Estudante de Design transforma Bosque da Vida em identidade visual

Trabalho de Alícia Almeida Monteiro propõe marca para fortalecer o reconhecimento do memorial da Ufal

Por Manuella Soares - jornalista
- Atualizado em
Alícia Almeida Monteiro fez seu TCC em Design inspirada no Bosque em Defesa da Vida, do Campus A.C. Simões
Alícia Almeida Monteiro fez seu TCC em Design inspirada no Bosque em Defesa da Vida, do Campus A.C. Simões

Há lugares que atravessamos sem conhecer as histórias guardadas pelo caminho. No Campus A.C. Simões, entre árvores que resistiram ao tempo e placas que perderam suas inscrições, existe um espaço onde cada muda foi plantada para representar uma vida interrompida pela violência. É nesse território de lembranças, afetos e esperança que a estudante Alícia Almeida Monteiro encontrou a matéria-prima para o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Design.

Intitulada Bosque da Vida: identidade visual como instrumento de memória e vínculo afetivo, a pesquisa resultou na criação de uma marca e de um sistema completo de identidade visual para o Bosque da Vida, memorial da Universidade Federal de Alagoas. Orientado pela professora Mariana Hennes Sampaio Lôbo, o trabalho foi apresentado no último mês de julho, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

Muito além do que redesenhar a imagem de um espaço institucional, Alícia procurou compreender como o design ajudaria a preservar memórias, tornar histórias novamente visíveis e fortalecer os laços da comunidade com um patrimônio simbólico da Universidade.

“Há espaços que guardam mais do que terra, árvores e placas. Guardam histórias interrompidas, memórias que insistem em permanecer e afetos que se recusam a desaparecer”, disse a autora para contextualizar o trabalho.

Uma vida representada em cada árvore

Criado a partir de um projeto de extensão da Ufal, o Bosque em Defesa da Vida começou a ser implantado em 2012, como uma resposta coletiva ao cenário de violência que marcou Alagoas na primeira década dos anos 2000. A iniciativa envolveu as professoras Elaine Pimentel, da Faculdade de Direito de Alagoas (FDA); Ruth Vasconcelos, do Instituto de Ciências Sociais (ICS); e Regina Cœli Marques, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

O memorial foi concebido para homenagear 145 vítimas da violência e pessoas desaparecidas no Estado. Cada muda plantada representava uma dessas vidas, aproximando familiares, amigos, integrantes da comunidade acadêmica e representantes da sociedade alagoana em torno da memória, da defesa dos direitos humanos e da valorização da vida.

No TCC, Alícia recupera a história do projeto e descreve o significado da primeira cerimônia de plantio: “Cada árvore escolhida era um gesto de amor, uma lembrança enraizada na terra, um modo de dizer que aquelas existências continuariam florescendo em outro tempo e lugar”.

Com o passar dos anos, entretanto, o Bosque enfrentou problemas de conservação. Parte das mudas não resistiu, placas de identificação foram deterioradas pela ação do sol e da chuva e elementos do memorial perderam sua capacidade de comunicar a história do local. O agravamento da situação durante a pandemia contribuiu para que muitas pessoas passassem a utilizar a área somente como caminho entre setores do campus, sem reconhecer seu propósito original.

“O espaço que deveria ser presença tornou-se ausência, não apenas física, mas simbólica”, observou Alícia.

Foi diante desse processo de descaracterização que a estudante percebeu a identidade visual como uma possibilidade de reconexão. “Um espaço de memória que não se reconhece, que não se distingue, que não comunica sua própria existência, corre o risco de desaparecer novamente, desta vez, da consciência coletiva”, reforçou, já com as ideias para colocr em prática.

Design para tornar visível o que não pode ser esquecido

O trabalho foi organizado em quatro fases: pesquisa, estratégia, criação e entrega. O percurso incluiu levantamento bibliográfico e documental, visitas ao Bosque, registros fotográficos, análise de projetos semelhantes, estudo dos públicos, ferramentas de branding, construção de painéis conceituais, criação de um manifesto, geração de alternativas gráficas e validações com as idealizadoras do memorial.

