Professor da Ufal palestra sobre soberania científica na UFPR
Participação no 10º Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria reforça cooperação internacional e atualização das pesquisas desenvolvidas pelo Lab-iMetrics
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O professor Ronaldo Ferreira de Araújo, do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes (Ichca) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), participou de duas atividades de destaque na programação acadêmica realizada na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. O docente ministrou uma aula na CWTS Scientometrics Winter School e proferiu uma palestra no 10º Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria (EBBC).
As atividades reuniram pesquisadores brasileiros e estrangeiros para discutir avaliação da ciência, métricas responsáveis, circulação do conhecimento, diversidade, equidade e soberania científica. A participação também deu continuidade à trajetória de cooperação de Ronaldo Araújo com a Universidade de Leiden, nos Países Baixos, onde concluiu o pós-doutorado em Estudos de Ciência e Tecnologia, em 2024.
“A conclusão do pós-doutorado na Universidade de Leiden não representou o encerramento de uma etapa, mas a abertura de uma agenda de colaboração e atualização científica. Participar da Winter School e do EBBC permite dar continuidade a esse intercâmbio e aproximar a experiência internacional das pesquisas, do ensino e da formação de estudantes desenvolvidos na Ufal”, afirmou o professor.
Altmetria e avaliação responsável
Na CWTS Scientometrics Winter School, atividade formativa ofertada pelo Centre for Science and Technology Studies (CWTS) da Universidade de Leiden, Ronaldo Araújo ministrou a aula "Princípios da Altmetria".
A atividade apresentou a origem e os fundamentos da altmetria, campo dedicado ao estudo da atenção e das interações que a produção científica recebe em ambientes digitais. Essas manifestações podem ocorrer em redes sociais, notícias, blogs, documentos de políticas públicas, plataformas colaborativas e outros espaços que não são alcançados pelos indicadores tradicionais de citação.
Além de discutir conceitos, fontes de dados e ferramentas de monitoramento, o professor apresentou resultados de pesquisas brasileiras e latino-americanas. A aula também abordou limitações dos indicadores, como a presença de robôs, as desigualdades de acesso às plataformas, os vieses linguísticos e geográficos e a relação nem sempre direta entre visibilidade on-line, qualidade e impacto científico.
“A altmetria amplia nossa capacidade de compreender como o conhecimento científico circula e desperta atenção para além dos periódicos especializados. Ao mesmo tempo, precisamos evitar a substituição de uma lógica simplificadora por outra. Nenhum indicador, isoladamente, consegue representar toda a contribuição científica ou social de uma pesquisa”, explicou.
A discussão foi orientada por princípios internacionais de avaliação responsável da ciência, presentes em documentos e iniciativas como o Manifesto de Leiden, a Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (Dora) e a Coalizão para o Avanço da Avaliação da Pesquisa (Coara).
“Trabalhar com métricas responsáveis significa reconhecer que os indicadores precisam estar subordinados a perguntas bem formuladas e a avaliações qualitativas. É necessário considerar as características das áreas, das instituições, dos territórios e das comunidades envolvidas. Os números devem apoiar decisões, e não substituir o julgamento acadêmico”, ressaltou Ronaldo Araújo.
Soberania científica e diversidade
Na programação do 10º EBBC, realizado entre os dias 22 e 24 de julho, o professor participou do debate sobre diversidade, equidade e inclusão no contexto da soberania científica. Em sua palestra, intitulada Soberania científica, para quem?, Ronaldo Araújo discutiu como as desigualdades sociais, raciais, territoriais e de gênero interferem na produção e no reconhecimento do conhecimento.
O professor defendeu que a soberania científica não deve ser compreendida apenas como disponibilidade de orçamento, infraestrutura ou autonomia tecnológica. Para ser efetivamente soberana, a ciência também precisa garantir condições para que diferentes grupos sociais participem da definição dos problemas, da produção dos dados e da interpretação dos resultados.
