Indígena que fez toda formação acadêmica na Ufal se torna docente do Campus do Sertão

Joel Vieira da Silva Filho é indígena Katokinn, do município de Pariconha, Alto Sertão alagoano. Graduou-se em Letras-Língua Portuguesa pelo Campus do Sertão com mestrado e doutorado em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Letras (Fale), do Campus Maceió

Por Diana Monteiro - jornalista
- Atualizado em
Professores Marcio e Susana e familiares prestigiaram a posse de Joel Vieira
Professores Marcio e Susana e familiares prestigiaram a posse de Joel Vieira

“Volto ao curso de Letras como docente, como colega de curso daqueles e daquelas que foram meus mestres e me formaram como professor de Língua Portuguesa. O percurso foi desafiador, mas caminhei com confiança e otimismo, lembrando sempre que eu sou o resultado de uma coletividade e que a ancestralidade caminha comigo. Espero que eu possa contribuir para a formação de novos professores de língua e literatura de maneira proveitosa, para que no futuro eles e elas possam também alçar voos diversos”, destaca Joel Vieira da Silva Filho, que passou a viver desde o dia 23 mais uma etapa exitosa na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), dando início a sua carreira acadêmica como docente efetivo do Campus do Sertão.

E quando Joel faz esse destaque, reconhece que, principalmente, a educação é determinante para mudanças de realidades de vida. Ele é um exemplo disso, fruto do acesso à educação pública em todos os níveis, assim como da sua qualificação para chegar aonde chegou: exercer o que tanto almejou, lutou e conquistou em sua exitosa trajetória na maior e mais antiga instituição de ensino superior pública e gratuita do Estado. Fez toda formação na escola pública e grandes desafios permearam a sua vida, como condições econômicas, sociais e de origem.

Joel é indígena Katokinn, do município de Pariconha, a cerca de 306 quilômetros da capital Maceió, região do Alto Sertão do estado de Alagoas. Na Ufal fez toda a carreira acadêmica, graduação, mestrado e doutorado e no dia 19  de janeiro tomou posse como docente do campus onde se graduou em Letras-Língua Portuguesa.  Acompanhado da mãe, Maria Dalva, familiares e prestigiado também por docentes que fizeram a diferença em seu percurso acadêmico, Joel tomou posse numa solenidade realizada no auditório Nabuco Lopes, da Reitoria. Neste semestre letivo lecionará no curso de Letras do Campus do Sertão as disciplinas Literatura de Língua Portuguesa 4, Estágio Supervisionado 4 e Pesquisa Educacional.

“Eu sou fruto da educação pública e gratuita brasileira. Sou fruto da política de cotas, sou um professor e pesquisador indígena. A educação foi o caminho que me levou a lugares que eu não chegaria de outra forma. A educação me permitiu conhecer o chão da sala de aula, fez-me entender que o filho do pobre também pode ser doutor, médico, advogado, professor, ator. Na educação básica eu sempre dizia a meus alunos que a sociedade imprime em nossa vida o discurso de que devemos ser alguém na vida. Eu dizia a eles que já somos alguém, que o que a gente precisa é de oportunidades para crescer”, destaca Joel, comemorando o caminho que passa a trilhar na Ufal, exercendo o que tanto almejou, lutou e conquistou em sua exitosa trajetória na maior e mais antiga instituição de ensino superior pública e gratuita do Estado.

Como não poderia ser diferente, faz um grande destaque à expansão da Ufal, da mudança de realidades de vidas promovida pela instituição ao se instalar também no interior de Alagoas, oportunizando o acesso ao ensino superior público e gratuito a quem nela não podia chegar: “A chegada da Ufal ao sertão de Alagoas representou um grande avanço no acesso e na permanência dos estudantes sertanejos no ensino superior. Acredito que meus pais não teriam como me sustentar em outra cidade, numa capital. A Ufal, em Delmiro, foi determinante para que estudantes como eu pudessem ter acesso ao ensino superior”.

