Aline Ramos se aposenta após mais de três décadas de docência no CTEC
Ela foi a primeira mulher a dirigir o Centro de Tecnologia da Ufal, desde a criação da unidade acadêmica, em 1955, então denominado de Escola de Engenharia
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Alcançar vários patamares de relevância e de grandes responsabilidades com ativa colaboração às rotinas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em conexão com a evolução e crescimento da instituição, faz da carreira acadêmica da professora Aline da Silva Ramos Barboza uma destacada trajetória como docente aliada a de gestora. Um percurso acadêmico construído com muito empenho, dedicação, compromisso e diversificadas competências, marcado por vivências e experiências, trazendo muitas realizações profissionais e pessoais. E tudo isso proporcionado pelo que ela considera como a escolha que fez com convicção, a docência, ampliando sua formação, campos de aprendizados e qualificação, tornando-se uma referenciada pesquisadora.
Egressa do curso de Engenharia Civil da Ufal, Aline é mestre e doutora pela Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP). Aos 24 anos ingressou como docente da Ufal e a aposentadoria, em março deste ano, chegou com 34 anos e oito meses de uma referenciada atuação em sua unidade acadêmica de origem, o Centro de Tecnologia (CTEC), que pertence ao Campus A.C. Simões. Nesse espaço universitário foram vários os compromissos assumidos com engajamento e êxito. Um destaque para o cargo de direção que assumiu: ela foi a primeira mulher a dirigir o CTEC, desde a criação da unidade, em 1955, quando ainda era Escola de Engenharia.
O gosto pelos estudos, Aline diz que sempre moveu a sua vida. E ser ferrenha defensora de que transformação de vidas, só acontece com educação, é trazer à tona a sua própria realidade: “Eu costumo dizer que eu só acredito em mudança de vida por meio da Educação, e isso é confirmado pela minha trajetória de vida. Sou de origem pobre, filha de pais semianalfabetos que incutiram em mim, e nos meus irmãos, que a herança que eles poderiam deixar era o estudo”, enfatiza Aline.
E, na complementação, reporta-se do quanto foi desafiante a sua caminhada: “Fui a primeira filha a concluir um curso superior, e foi na Ufal, onde também conheci a pessoa que seria o meu esposo. Sem dinheiro, dependendo de conseguir bolsa, a 2.337 quilômetros de casa, decidi fazer pós-graduação na USP, porque queria estudar na melhor universidade da América Latina”, diz, Aline. Aproveita para relembrar que os seus maiores motivadores, para mais um degrau acadêmico, foram os professores da graduação e, posteriormente, colegas do CTEC, Severino Pereira Cavalcanti Marques e Dilze Codá.
Ocupar espaços de referência, como Aline ocupou na Ufal, é resultado de toda uma construção de sua vida acadêmica pautada pela qualificação, em sua área, a Engenharia, da graduação à pós-graduação otimizada pelo que buscou, encontrou e se realizou: ser pesquisadora. E toda essa trajetória exitosa, aliou-se à área de gestão desempenhada, também, competentemente. Mas, dificilmente, nada disso teria acontecido, enfatiza Aline, se não fossem a vontade de estudar e de adquirir conhecimento.
A posse de Aline Ramos como docente ocorreu em 16 de agosto de 1991, um dia memorável para ela, porque também marcava os 50 anos de vida de sua mãe. Destacou que durante o curso de mestrado tomou conhecimento de dois concursos para professor, um na Universidade Federal de São Carlos (UFSC) e o outro na Ufal. “Como o meu interesse sempre foi voltar para Maceió, só participei do concurso da Ufal. O ano era 1989, fui aprovada, mas tive que dar continuidade ao curso de mestrado. O meu retorno à Maceió se deu em 1991, ano da minha posse. À frente da Ufal estava a reitora Delza Gitai, primeira mulher a dirigir a instituição e também a primeira gestão, cujo processo de escolha se deu pela participação da comunidade universitária, com resultado referendado pelo Consuni”, relembra Aline.
O doutorado, Aline cursou posteriormente, já como docente, casada e mãe de três filhos. Em 1998 retornou a São Carlos para mais um degrau acadêmico, cuja motivação veio a partir de um grande desejo: o de ser pesquisadora de referência na área de Estruturas de Concreto. Já consolidada como pesquisadora, reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Concreto e pela Associação Brasileira de Métodos Computacionais em Engenharia, ela ingressou em 2016, na Escola Politécnica da USP para um pós-doutorado em Construção Civil.
