Ciência que gera impacto: Professora da Ufal chega à etapa nacional de prêmio
Empresa incubada na Ufal se destaca em prêmio de empreendedorismo feminino com a docente Fernanda Maranhão
O que começou dentro de um laboratório da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com pesquisas sobre fungos e seus potenciais benefícios, ganhou espaço no mercado, conquistou reconhecimento em Alagoas e agora chega ao cenário nacional. A professora Fernanda Maranhão, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), está entre as finalistas da etapa nacional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2026, na categoria Ciência e Tecnologia, à frente da startup Micelium.
Fernanda é a única vinculada à Universidade. A conquista veio depois da vitória na etapa estadual, que teve a premiação realizada no último mês de setembro, em Maceió.
Agora, a pesquisadora vai representar o Estado na fase nacional do Prêmio, com cerimônia marcada para 17 de novembro, e celebra o encontro entre conhecimento científico, inovação e apoio institucional.
“Essa conquista representou para mim um importante reconhecimento a essa trajetória de pesquisa aplicada construída entre o LMC [Laboratório de Microbiologia Clínica da Ufal] e a Micelium desde 2022, confirmando que conseguimos translacionar ciência e inovação a partir do potencial dos fungos estudados no laboratório e com empreendedorismo científico que gerou soluções de impacto, produtos patenteados que já chegaram ao mercado”, destacou Fernanda.
Quando a pesquisa encontrou o mercado
A Micelium nasceu em 2022, a partir da aprovação de um projeto no Programa Centelha II, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal). A empresa tem como base o conhecimento acumulado por Fernanda ao longo de sua trajetória acadêmica e, principalmente, as pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Microbiologia Clínica (LMC) do ICBS/Ufal, coordenado por ela.
Bióloga formada pela própria Ufal, Fernanda tem doutorado em Genética pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Sua experiência reúne áreas como bacteriologia, micologia médica, biologia molecular e estudos laboratoriais e clínicos envolvendo substâncias naturais, a exemplo da própolis vermelha e dos cogumelos medicinais.
Foi desse universo científico que surgiu a oportunidade de transformar conhecimento em produtos e soluções. A Micelium trabalha com pesquisa, desenvolvimento e inovação em biotecnologia, especialmente com fungos e substâncias bioativas produzidas a partir deles.
“A Micelium é liderada por mulheres e atua na interface entre ciência, biotecnologia e bioeconomia, transformando conhecimento sobre fungos, especialmente basidiomicetos medicinais, em protótipos e produtos biológicos com potencial de aplicação terapêutica, preventiva e de promoção da saúde”, contou Fernanda sobre a missão da empresa.
Apoio da Ufal para transformar ideias em negócios
Um passo importante nessa trajetória ocorreu em 2025, quando a Micelium foi selecionada em edital da Incubadora de Empresas de Alagoas (Incubal/Ufal) e passou a integrar oficialmente o ambiente de incubação da Universidade.
O processo de incubação oferece suporte para que projetos inovadores consigam avançar não apenas na parte científica, mas também em áreas fundamentais para a consolidação de uma empresa, como planejamento, gestão, capacitação, propriedade intelectual e inserção no mercado.
“A Incubal tem um papel importante no fortalecimento do empreendedorismo e da inovação, oferecendo às empresas incubadas capacitações, orientações e acompanhamento para o desenvolvimento e amadurecimento de seus negócios. Esse suporte busca aproximar o conhecimento produzido na Universidade do mercado, contribuindo para transformar pesquisas e ideias inovadoras em empreendimentos capazes de gerar impacto para a sociedade”, explicou a gerente da Incubal, Patrícia Brandão.
Segundo Patrícia, a participação de Fernanda no processo de incubação também tem sido marcada pelo envolvimento constante nas atividades propostas. “A Micelium vem desenvolvendo um trabalho de qualidade na área de biotecnologia, transformando conhecimento científico em produtos e soluções inovadoras à base de fungos. A Fernanda participa ativamente de todas as atividades, capacitações e ações promovidas pela Incubal, demonstrando muito comprometimento com o desenvolvimento do empreendimento”, disse ressaltando que essa dedicação contribui para os reconhecimentos conquistados.