Vieira aproveita para enaltecer o programa federal: “A interiorização das universidades brasileiras foi uma proposta que permitiu e que ainda permite que o filho do pobre, da agricultora, do motorista possa ser o primeiro - de muitos outros que virão - da família a ter um diploma superior, como foi meu caso". O Campus do Sertão foi o segundo da interiorização da Ufal, teve início em 2010,  beneficiando toda a região sertaneja alagoana.

“Foi uma oportunidade que eu agarrei e não soltei. Eu sempre fui alguém na vida e sempre agarrei as oportunidades que apareceram. Para o alcance aos meus objetivos , eu estudei, pesquisei, escrevi, li, defendi tcc, dissertação e tese, escrevi artigos, apresentei trabalhos. Eu fiz muitas coisas com o apoio de tanta gente: professores, amigos, colegas, parceiros/as de pesquisa", destaca Joel, reconhecendo não só as oportunidades, mas todo o apoio acadêmico recebido. Como costuma  dizer: "Sou fruto de um trabalho coletivo”.  

E tendo tanto a dizer, das lutas e desafios, com superações, experiências de vida e resultados exitosos, vivências, Joel aproveita para deixar uma mensagem: "Deixo a mensagem de coragem. Invistam na educação, acreditem nela. Em um mundo de tantas superficialidades e 'facilidades', estudar é uma afronta ao sistema que nos quer ignorantes, alienados e sem formação. Sejamos resistência em nossas comunidades rurais, indígenas, quilombolas. Para a Ufal, muita gratidão. Por ser minha primeira casa e por me formar. Volto com gás para dar o meu melhor, sempre lembrando de onde venho, quem me formou, o que fiz, de onde sou e o que posso fazer". 

“Acreditei na educação indígena diferenciada e dei o meu melhor. Hoje em dia vejo ex-alunos meus da Juvino e da Domingos Moeda na Ufal e vejo que todo o esforço valeu a pena. Eu sou um professor feliz porque acredito que a educação muda vidas, como mudou a minha. Mas sou mais feliz ainda porque sempre soube que eu não andei só: eu tive/tenho família, amigos, povo”. 

Antes de ingressar como docente da Ufal, em 2022 ainda quando cursava o doutorado, por meio de concurso público, Joel Vieira foi professor da educação básica por quase quatro anos, da Escola Estadual Domingos Moeda, no município sertanejo Água Branca Indígena.

“No chão da sala de aula eu ensinei e aprendi. Mas antes eu já era professor. A minha primeira experiência profissional foi em 2017, na Escola  Indígena Juvino Henrique da Silva, na Aldeia Katokinn, no meu povo. Foi na minha aldeia que eu aprendi na prática a ser um bom professor, lecionando na Educação de Jovens e Adultos (EJA) dando aula na Oca da aldeia’, enaltece Joel a sua rica vivência profissional, de origem e de vida.

Desafios, otimismo e conquistas

O percurso escolar de Joel Vieira foi permeado por muitos percalços em conexão com a persistente e desafiante área, que é a educação pública e gratuita. 

"A educação pública tem seus desafios, e mesmo sendo jovem, se compararmos a atualidade com 15 anos atrás, vemos que antes era bem mais complicado. Faltava merenda, tínhamos que comprar uniforme, íamos para a escola de D20, passávamos o ano letivo sem alguns professores. Lembro-me que no segundo ano do ensino médio minha turma passou o ano completo sem professor de Física. São essas desigualdades que afetam o desenvolvimento de alguns estudantes. Mas, defendo que, mesmo com suas dificuldades a educação pública nos leva a lugares que a sociedade pensa que não deveríamos chegar. A gente chega, um pouco depois que a elite, é claro, mas chega”.

Destaca que fez toda ensino fundamental I em turma multisseriada, onde havia apenas uma única professora para ensinar várias turmas. Mas segundo Joel, mesmo assim, com essa dinâmica, o saldo de aprendizado era positivo. A partir do 6º ano (à época ainda 5ª série), ele foi estudar na cidade, na Escola Municipal Padre Epifânio Moura, onde cursou até o 9º ano e o ensino médio fez na Escola Estadual de Pariconha. “Foi nessas escolas que aprendi que seria por meio dos estudos que eu conseguiria novos voos”, enfatiza.

