Trajetória de egresso da Ufal mostra como o conhecimento ultrapassa fronteiras

Formação na Ufal levou Marcel Pinto a centros de pesquisa na Europa, onde concluiu o doutorado e segue em busca de novos desafios

Por Manuella Soares - jornalista
- Atualizado em
Marcel Pinto, egresso da graduação e do mestrado em Física
Marcel Pinto, egresso da graduação e do mestrado em Física

Da pequena cidade de Três Pontas, no sul de Minas Gerais, que vive entorno das plantações de café, aos laboratórios de pesquisa em óptica quântica na Europa, o percurso acadêmico de Marcel Pinto foi construído pela curiosidade, pela dedicação aos estudos e pelas oportunidades encontradas na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Egresso da graduação e do mestrado em Física, ele recém-concluiu o doutorado na Universidade de Palermo, na Itália, e agora pretende continuar desbravando o mundo por meio da ciência.

Marcel cresceu em uma região de economia desenvolvida pela produção cafeeira. Mas desde a adolescência seu interesse era por assuntos relacionados à Física e costumava assistir a documentários sobre ciência. Antes de escolher definitivamente a área, chegou a considerar uma formação em Design e trabalhou como desenhista em uma estamparia da sua cidade.

Segundo ele, essa experiência profissional ajudou a compreender que aquela não era a trajetória que gostaria de seguir. Decidido a estudar Física, fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e escolheu a Ufal. A mudança de estado representou o início de uma jornada acadêmica marcada por desafios, descobertas e novas possibilidades. “Minha experiência na Ufal foi sempre muito positiva. Gostei muito do ambiente que a Universidade proporciona”, recordou Marcel.

Mas ele lembra também que a adaptação ao curso de Física não foi simples. Vindo de escola pública, Marcel percebeu que precisava fortalecer sua formação em Matemática para acompanhar algumas disciplinas da graduação. A alternativa foi estudar aproveitando os recursos disponíveis no campus. “Não tinha muita base matemática, que era necessária no curso de Física, mas consegui correr atrás do prejuízo estudando por conta própria. Para isso, sou muito grato à biblioteca da Universidade, que tem um acervo muito bom”, relatou.

Ainda no início do período, as atividades de acolhimento promovidas pelo Instituto de Física despertaram o interesse pela investigação científica. Durante um dos eventos, os estudantes conheceram os laboratórios e as linhas de pesquisa desenvolvidas na unidade acadêmica. O contato com aquele ambiente fez Marcel perceber que poderia não apenas estudar os conhecimentos já consolidados, mas também contribuir para produzir novos saberes. “Eu gostei bastante e aquilo me motivou a querer trabalhar com pesquisa”, lembrou, sobre como o “start” veio a partir de uma atividade para os “feras” da época, e impactou em todo o caminho percorrido durante a graduação.

Já no segundo período, ele iniciou uma atividade de iniciação científica sob a orientação da professora Fernanda Selingardi. A pesquisa, desenvolvida pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), abordava a neurociência computacional, trabalhando na modelagem de circuitos de neurônios para analisar formas não convencionais de sincronização. A investigação também exigia conhecimentos de programação, outra área de interesse do aluno.

“Foi bem divertido fazer essa pesquisa. Era algo que envolvia bastante programação, de que, por sinal, gosto bastante”, contou sobre a experiência que resultou na publicação do seu primeiro artigo científico. Esse foi um diferencial que mais tarde seria reconhecido também por pesquisadores estrangeiros.

Da graduação ao mestrado

Após concluir o curso, Marcel emendou os estudos com o mestrado em Física da Ufal. Nessa etapa, sob a orientação do professor Paulo Brandão, passou a pesquisar óptica em sistemas não hermitianos, que estuda a luz em meios que envolvem ganho e perda de energia.

Além de aprofundar sua formação, o mestrado criou a conexão que levaria Marcel à experiência internacional. É que em sua banca de defesa, o professor Guilherme Almeida, também da Ufal, foi um dos avaliadores e logo entrou em contato para falar sobre uma oportunidade de doutorado na Universidade de Palermo. Um pesquisador da instituição italiana procurava um estudante para integrar seu grupo de pesquisa.

A possibilidade estava alinhada a um desejo que Marcel carregava havia anos: conhecer outros países e compartilhar ideias com pesquisadores de diferentes partes do mundo. “Eu sempre admirei muito as pessoas que estudam fora do Brasil. Trabalhar com ciência é muito legal por isso: ela permite viajar e discutir ideias com pessoas no mundo todo”, destacou.

O professor Guilherme Almeida auxiliou Marcel durante todo o processo seletivo, com preparação para entrevistas em inglês e orientação para a elaboração dos documentos exigidos. “Ele me deu todo o suporte para treinar entrevista em inglês, escrita de documentos e tudo mais. Não sei se teria conseguido sem a ajuda dele”, reconheceu.

Marcel Pinto gravou seu nome no primeiro lugar na seleção e iniciou o doutorado sob a orientação do professor Francesco Ciccarello, na Universidade de Palermo.

Pesquisa e intercâmbio de conhecimentos

Na Itália, o egresso passou a estudar átomos acoplados a ambientes fotônicos estruturados. De forma simplificada, a pesquisa simulava como um átomo emitiria um fóton ao ser conectado a uma rede de cavidades ópticas.

Durante os três anos de doutorado, Marcel participou de conferências internacionais e acompanhou palestras de pesquisadores que eram referências nos livros e artigos científicos utilizados em sua formação.

A experiência também incluiu uma temporada de seis meses em Madri, na Espanha, onde atuou como pesquisador visitante em outro grupo de estudos. Na capital espanhola, trabalhou com o professor Alejandro González-Tudela, pesquisador de destaque na área de óptica quântica.

Para Marcel, essas vivências demonstram como a formação científica pode abrir portas: “Eu sempre quis viajar e vi que, estudando e fazendo pesquisa, é possível conhecer vários lugares e centros de pesquisa de ponta. Isso sempre foi algo que me motivou e ainda me motiva bastante”.

Ele também destaca que a experiência adquirida no Pibic foi fundamental para sua entrada no doutorado e para sua atuação fora do país. “Aqui no Brasil, temos contato com a pesquisa muito cedo por meio desses programas, e isso é muito bom. Eu publiquei um artigo durante a graduação, e lá fora, não é nem um pouco comum”, observou.

Próximos destinos

Com o doutorado recentemente concluído, Marcel pretende dar continuidade à carreira acadêmica na área de tecnologias quânticas. O próximo passo deve ser um pós-doc, modalidade de trabalho temporário realizada por pesquisadores que já concluíram o doutorado. “Fazer um pós-doutorado é muito bom para aprender técnicas novas e fazer networking para possíveis colaborações futuras”, explicou.

Marcel tem se candidatado a oportunidades em diferentes países. Ele já foi entrevistado por um grupo do Centro de Física Teórica da Polônia e aguarda o resultado do processo seletivo. Também enviou candidaturas para instituições do Japão, dos Países Baixos e de outros lugares.

“Agora é torcer e ver se algum deles se interessa pelo meu trabalho”, afirmou, confiante do caminho trilhado e na expectativa de arrumar as malas novamente, porque estudar não significou apenas obter títulos, mas superar distâncias, conhecer culturas e produzir ciência com pesquisadores de diferentes lugares do mundo.

 

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