Povos Indígenas: docente revela trajetória pessoal e acadêmica
Entre apagamentos históricos e a força da resistência indígena, conheça o que Michelle chama de processo de reexistência
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Durante séculos, a história oficial do Brasil tentou apagar a presença indígena, relegando-a ao passado ou a representações simplificadas. No entanto, essa narrativa vem sendo questionada por pesquisadores e pelos próprios povos originários, que seguem existindo, resistindo e reivindicando seus direitos. É nesse contexto que a trajetória da professora Michelle Reis ganha destaque, uma história que mistura pesquisa acadêmica, memória familiar e redescoberta da identidade.
Indígena do povo Puri, Michelle é docente do curso de História no Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes (Ichca), e conta que seu reconhecimento como parte desse coletivo não foi imediato, mas construído ao longo de anos. Curiosamente, o ponto de partida foi a própria pesquisa histórica. “Foi exatamente o meu contato com a história indígena que me fez pensar sobre a minha origem”, afirma. Durante sua formação acadêmica, a temática indígena era praticamente ausente, reflexo de um silenciamento estrutural que ainda persiste no ensino brasileiro. Foi apenas ao aprofundar seus estudos e dialogar com diferentes povos que ela começou a identificar semelhanças entre aquelas narrativas e a história de sua própria família.
As memórias estavam ali, mas fragmentadas. A professora relembra que a ancestralidade indígena sempre foi mencionada, porém de forma superficial, muitas vezes associada apenas à aparência física. “A gente falava sobre isso como um assunto folclorizado, não como pertencimento”, diz. A reconstrução dessa identidade passou, então, por um processo cuidadoso de escuta, sobretudo com os mais velhos, em especial sua avó, de 97 anos, que guarda lembranças fundamentais sobre as origens da família.
Mas, no caso dos povos indígenas, o reconhecimento não é apenas individual. Michelle explica que a identidade indígena depende do acolhimento coletivo. Após anos de busca, foi reconhecida por integrantes do povo Puri, especialmente por meio do contato com lideranças e iniciativas de preservação cultural. “A subjetividade indígena é coletiva. Não basta se autodeclarar, é preciso ser reconhecido pelo povo”, ressalta. Esse acolhimento marcou, segundo ela, a confirmação de uma trajetória que já vinha sendo construída há anos.
A história do povo Puri exemplifica um fenômeno recorrente no Brasil: o apagamento institucional. Considerados “extintos” no século XIX, assim como diversos outros povos, os Puri continuaram existindo, ainda que invisibilizados. “O Estado decretava a inexistência desses povos, mas essas pessoas continuavam ali”, explica a professora. Esse processo esteve diretamente ligado à tentativa de romper vínculos entre os indígenas e seus territórios, elemento central de suas formas de vida.
Segundo Michelle, os povos indígenas historicamente mantêm uma relação de cuidado e interdependência com o território, entendido como um espaço vivo, que inclui não apenas a terra, mas também rios, montanhas, plantas e animais. Essa visão entra em conflito com a lógica capitalista de exploração e propriedade privada. “Para o Estado, não era interessante manter esses modos de vida. Por isso houve uma tentativa constante de apagamento”, afirma.
As consequências desse processo ainda são visíveis. Ao longo das gerações, muitos indígenas foram forçados a abandonar seus territórios e a se integrar a contextos urbanos, rompendo laços comunitários e perdendo referências culturais. Soma-se a isso o racismo estrutural, que historicamente associou a identidade indígena a estereótipos negativos. “As pessoas foram ensinadas que ser indígena era algo ruim. Isso fez com que muitos negassem sua própria origem”, explica.
Apesar disso, cresce hoje um movimento de retomada identitária. Para Michelle, o termo mais adequado para descrever esse processo é “reexistência”, uma forma de existir que carrega em si a resistência. “Os povos indígenas estão lutando para existir enquanto indígenas, mesmo depois de tantos séculos de violência”, diz. Esse movimento também revela que a ancestralidade indígena está mais presente na sociedade brasileira do que se imagina, muitas vezes escondida sob outras denominações.
A educação, nesse cenário, aparece como ferramenta central de transformação. A professora critica a forma como o Dia dos Povos Indígenas ainda é tratado em muitas escolas, marcado por práticas superficiais e estereotipadas. “A pintura indígena, por exemplo, não é estética. Ela tem um significado político, representa identidade e luta”, afirma. Para ela, é fundamental que o tema seja abordado de maneira contínua, crítica e contextualizada, valorizando os povos indígenas como sujeitos históricos e políticos.
Outro ponto destacado é a importância de aproximar estudantes da realidade indígena contemporânea, seja por meio da presença de lideranças nas escolas ou de visitas a comunidades. “Os indígenas não estão no passado. Eles estão nas universidades, nas cidades, nos espaços de poder. São professores, pesquisadores, intelectuais”, ressalta.
Essa presença, no entanto, ainda enfrenta desafios. Embora políticas públicas tenham ampliado o acesso de indígenas ao ensino superior, a permanência desses estudantes é dificultada por questões econômicas, logísticas e, principalmente, pelo preconceito. “Muitos sofrem racismo dentro da universidade, especialmente quando afirmam sua identidade. Isso impacta diretamente na permanência”, alerta.
Entre suas pesquisas, Michelle se dedica à trajetória de Mário Juruna, figura emblemática na política brasileira. Primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados, durante a ditadura militar, Juruna ficou conhecido por usar um gravador para registrar promessas de autoridades. A estratégia, que gerava estranhamento na época, era uma forma de enfrentar a desconfiança institucional. “Ele levantou pautas que eram completamente silenciadas e ocupou um espaço de poder em um contexto extremamente adverso”, explica.
A atuação de Juruna antecede a Constituição de 1988, que reconheceu oficialmente os direitos dos povos indígenas no Brasil. Ainda assim, esses direitos seguem sendo alvo de disputas, como no caso do chamado marco temporal, que limita o reconhecimento de territórios indígenas. Para a professora, essa proposta ignora o histórico de expulsões e violências sofridas por esses povos. “É negar a história e dar continuidade a um processo de extermínio”, afirma.
Confira a entrevista com Michelle Reis no Ufal e Sociedade.