Amaro Braga fala sobre a diversão off-line dos jogos de tabuleiro
Docente, que tem mais de 400 títulos em sua coleção, fez do hobby objeto de pesquisa e momento de pausar a realidade
Jogos de tabuleiro modernos têm se tornado um passatempo muito procurado por pessoas que querem passar menos tempo nas telas ou que buscam formas alternativas de conexão com os amigos. De acordo com um levantamento realizado pela Abrin, maior feira de brinquedos da América Latina, as vendas de jogos de tabuleiro, cartas e blocos de construção movimentaram R$10,3 bilhões somente no último ano.
A pandemia de covid-19 aqueceu a demanda do setor, mas as noites de jogatina já faziam parte da rotina de lazer de muitos entusiastas do hobby. É o caso do professor Amaro Braga, do Instituto de Ciências Sociais (ICS), que tem uma vasta coleção de títulos e incorporou a prática aos seus momentos de lazer desde a época da graduação.
De acordo com o docente, o interesse pelos jogos de tabuleiro surgiu ainda na adolescência, quando jogava extensas partidas de Role-Playing Games (RPG) e os jogos eram inseridos em momentos de pausa no meio das campanhas. “Esses joguinhos foram, cada vez mais, me chamando atenção principalmente porque eu estava em uma formação de ciências sociais, mergulhado em teorias sobre interação social e cooperação e eu começava a perceber como os jogos refletiam isso. Então era um hobby que não me distanciava muito do meu objeto de estudo”, explicou.
Por ter partidas mais curtas em comparação com as de RPG, os jogos de tabuleiro encaixaram melhor na rotina de leituras e salas de aula do, então, estudante. Braga relembra que um título específico o fez se encantar pelo universo dos boardgames. “A grande mudança foi com um jogo chamado Catan. Ele mexeu com minha percepção sobre essa atividade e, a partir do momento que eu comecei a jogá-lo, os jogos entraram em uma agenda fixa nas minhas atividades de lazer, enquanto laboratórios sociais divertidos, onde eu observava as tensões entre cooperação e competição que ele obriga os jogadores a administrarem”.
Desde então, o docente tem ampliado seu acervo, com uma coleção que reúne mais de 400 títulos, de diferentes mecânicas, temáticas e nacionalidades. “Eu tenho um gosto para jogos muito diversificado. Eu acho que tem espaço para todos, mas posso dizer que minha preferência é pelo que a gente chama de jogos mais pesados, os eurogames, porque eles demandam muito planejamento, administração de recursos. Você tem que planejar suas ações até quatro rodadas à frente”, avaliou.
“Esse tipo de jogo me agrada bastante porque ocupa bastante minha mente e é dá um descanso. Pode parecer um contrassenso, mas justamente para quem pensa demais devido ao trabalho intelectual, uma maneira de descansar a mente é ocupá-la com um jogo pesado”, complementou.
E o que começou como um hobby também se tornou objeto de estudo. Braga, que pesquisa entretenimento juvenil, começou a investigar as aproximações da sociologia com os boardgames e como aplicar estratégias de gameficação no ensino das ciências sociais. Em 2024, bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) desenvolveram protótipos de jogos voltados a facilitar o ensino, orientados por Braga.
Homo ludens
A partir das pesquisas e da própria experiência, o docente lista os principais benefícios de ter jogos de tabuleiro como hobby. “É uma terapia mexer com dados coloridos, recursos, cartas. A gente vive aí em reuniões, sempre on-line, respondendo e-mails ou mensagens que nunca acabam. E nesse contexto os jogos de tabuleiro terminam sendo rituais de pré-identificação, a gente está ali de volta para um mundo analógico, segurando as cartas, interagindo com outras pessoas, olho no olho”, explicou.
“É uma dimensão muito de interação social muito mais significativa. Nesse espaço, temos outras regras, outros conflitos, nos tornamos capazes de modificar um pouco os padrões das nossas relações cotidianas. Podemos tomar um decisões sobre um outro tipo de pressão, gerenciar recursos, pensar em sistemas complexos. E o que seria isso senão um tipo de ginástica cognitiva com mais adrenalina?”, complementou.
Para o docente, os jogos também trazem aprendizados que facilitam a vida e desenvolvem habilidades que estão cada vez mais sendo perdidas em uma realidade atravessada pelo virtual. “O jogo termina sendo um espaço onde, ironicamente, a gente não tem esse o objetivo fixo de ganhar, não existe essa produtividade tóxica. Ficamos ali simplesmente para compartilhar aquele espaço com as pessoas, interagir”.
“Inclusive, os jogos permitem que a gente experimente fracasso sem consequências reais. A gente exercita a criatividade sem julgamento, a gente entra em conflitos que não vão terminar em um problema real. Então eu vejo isso como um treino para a vida social: a gente negocia, a gente se encontra, a gente descobre que perder pode ser divertido”, finalizou.
Conheça o Catan
Catan é um jogo de tabuleiro estratégico em que os jogadores assumem o papel de colonizadores de uma ilha, buscando expandir seus territórios por meio da construção de estradas, vilas e cidades. Durante a partida, os participantes coletam e negociam recursos, como madeira, trigo, lã, argila e minério, para realizar construções e conquistar pontos de vitória. O jogo combina sorte, estratégia e negociação entre os jogadores, sendo reconhecido por incentivar o planejamento e a interação social.