portas maiores para colaborações nacionais e internacionais”, reforçou.
Graduado em Ciências Biológicas, mestre e doutor em Ciências da Saúde, todas as formações pela Ufal, Marvin complementou dizendo que é um orgulho ser egresso da Universidade e que a formação fez total diferença em sua carreira científica até hoje. “Lembro dos ensinamentos dos meus professores da graduação e da pós-graduação e, ao caminhar por outras universidades no Brasil, confirmo que nossa base científica no LBC e no ICBS é muito sólida. A capa desta edição da revista Immunology é a ponta do iceberg, mas a base que ninguém vê é a boa formação que tive na Ufal”, afirmou.
Para Alef, a formação na Ufal também representa a realização de um sonho antigo. Ainda criança, sabia que queria ser cientista na Universidade graças à influência de um professor que apresentou as atividades do LBC. Com essa certeza em mente, ingressou na Ufal em 2019, no curso de Ciências Biológicas, e, desde então, vem, entre desafios e êxitos, com o apoio de profissionais que sempre admirou, trilhando a trajetória que sempre sonhou.
“Existe aquela frase atribuída a Isaac Newton: ‘Se enxerguei mais longe, foi porque estava sobre ombros de gigantes’, e eu acredito muito nisso. Ainda no ICBS encontrei o incentivo à pesquisa em todas as suas áreas. O instituto reúne diferentes campos do conhecimento, como saúde, biodiversidade e botânica, e existe um estímulo muito forte para a produção científica. Tive muita sorte de encontrar professores que me ensinaram exatamente isso desde a graduação. Eles sempre estimularam esse olhar crítico, mostrando a importância de questionar, analisar evidências e construir conhecimento científico de forma responsável”, disse.
O mestrando ainda fez questão de destacar que o mérito desta publicação fortalece não só a ele, mas também todo o laboratório, seus colegas de pesquisa e a Universidade como um todo, além de mostrar ao mundo que a pesquisa realizada no Brasil, principalmente no Nordeste, tem impacto e relevância.
“Quando lemos artigos científicos, principalmente internacionais, normalmente encontramos muitos nomes estrangeiros e está na hora de botar os Silva, os Souza ou, no meu caso, os Barros. Por isso, quando um pesquisador brasileiro publica um trabalho desse nível, é algo muito importante. Quando esse pesquisador é do Nordeste, isso tem um significado ainda maior. Está na hora de nomes brasileiros aparecerem cada vez mais na literatura científica internacional”, comemorou.
Para o futuro, Alef contou que pretende manter a mesma ambição que tinha quando ingressou na Ufal, em 2019: continuar contribuindo para que a ciência avance, principalmente para aqueles que não tiveram a mesma oportunidade.
“Acredito que toda profissão tem uma função social, e com a ciência não é diferente. Existem muitas pessoas que contribuem para que estejamos aqui e que talvez nunca tenham tido a oportunidade de entrar em uma universidade. Por isso, acredito que tudo aquilo que produzimos precisa retornar para a sociedade. Esse é o nosso papel. Essa é a forma como enxergo a ciência. Mais uma vez, sou extremamente grato por estar aqui, fazendo pesquisa na Ufal”, finalizou.