“Quando falamos em soberania científica, precisamos perguntar quem tem condições de produzir conhecimento, quais problemas são considerados relevantes e quais pesquisas conseguem circular e receber reconhecimento. Uma ciência concentrada em poucos grupos, territórios ou perspectivas não consegue responder plenamente à diversidade dos desafios nacionais”, declarou.
A apresentação foi construída em diálogo com a produção acadêmica da pesquisadora Thema Monroe-White, da George Mason University, nos Estados Unidos. Os estudos abordados mostram como raça, gênero e outras dimensões da identidade social influenciam os temas investigados, as oportunidades de permanência na carreira científica e o reconhecimento concedido às pesquisas.
A palestra também apresentou quatro filtros que interferem na trajetória do conhecimento: as condições de produção da pesquisa; os critérios de indexação de periódicos e bases de dados; os mecanismos de circulação; e as formas de reconhecimento, como citações, prestígio e financiamento.
“Uma pesquisa pode ser rigorosa, responder a um problema social relevante e, ainda assim, permanecer praticamente invisível nos sistemas tradicionais de avaliação. Pensar a soberania científica exige valorizar a produção local, multilíngue e orientada às necessidades da população”, enfatizou.
Atualização da agenda do Lab-iMetrics
Os temas discutidos nas duas atividades estão diretamente relacionados às pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Estudos Métricos da Informação na Web (Lab-iMetrics), grupo de pesquisa da Ufal liderado por Ronaldo Araújo.
O laboratório desenvolve estudos teóricos e metodológicos sobre coleta, análise e visualização de informações em ambientes digitais. Suas linhas abrangem a altmetria, a cibermetria, as métricas de mídias sociais, a presença on-line de pesquisadores e instituições, o impacto social da informação científica e as relações entre ciência, tecnologia e sociedade.
Segundo o professor, as experiências acumuladas durante o pós-doutorado e nas atividades realizadas em Curitiba contribuem para um processo de atualização da agenda científica do grupo. A proposta é ampliar a atenção dedicada às métricas responsáveis, à soberania científica, às desigualdades informacionais, à diversidade na ciência e aos efeitos da plataformização sobre a produção e a circulação do conhecimento.
“O Lab-iMetrics acompanha as transformações dos ambientes digitais e dos próprios estudos métricos da informação. Estamos atualizando nossa agenda e nossas linhas de pesquisa para incorporar de maneira mais explícita questões como justiça de dados, diversidade, soberania científica, escuta social da ciência, avaliação responsável e dependência de infraestruturas privadas. Essa renovação preserva a trajetória do grupo e, ao mesmo tempo, responde aos desafios atuais da ciência”, explicou.
A atualização também deverá orientar novos projetos, trabalhos de iniciação científica e pesquisas de graduação e pós-graduação. Para Ronaldo Araújo, a articulação entre experiências internacionais e atividades realizadas na Universidade fortalece a formação dos estudantes e amplia a inserção da Ufal nas redes de pesquisa da área.
“Não se trata apenas de participar de um evento ou apresentar resultados individuais. Essas atividades ajudam a construir redes, renovar perguntas de pesquisa e criar oportunidades para estudantes e pesquisadores vinculados à Ufal. O conhecimento adquirido retorna para a Universidade por meio das aulas, das orientações, dos projetos e das ações do grupo de pesquisa”, destacou.
Sobre o EBBC
Realizado na UFPR, o 10º EBBC teve como tema Soberania científica: caminhos da ciência aberta frente à plataformização. O encontro é um dos principais espaços brasileiros de discussão sobre bibliometria, cientometria, altmetria e outros estudos métricos da informação.
Ronaldo Ferreira de Araújo é professor do curso de Biblioteconomia e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Ufal. É líder do Lab-iMetrics, bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pós-doutor em Estudos de Ciência e Tecnologia pela Universidade de Leiden.