“Costumo dizer que adquiri maturidade no meu contexto de pesquisa, por meio da minha trajetória de pós-graduação na USP, junto a pessoas com as quais pude ampliar relações de pesquisa em várias universidades do país”, afirma. E a certeza de seguir carreira docente em sua área, foi reafirmada quando teve a oportunidade de fazer outra escolha. E conta: “Dias antes de receber a carta da Magnífica Reitora Delza Gitai com a convocação para a posse, fui indicada pelo meu ex-professor de Construção Civil, Disnaldo Almeida, para uma entrevista para o cargo de engenheira na fábrica de pré-moldados Cipesa. Era uma fábrica que, como profissional de engenharia, representava para mim uma grande oportunidade de aprendizado. Ao voltar depois para receber o resultado da avaliação, agradeci a oportunidade, mas comuniquei também a minha escolha, que era de seguir como docente do CTEC da Ufal. Costumava dizer aos meus alunos que era professora por escolha e não por falta de opção”.
Exercício da docência
Na maior parte de sua atuação profissional, pela sua formação em Engenharia Civil/Estruturas, Aline Ramos ensinou disciplinas do setor de estruturas para cursos de graduação e pós-graduação, como: Resistência dos Materiais ou Mecânica dos Sólidos, Estruturas de Aço, Estruturas de Madeira, Mecânica do Concreto Armado, Estruturas Pré-Moldadas, Pontes. Entretanto, ela diz, que a tese de doutorado que fez permitiu aplicar conhecimentos de estruturas em avaliações numéricas e experimentais de concreto armado pré-moldado, trazendo uma aproximação com o setor de Construção Civil e assim ensinou disciplinas de Tecnologias Construtivas, Sistemas Construtivos e Introdução ao BIM. Após a criação do curso de Engenharia de Petróleo, ela começou a lecionar a disciplina de Mecânica das Rochas até se aposentar.
“Essa versatilidade me permitiu fazer parte de Grupos de Pesquisa em Análise de Estruturas, Análise de Materiais, e Engenharia de Poços e ainda coordenar projetos nesses setores. Minha atuação em projetos de pesquisa começou quando assumi como docente, com alunos de iniciação científica e depois com alunos de mestrado e alunos de doutorado”. E destaca: “Meu primeiro projeto financiado foi por meio de um Edital Recém-Doutor Fapeal logo que voltei do doutorado. Com essa experiência, a minha vivência na USP e a integração com outros grupos de pesquisa, pude coordenar projetos financiados por meio de Editais Universais do CNPq, Editais de financiamento da Finep e, mais recentemente, por meio de Projetos com a Petrobras”.
Os citados projetos de pesquisa, segundo Aline, fortaleceram a sua aproximação com o setor de Construção Civil de Alagoas, com o setor de Estruturas de Concreto do Brasil, com o setor de Óleo e Gás, e mais recentemente, com o Grupo Brasileiro de Pontes, criado em 2024. Esse grupo reúne profissionais dedicados ao avanço técnico das Obras de Arte Especiais (pontes, viadutos, passarelas e túneis) no Brasil. “Todo o meu reconhecimento em pesquisa, foi estabelecido por meio de ações coletivas com colegas da Ufal e de outras universidades, com meus alunos de Iniciação Científica, de mestrado e de doutorado e com instituições públicas e privadas”.
E toda essa vivência adquirida, otimizando experiência e vivência destaca a projeção de Aline como docente e pesquisadora: foi orientadora de 115 trabalhos de alunos de graduação, 28 dissertações de mestrado e cinco teses de doutorado. “Eu me considero realizada como pesquisadora”, comemora.
Engajamento na universidade marca trajetória
No Centro de Tecnologia, Aline Ramos assumiu outras responsabilidades que se somam a sua carreira docente. Em 1995 foi chefe do Departamento de Estruturas e neste cargo fazia parte do Conselho do CTEC e também representou a unidade no Comitê de Extensão da instituição alagoana. Ao retornar do doutorado, em 2002, ela se apresentou para representar o CTEC no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) e em 2004 assumiu a vice-coordenação do curso de Engenharia Civil.
No CEPE ela teve a oportunidade de participar da elaboração e implantação do Regimento da Ufal que trouxe a mudança da estrutura para Unidades Acadêmicas. Com a criação da Unidade Acadêmica CTEC foi escolhida, como diretora, gestão 2006-2020. “Tive a honra de ser, aos 39 anos, a primeira mulher gestora do CTEC desde a sua criação”, reforça. Sobre a sua exitosa trajetória na Ufal, complementa:
“Tive ainda a oportunidade de assumir a Superintendência de Infraestrutura da Ufal em 2011 e a vice-coordenação do curso de Engenharia de Petróleo, em 2012. Com a criação do curso de Engenharia de Petróleo, comecei atividades de pesquisa e administrativas no Laboratório de Computação Científica e Visualização, o LCCV”.