A relação da empresa com a Universidade também está formalizada por meio de Acordo de Cooperação Técnica e se estende à produção de conhecimento e ao desenvolvimento de novas tecnologias. A Micelium já possui dois pedidos de patente em cotitularidade com a Ufal e trabalha na preparação de novos produtos.
Fungos, inovação e sustentabilidade
Na Micelium, os fungos são vistos muito além de sua presença na natureza. Eles representam matérias-primas renováveis com potencial para dar origem a compostos e produtos de interesse para diferentes áreas da saúde.
A empresa estruturou uma plataforma de pesquisa aplicada em biotecnologia fúngica. O trabalho envolve desde a seleção das espécies e obtenção de biomassa e extratos até a padronização desses materiais, desenvolvimento de formulações, produção de protótipos, validação e proteção da propriedade intelectual.
É uma trajetória orientada por quatro eixos: pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, impacto socioambiental e bioeconomia. Atualmente, três mulheres atuam na empresa, característica que dá um significado adicional à participação no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios.
“Apesar de ser uma conquista individual, esse prêmio também simboliza a evolução e o impacto que a Micelium vem construindo, com três mulheres atuando com propósito e compromisso que fazem a diferença, gerando bioprodutos e novas possibilidades para a saúde e a sustentabilidade, uma vez que fungos são matérias-primas renováveis”, ressaltou Fernanda.
História de resultados acumulados
A classificação para a etapa nacional do prêmio do Sebrae se soma a outros resultados conquistados nos últimos anos. Projetos relacionados à Micelium e às pesquisas lideradas por Fernanda foram aprovados em iniciativas como o Inova Pilar Expert, em 2023, e o Tecnova III, em 2025, por meio da Fapeal e da Finep. Formulações à base de cogumelos desenvolvidas por Fernanda e sua equipe também receberam duas menções honrosas em eventos científicos realizados no ano passado.
A empresa também participou de programas de incubação, aceleração e mentorias e esteve presente em encontros ligados ao ecossistema de inovação e saúde dentro e fora de Alagoas. Só em 2026, a startup foi selecionada para integrar o Portfólio Impacto Alagoas, da Secretaria de Estado da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (Secit) e também foi destaque entre as empresas selecionadas para o Top 1000 do Prêmio Sebrae, voltado a startups consideradas promissoras no país.
Nesse percurso, a Universidade permanece como um dos pontos de sustentação da empresa: primeiro como espaço de formação e produção científica, depois como ambiente de pesquisa e, mais recentemente, como incentivadora da transformação desse conhecimento em inovação e empreendedorismo.
Micelium para o Brasil
Na edição de 2026 do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, duas empreendedoras alagoanas avançaram para a fase nacional. Além de Fernanda Maranhão, com a Micelium, na categoria Ciência e Tecnologia, Rose Ramos, da Ressigna, foi classificada na categoria Microempreendedora Individual.
As finalistas de todo o país se encontrarão em Vitória (ES) a partir de 15 de novembro. No dia seguinte, começam as atividades da missão nacional. Em 17 de novembro, além da continuidade da programação, será realizada a cerimônia que anunciará as vencedoras nacionais.
Os dias 18 e 19 serão dedicados a atividades do programa Empoderadonas – Mulheres Empreendedoras, e o retorno das participantes aos seus estados está previsto para 20 de novembro. Para Fernanda, chegar até essa etapa já traduz parte de um caminho iniciado bem antes da criação da empresa: dentro da Universidade, entre pesquisas, experimentos e a busca por aplicações concretas para aquilo que era descoberto no laboratório.
A trajetória da Micelium mostra que um dos caminhos possíveis para a ciência produzida na Universidade é sair das bancadas dos laboratórios sem deixar de lado o rigor da pesquisa, transformar descobertas em inovação e fazer o conhecimento desenvolvido na Ufal alcançar a sociedade e o mercado.