Alícia também investigou os elementos simbólicos presentes na configuração original do espaço. Entre eles estão a disposição triangular das mudas, relacionada à espiritualidade, e o Baobá, árvore de origem africana associada à resistência, à ancestralidade e à sabedoria. No Bosque, a espécie também remete às vítimas do Quebra de Xangô, episódio de intolerância e perseguição às religiões de matriz africana ocorrido em Alagoas, em 1912.

Segundo a pesquisadora, a escuta das professoras que participaram da criação do memorial foi determinante para o amadurecimento da proposta. As primeiras alternativas elaboradas pela estudante nasceram de sua própria leitura do espaço, mas os encontros com Ruth Vasconcelos, Elaine Pimentel e Regina Cœli Marques mostraram que a identidade precisaria incorporar, com maior profundidade, as memórias e os vínculos construídos desde a origem do projeto.

“A construção de uma identidade visual para um espaço memorial exige um processo sensível de escuta e interpretação”, afirma Alícia. Para ela, as reuniões transformaram sua compreensão sobre o Bosque e evidenciaram que a proposta “não poderia ser construída apenas a partir de referências externas, mas, sobretudo, das narrativas, memórias e significados atribuídos pelas pessoas que deram origem ao espaço”.

Sendo assim, o percurso não foi linear. Alternativas foram revistas, conceitos ganharam novos significados e a identidade foi refinada em um processo colaborativo com a orientadora e as idealizadoras. A estudante conta que rever escolhas também constitui parte importante da prática do design.

Folha, chama e raízes

O resultado final reúne três elementos simbólicos principais. A folha representa a natureza e a renovação constante da vida; a chama simboliza a memória que permanece acesa e a dimensão espiritual presente na origem do projeto; e as raízes traduzem permanência, pertencimento e as conexões humanas formadas ao longo da história do Bosque.

As raízes também se prolongam visualmente em direção ao nome do memorial, integrando símbolo e logotipo. Na apresentação da proposta, as idealizadoras reconheceram nesse elemento uma representação dos vínculos entre as árvores, as famílias homenageadas, a Universidade e todas as pessoas que contribuíram para manter o projeto vivo.

“A marca deixou de representar apenas um espaço físico para simbolizar uma rede de memórias, afetos e relações que permanecem vivas e em constante fortalecimento”, explicou Alícia.

A paleta cromática combina tons de verde, terrosos e neutros. Os verdes remetem à vegetação e à renovação; os terrosos evocam o solo, o crescimento e o enraizamento; e os neutros equilibram a composição e ampliam as possibilidades de aplicação. A tipografia foi adaptada para conciliar a dimensão institucional da Ufal com o caráter humano, acolhedor e afetivo do memorial.

Além da assinatura visual, o sistema desenvolvido pela estudante contempla variações da marca, tipografia institucional, paleta de cores, ícones, padrões gráficos, materiais de comunicação e um manual com orientações para assegurar a aplicação coerente da identidade em diferentes suportes. A ideia da proposta também é contribuir com projetos complementares de sinalização, urbanização, divulgação e educação patrimonial.

Da dor à permanência

Durante o processo criativo, Alícia definiu a empatia, a memória viva e a capacidade de envolver as pessoas como valores centrais da marca. Esses princípios orientaram não apenas as escolhas gráficas, mas também a linguagem verbal do Bosque. Uma das mensagens criadas pela estudante sintetiza: “O Bosque existe para que ninguém seja esquecido e todos sejam sentidos”.

A autora também elaborou um manifesto para traduzir a transformação que orienta todo o trabalho, que é a passagem da dor para a permanência, da ausência para a memória e da memória para a vida.

“Memória é o que mantém uma história viva. Cada árvore plantada é uma vida que permanece resistindo ao esquecimento, florescendo em meio ao caos. Elas são mais que lembrança. São presença”, diz um trecho do manifesto. “O que foi dor, vira vida. O que foi luto, vira celebração.”

Ao aproximar design gráfico, memória coletiva e patrimônio cultural, o TCC discute sobre o papel social dos profissionais da área. Para Alícia, o design não deve ser compreendido como mero ornamento, mas como uma ferramenta de transformação, capaz de tornar espaços mais humanos, reconhecíveis e significativos.

 “O Bosque não é apenas sobre o passado. “Ele é território de reconstrução. É um espaço de encontro. É palco para o futuro”, conclui a estudante no manifesto.

 

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