Qualificação e projeção nacional
A graduação em Engenharia Civil do CTEC é o curso de engenharia fundador, junto com outras cinco faculdades, da Universidade Federal de Alagoas, e por isso, o primeiro responsável local pelo desenvolvimento da engenharia no Estado de Alagoas. Aline diz que, sendo reconhecido nacionalmente como um curso de alto nível de qualidade, isso faz com que seus egressos se encontrem em posição de destaque em diversas instituições públicas e privadas do Estado e, assim, estejam comprometidos com todo o desenvolvimento de nossa sociedade. “A Construção Civil no Estado de Alagoas é um dos maiores geradores de postos de trabalho e por isso, a necessidade de formação qualificada se torna motivação para a Engenharia Civil do Centro de Tecnologia”, afirma.
Destaca que, ao longo dos anos, essa mesma motivação, associada aos diversos enfrentamentos trazidos pela indústria local e pelos desafios ambientais do Estado de Alagoas, fez com que o CTEC renovasse o seu compromisso com o desenvolvimento da engenharia de qualidade no Estado e assim ampliasse sua oferta de cursos com a Engenharia Química, Engenharia Ambiental e Sanitária e Engenharia de Petróleo. “Esse último, pensado antes como uma visão de futuro, ratifica nos dias de hoje a aderência do CTEC ao desenvolvimento do Estado quando temos instalada aqui a empresa Origem Energia S.A.. Mais recentemente, o CTEC tem em seu planejamento a abertura de novos cursos, ou seja, continua renovando o compromisso que tem com o desenvolvimento da engenharia em Alagoas.
Sendo a Ufal uma referência para o ensino superior de Alagoas, a alta qualificação do seu corpo técnico, atingida nos últimos anos, permite que hoje, sem sair do estado, a sociedade alagoana possa alcançar altos níveis de qualificação na educação, seja na graduação ou na pós-graduação, e assim mudar a realidade de vida de cada cidadão. “Essa mudança em nível de pós-graduação, só foi atingida por mim saindo do Estado e hoje já pude mudar a realidade de vários mestres e doutores estando na Ufal. Eu acredito que toda e qualquer mudança vem a partir da educação”, enfatiza.
E reafirmando a importância da instituição, de uma forma geral, aproveita para dizer: “Tive três filhos e, para meu orgulho, todos são egressos da Ufal, dos cursos de Engenharia Civil, Direito e Educação Física e estão no mercado de trabalho com a profissão que escolheram. Estou aposentada, junto com meu marido, que também era docente da universidade. Tudo isso só reforça a importância da Ufal na minha casa e na casa dos que tenho oportunidade de conviver”. Acrescenta: “A importância que dou à Ufal serve para que possamos demonstrar para Alagoas que vale a pena a educação e sem ela não há transformação”.
Projetos e colaboração
Agora aposentada, vivendo um novo ciclo, Aline diz que a aposentadoria sempre foi para ela algo que já está definido como direito quando se ingressa na vida profissional e portanto, não exigiu nenhum tipo de planejamento, a não ser o de coincidir com a do seu esposo e colega docente, Márcio Barboza. “Considero de vital importância a inserção de novos docentes para manutenção do ritmo de desenvolvimento da Ufal, frente a cada novo desafio que sempre surge com o passar dos anos”, diz a experiente e competente profissional. Mas a ativa pesquisadora enfatiza que o encerramento de um ciclo acadêmico continua a proporcionar atividades científicas. E anuncia:
“O espaço deixado pelas atividades que encerrei me dá a oportunidade de atuar de forma voluntária em algumas ações que antes eram tratadas de forma secundária. E por gostar de estudar e sempre me motivar a transformar os estudos em algo que possa aplicar na Engenharia, eu continuo com ações no Grupo de Pontes e na Engenharia de Poços de Petróleo. Temos também um projeto nacional chamado 'Engenharia por Elas' para motivar meninas do ensino médio a seguirem carreira na engenharia, que é para mim uma motivação para querer compartilhar todo o prazer que sinto em ter escolhido ser engenheira”. Em reforço ao que coloca, diz:
“A aposentadoria encerra o vínculo ativo, mas não o vínculo de colaboração em estudos e pesquisas que trouxeram o meu reconhecimento como docente e pesquisadora”, finaliza Aline Ramos.