E nos empecilhos para o curso normal do aprendizado, nos desafios persistentes, a exemplo da falta de estrutura escolar e de professores, ele destaca conflitos vivenciados, tece críticas, mas que não foram impeditivos para a certeza do que queria alcançar e nunca arrefeceram o seu ânimo:

"Mais tarde, com o passar dos anos e das experiências, a gente vai observando/lendo o mundo e percebe que a desigualdade é grande. Por vezes, senti-me inferior. A academia às vezes é segregadora, e a gente vai se achando inferior, sem talento ou sem potencial. Mas como diz Guimarães Rosa, "a vida quer da gente coragem". E foi com coragem que enfrentei os desafios. Eu sempre fui fascinado pela profissão do professor. Tive professores e professoras exemplares, que faziam meus olhos brilharem em cada aula”.

E, em sua vivência, a grande certeza: "A metodologia do afeto sempre foi essencial para que eu me encantasse pelas aulas. Uma música, um elogio ou uma crítica certa, uma aula de campo, uma cartolina para a atividade, tudo isso faz a gente perceber que é bem-vindo e que o potencial existe".

Inspiração e trajetória

A escolha para o futuro profissional, exercer a docência, Vieira diz que se deu a partir do ingresso no curso superior em Letras, mas a área escolhida teve a certeza durante o ensino médio, pelas disciplinas preferidas, Português, História, Geografia e Arte. "Acho que sempre fui da área das Ciência Humanas. Eu também gostava de teatro. Durante o ensino médio, fiz um curso ofertado pela prefeitura do município onde resido e havia uma professora de língua portuguesa que, além de aulas, levava-nos a outros lugares. Ela iniciava a aula lendo um poema (e nunca repetia) e eu achava aquilo magnífico”.

E como essa referência, acrescenta: “O jeito dela dar aula me fez querer ser também um pouco como ela. Ela foi inspiração. Então, no Sisu de 2014, minha primeira opção foi Letras e minha segunda opção, Geografia. Fui convocado na terceira chamada para o curso de Letras, onde eu fui feliz e me realizei”. 

Em sua dinâmica vida acadêmica na graduação, Joel disse ter mergulhado em tudo que foi possível e oportunizado. Foi monitor de disciplinas, participou do Centro Acadêmico (CA), pertenceu ao colegiado do curso. E discorre: "Viajei para eventos em locais distantes, como Brasília, João Pessoa, Recife, Garanhuns.  Fiz parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica, Pibic, como colaborador e também bolsista do Residência Pedagógica”. Em seu produtivo e rico período na graduação, concluída em 2020, atividades como, integrar comissão organizadora de eventos, além de apresentação de trabalhos acadêmicos, também fizeram parte de sua rotina acadêmica como aluno do curso de Letras-Língua Portuguesa,

"Os meus professores e minhas professoras foram essenciais para que eu pudesse ter um caminho exitoso na graduação. Por ser um sujeito indígena, desde o começo do curso eu sabia que minhas pesquisas seriam voltadas para essa área. O Pibic em Linguística fiz com a professora Fábia Fulni-ô e versou sobre a língua Yaathe. Depois, conheci a literatura de autoria indígena com a professora Cristian Sales. Meu caminho na literatura já vinha sendo formado. Então, decidi mudar de área de pesquisa já no final do sexto período".  E complementa: "Fiz o TCC sob orientação do professor Márcio Ferreira da Silva e coorientação da professora Cristian. Com o tema sobre o fenômeno literatura de autoria indígena, houve a apresentação dos autores indígenas Graça Graúna, Eliane Potiguara e Daniel Munduruku".

Pós-graduação

No mestrado realizado  pelo Programa de Pós-Graduação Linguística e Literatura (PPGLL), da Faculdade de Letras (Fale), unidade acadêmica do Campus A. C. Simões, também se postaram alguns desafios, com a pandemia da covid-19. Já preparado para morar na capital, a sua vinda foi adiada quando houve a notificação da Ufal para o fechamento da instituição, conforme os protocolos estabelecidos e exigidos para o enfrentamento ao desafiante período, mudando radicalmente as rotinas acadêmicas. E aproveita para dizer do determinante apoio recebido das professora  Cristian Salese dos professores Márcio Ferreira e Samuel Barbosa para a qualificação e carreira acadêmica. “Com o apoio deles, fiz meu projeto de mestrado e me inscrevi em três seleções em diferentes universidades, Ufal, UFPE e UFBA.

