Ufal tem três projetos selecionados em chamada internacional do CNPq
Propostas nas áreas de Linguística, Medicina e Ciências Ambientais podem fortalecer a cooperação científica com países da América Latina e do Caribe
A Universidade Federal de Alagoas (Ufal) se destacou no resultado preliminar da chamada Prosul Pepe Mujica, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com três projetos selecionados para financiamento, que somam mais de R$ 2,4 milhões. Uma das propostas, coordenada pelo professor Miguel Oliveira Jr., da Faculdade de Letras (Fale), recebeu nota máxima e ficou empatada em primeiro lugar na classificação nacional, considerando todas as áreas do conhecimento.
Voltada ao fortalecimento da cooperação científica entre países da América Latina e do Caribe, a chamada recebeu 2.668 propostas de instituições de todo o país, das quais 378 foram selecionadas preliminarmente, o equivalente a cerca de 14% das submissões.
A Ufal teve duas propostas contempladas na Faixa A, destinada a redes temáticas de pesquisa consolidadas, nas áreas de Linguística e Medicina, e uma na área de Ciências Ambientais. Os projetos envolvem universidades e centros de pesquisa de diferentes países e abordam temas que vão da produção e circulação do conhecimento científico à saúde materna e à conservação da biodiversidade.
Nota máxima e integração científica
Com previsão de financiamento de mais de R$ 1 milhão, o projeto Formação, circulação de referências teóricas e infraestrutura de conhecimento aberto em estudos da linguagem na América Latina e no Caribe alcançou nota 10.
Coordenada por Miguel Oliveira Jr., professor da Fale e integrante do Programa de Pós-graduação em Linguística e Literatura (PPGLL), a proposta reúne pesquisadores de oito universidades brasileiras e instituições da Argentina, Chile, Uruguai e Trinidad e Tobago. Também conta com a participação de quatro associações científicas da área de Linguística.
A iniciativa vai promover a formação de pesquisadores, o intercâmbio acadêmico e a circulação aberta de conhecimentos produzidos na América Latina e no Caribe. Outro objetivo é investigar como as referências teóricas utilizadas no ensino e na pesquisa em Linguística são construídas e compartilhadas entre os países da região.
"Apesar das parcerias existentes, a cooperação científica entre o Brasil e os demais países da região ainda é insuficiente diante de seu potencial, especialmente no campo dos estudos da linguagem", destaca, sobre as novas possibilidades que o edital vai proporcionar.
Segundo Miguel, a proposta também busca valorizar as tradições intelectuais latino-americanas e caribenhas, contribuindo para reduzir desigualdades na produção científica. "Ao valorizar as tradições intelectuais da região e ampliar a produção e a circulação aberta do conhecimento, buscamos também contribuir para a redução das assimetrias científicas, a autonomia epistemológica e a soberania científica regional", disse.
O professor ressaltou, ainda, que a aprovação abre novas possibilidades para estudantes e pesquisadores da Ufal, mas também chama atenção para a importância do apoio institucional à pesquisa. "A capacidade de atrair investimentos e transformá-los em resultados científicos e sociais depende também desse compromisso institucional", pontuou, ao defender melhores condições de infraestrutura e suporte técnico e administrativo para a execução dos projetos.
Inteligência artificial para proteger mães e bebês
Na área de Medicina, o projeto coordenado pelo professor Alexandre Urban Borbely, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), também foi selecionado na Faixa A, com previsão de financiamento de mais de um milhão de reais. A pesquisa intitulada Medicina personalizada na predição de severidade de pré-eclâmpsia e de desfechos adversos gestacionais em diferentes populações da América Latina", propõe utilizar inteligência artificial para identificar, com maior precisão, o risco e a gravidade da pré-eclâmpsia, complicação da gravidez caracterizada principalmente pelo aumento da pressão arterial e que pode colocar em risco a vida da mãe e do bebê.
O estudo será desenvolvido pela Rede Iberoamericana de Alterações Vasculares e Transtornos da Gestação (Rivatrem), com pesquisadores de seis países: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador e México, sob coordenação da Ufal.
A proposta prevê o acompanhamento de aproximadamente mil gestantes, reunindo informações do pré-natal, exames laboratoriais e análises avançadas de sangue. Os dados serão utilizados para desenvolver ferramentas de previsão que considerem as características genéticas, ambientais e sociais das populações latino-americanas.
De acordo com Alexandre, muitos dos métodos disponíveis atualmente foram desenvolvidos com base em estudos realizados no Hemisfério Norte e nem sempre apresentam a mesma precisão quando aplicados a outras populações.
"Receber a aprovação desse projeto é uma conquista muito importante, não apenas para nosso grupo de pesquisa em Saúde da Mulher e da Gestação, para o ICBS ou para a Ufal, mas também para a ciência latino-americana", comemora.
O pesquisador destaca que o resultado reconhece o trabalho desenvolvido pelo grupo. "Estou muito feliz com a oportunidade de liderar uma iniciativa internacional que busca enfrentar um problema tão grave de saúde pública como a pré-eclâmpsia e espero que a população alagoana tenha orgulho da ciência de vanguarda que está sendo produzida pela Ufal", ressaltou.
Biodiversidade, alimentação e conservação
A terceira proposta selecionada é coordenada pela professora Patrícia Muniz de Medeiros e estabelece uma parceria entre pesquisadores do Brasil e do Panamá para estudar a conservação de plantas alimentícias silvestres.
O projeto Ecologia histórica e conservação biocultural de plantas alimentícias silvestres – estabelecimento de um protocolo de pesquisa a partir de experiências compartilhadas entre Brasil e Panamá reúne a Ufal, a Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) e a Estación Científica Coiba – AIP, além de colaboradores de outras instituições dos dois países. A coordenação é compartilhada com o professor Edgardo I. Garrido-Pérez, da instituição panamenha.
A pesquisa busca desenvolver métodos que ajudem a compreender a relação entre as comunidades, suas tradições alimentares e as plantas silvestres utilizadas na alimentação. Para isso, serão investigados aspectos como o conhecimento das populações locais, as mudanças na paisagem, o valor nutricional das espécies e suas possibilidades de aproveitamento econômico.
De acordo com Patrícia, a intenção é contribuir para a conservação da biodiversidade, a segurança alimentar e a geração de renda, respeitando as particularidades ambientais e culturais de cada região.
"Fico muito feliz com a aprovação desse projeto. Para mim, esse é o primeiro passo para desenvolver a rede do Sul Global para a conservação biocultural de plantas alimentícias silvestres, que está em sua fase embrionária e conta, até o momento, com pesquisadores do Brasil, Panamá e Marrocos", relatou.
A professora explica que o trabalho permitirá reunir experiências e conhecimentos de diferentes países para aperfeiçoar os métodos de pesquisa. "Queremos aprimorar nosso protocolo de pesquisa, incluindo as expertises dos nossos parceiros internacionais do Sul e, ao mesmo tempo, aplicar esse protocolo em diferentes contextos socioecológicos e adaptá-lo às especificidades regionais", adiantou.
Com os três projetos selecionados, a Ufal marca sua presença em redes internacionais de pesquisa e fortalece a produção de conhecimento em áreas com impactos diretos na educação, na saúde e no meio ambiente. Os resultados divulgados pelo CNPq são preliminares e estão sujeitos às etapas posteriores de avaliação e homologação.