Método desenvolvido na Ufal transforma o processo de projeto em aprendizado coletivo
Pesquisa analisa dez anos de uma prática que compartilha dúvidas, tentativas e impasses em sala de aula; trabalho será apresentado em congresso nacional de Design
Dúvidas, tentativas, caminhos abandonados e impasses técnicos também ensinam. Essa é a base do Assessoramento Coletivo, método desenvolvido ao longo de dez anos na disciplina Projeto Arquitetônico 7, da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design (Faud) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
A proposta vai além da orientação em conversa individual entre professor e estudante. Ela transforma o percurso de cada projeto em uma oportunidade de aprendizado para a turma toda.
A experiência é analisada no artigo O assessoramento coletivo em mil platôs: uma cartografia sob a ótica de Deleuze e Guattari, de autoria de Jorge Marcelo Cruz, professor da FAU e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU) da Ufal, e de Maria Eduarda Soares Cruz, graduanda do Centro Universitário Cesmac. O estudo reúne observações de vinte semestres consecutivos da disciplina e organiza o método em sete etapas interdependentes, que vão da compreensão inicial do problema à apresentação final.
O professor Jorge explica que no modelo mais comum de ensino de projeto, o docente atende cada estudante individualmente e a avaliação se concentra, muitas vezes, no resultado entregue ao fim do semestre. Para ele, esse formato torna invisível uma parte essencial da aprendizagem. “No ateliê tradicional, a gente só vê o projeto que deu certo. Tudo o que o estudante testou e abandonou fica invisível, e é ali que está boa parte do aprendizado”, afirma.
Com o método Assessoramento Coletivo, os estudantes apresentam não apenas as soluções que consideram satisfatórias, mas também hipóteses descartadas, hesitações e questões ainda sem resposta. Professor e turma fazem uma leitura crítica conjunta do material, enquanto o docente atua como mediador, conectando problemas, formulando perguntas e extraindo princípios que podem ser aproveitados por todos.
Um dos exemplos discutidos no artigo é o de uma garagem com dimensões insuficientes. Ao ser analisado coletivamente, o problema deixa de se limitar à medida do espaço e abre discussões sobre mercado imobiliário, cultura do automóvel, padrões de consumo e normas de acessibilidade. O método também propõe que estrutura, instalações prediais e acessibilidade participem desde o início da concepção arquitetônica, e não apenas aparecer como verificações finais.
A relação com filósofos
A pesquisa feita pelo docente interpreta essa experiência a partir de Mil Platôs, obra dos filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, usada como uma espécie de "caixa de ferramentas" conceitual. Conceitos como rizoma, espaço liso e estriado e agenciamento coletivo ajudam os autores a explicar o deslocamento do foco: do produto final para a compreensão do processo que o produziu. “A teoria não veio antes da prática. Ela ajudou a dar nome a coisas que já aconteciam no ateliê e a defender o método frente às pressões por um ensino mais padronizado”, explica Jorge.
O artigo inclui o depoimento da arquiteta Stella Oliveira, ex-aluna da disciplina, concedido espontaneamente anos depois durante uma aula de doutorado no PPGAU, com divulgação autorizada. Ela recorda que, em disciplinas tradicionais, havia entre os estudantes a brincadeira de que alguns colegas escondiam o projeto “no subsolo da FAU”, pois não mostravam o processo e apareciam somente no fim com trabalhos já concluídos.
Segundo Stella, essa lógica “caía por terra” no Assessoramento Coletivo, porque todos acompanhavam a evolução dos projetos. A arquiteta também destaca que a orientação compartilhada não uniformizava os resultados, mesmo que os estudantes trabalhassem com um único professor e aprendessem com o percurso dos colegas, cada projeto seguia uma direção própria.
Mas a prática traz desafios. Jorge conta que o professor precisa acompanhar os processos individuais, reconhecer conteúdos que surgem durante as discussões, sistematizar conceitos e conduzir o debate. Já os estudantes precisam construir confiança para expor materiais inacabados. A avaliação também muda, porque além do resultado, é preciso considera a capacidade de explicar as escolhas, os abandonos, os debates e as decisões técnicas que levaram ao projeto final.
A principal conclusão que o docente quer passar é que a colaboração não nasce automaticamente da simples presença dos estudantes em uma mesma sala. Ela precisa ser construída de forma intencional ao longo do semestre. “O método não é um modelo para ser copiado. É um mapa que pode ser continuado e adaptado por outros professores, em outros contextos”, ressalta Jorge Marcelo.
O trabalho será apresentado no 16º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design (P&D Design), que será realizado de 7 a 9 de outubro, no Recife, em Pernambuco. O artigo foi aprovado no Eixo 09, dedicado a Metodologias e Processos de Ensino e Aprendizagem. A participação leva ao evento nacional uma experiência construída na graduação da Ufal e sistematizada no âmbito da pesquisa desenvolvida por Jorge Marcelo no PPGAU.