Com a nova realidade instalada, o mestrado com dissertação defendida em fevereiro de 2022, foi realizado de maneira on-line e a dissertação abordou dois livros das autoras indígenas Eliane Potiguara e Auritha Tabajara. A pesquisa teve a orientação da professora Ana Clara Medeiros. “O apoio, a paciência e a excelente orientação da professora Ana Clara foram essenciais nesse processo. Escrevi uma dissertação sem nunca ter pisado numa biblioteca para pesquisar em livros (a pandemia não permitia). Mas a orientação da professora foi essencial para que o texto ficasse bem organizado”. A dissertação de Joel Vieira foi escolhida pelo PPGLL da Fale para concorrer ao edital de publicação de dissertações e teses da Edufal/Fapeal e em 2023 saiu em formato de livro. 

O doutorado, iniciado em 2022, com a tese defendida em novembro de 2025, segundo Vieira, no começo ainda enfrentou resquícios da pandemia. A pesquisa para o mestrado foi ampliada para essa nova fase de qualificação acadêmica. “Optei por ousar realizar uma pesquisa maior, mais robusta. Minha proposta foi a de catalogar e analisar os autores e as autoras pertencentes a povos indígenas da região Nordeste e suas obras literárias. Fiz um recorte, de modo a analisar uma obra escolhida de cada autor e de cada autora que eu encontrasse. A pesquisa foi finalizada com um número de 15 autores e autoras indígenas e 15 obras analisadas (livros de poemas, romance, contos, tragédia).

Joel cursou o doutorado com bolsa de estudos concedida pela Fapeal, um grande suporte para os custos, a exemplo da aquisição de livros, viagens a eventos de relevante importância para o estudo em curso,  como o congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), em Manaus (AM), em 2024 e 2025, bem como, o Congresso Internacional Mundos Indígenas (COIMI) em 2024, em Boa Vista (RO). “O doutorado teve a professora Susana Souto, doutora em Letras pela Ufal, da Fale, que me permitiu ousar na escrita e no modo de construir uma tese e coorientação da professora Suzane Lima Costa, doutora em Letras pela UFBA, e docente dessa universidade, que tem pesquisas voltadas às literaturas indígenas e muito me ajudou na construção do texto”, enfatiza.

A tese, defendida de forma remota, Joel diz que para ele foi um momento magnífico. “Sempre afirmo que eu não sou um sujeito só. Eu sou fruto de uma coletividade. Em minhas pesquisas, sempre tenho defendido que os povos indígenas do Brasil resistem também pela arte, e a literatura é uma arte/arma poderosa na luta pelo reconhecimento e pela valorização das nossas culturas”.

Aprovação

Em paralelo ao curso do doutorado,  Joel se debruçou sobre os livros, estudando para concursos em busca da realização de seus sonhos e o resultado não poderia ser outro. “Em outubro do ano passado, após longos meses de estudos, que se refletiram em uma semana intensa de provas no concurso, fiquei em primeiro lugar na vaga de Estudos Literários, na casa em que me formei, o Campus do Sertão. Foi uma alegria imensa”. Ainda comemorando a exitosa carreira na Ufal, complementa com um poema que diz  gostar muito, da poetisa Graça Graúna, que um dos versos, tem a frase: "Ao escrever, dou conta da ancestralidade, do caminho de volta, do meu lugar no mundo".

“Foi escrevendo no papel, no corpo, na alma, na sala de aula, no computador que dei conta da minha ancestralidade, do caminho de volta, do meu lugar no mundo. Carrego comigo esse lugar no mundo - lugar este que é coletivo”, afirma o professor Joel Vieira da Silva Filho,  como reforço do quanto o acesso à educação foi determinante para a mudança de sua realidade de vida e realizações.

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