Tese de professor do Cedu recebe Menção Honrosa no Prêmio Capes

João Paulo de Lorena compartilhou com pós-graduandos da UFMG a trajetória da pesquisa reconhecida pela Capes

Por Jacqueline Freire - jornalista
Professor do Cedu, João Paulo de Lorena, em palestra na UFMG
Professor do Cedu, João Paulo de Lorena, em palestra na UFMG

O professor João Paulo de Lorena, docente do Centro de Educação (Cedu) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), teve sua tese reconhecida com Menção Honrosa na categoria Educação do Prêmio Capes de Tese. No último semestre, ele foi convidado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde cursou a graduação em Pedagogia, para falar sobre o reconhecimento e os caminhos da pós-graduação.

“Ter a minha tese reconhecida entre os trabalhos de maior destaque do ano na área de Educação me deixou extremamente feliz e emocionado, sobretudo porque se trata de uma investigação sobre pedagogias e currículos criados na relação com infâncias em dissidências de gênero e sexualidade. São pedagogias e currículos inventados para abrigar, proteger e afirmar crianças que, por não corresponderem aos ideais regulatórios de gênero e sexualidade, estão mais expostas a diferentes formas de violência na escola e precisam criar estratégias para resistir e existir na diferença que as constitui”, afirma.

Sua tese, defendida no Programa de Pós-graduação em Educação pela UFMG, teve como título: “Pedagogias porvir com currículos e infâncias em dissidências”, e investigou pedagogias e currículos criados na relação com infâncias em dissidências de gênero e sexualidade. Segundo João Paulo, a pesquisa mostrou que a chegada assumida das infâncias em dissidências de gênero e sexualidade ao território escolar não produz apenas demandas por reconhecimento, inclusão ou adaptação. 

“Essas infâncias movimentam pedagogias e currículos, fazendo-os transicionar, hesitar, experimentar e criar outras possibilidades de existência. Ao cartografar esses movimentos, identifiquei a produção de diferentes pedagogias: a pedagogia da hospitalidade, que demanda currículos de portas abertas; a pedagogia da hesitação, que faz o currículo gaguejar; a pedagogia dos afectos queer, que produz currículos à flor da pele; e o currículo do enfrentamento, que produz uma subjetividade lutadora”, relata.

Ele conta que a principal contribuição do seu trabalho está justamente em deslocar a pergunta sobre o que a escola deve fazer diante dessas infâncias. “Ao invés de oferecer uma receita, um protocolo ou um caminho universal, a tese mostra que é possível aprender com aquilo que essas crianças fazem acontecer quando chegam à escola. Elas ensinam que pedagogias e currículos podem ser territórios de criação, resistência e produção de vidas mais possíveis de serem vividas. Assim, a pesquisa afirma a escola, o currículo e a pedagogia como espaços de disputa, mas também como territórios prenhes de possibilidades, nos quais pequenas revoluções podem abrir caminhos para que a diferença não precise ser controlada e/ou sufocada para que uma vida possa existir”, avalia. 

Olhar atento

Para o pesquisador, todo esse estudo fez com que ele chegasse à docência na Ufal com um olhar ainda mais atento para aquilo que acontece nos encontros. “Os caminhos investigativos traçados me ensinaram que pedagogia não é a aplicação de um roteiro previamente definido, mas uma prática que se faz em ato, que movimenta signos, produz experiências e exige abertura para aquilo que o encontro pode criar. Isso tem atravessado minhas aulas, minhas orientações e minhas atividades de pesquisa e extensão, nas quais tenho buscado construir espaços em que estudantes possam experimentar outras formas de pensar a educação, o currículo, as diferenças e os modos de existência, sem precisar traduzir a novidade para os códigos já conhecidos”, explica.  

O reconhecimento da tese também ampliou sua responsabilidade diante da universidade pública. “Se a pesquisa mostrou que é possível criar pedagogias e currículos que façam alianças com a vida, hoje me interessa fazer dessa aprendizagem uma prática cotidiana na Ufal. É nesse movimento que tenho investido na criação de espaços coletivos de pesquisa, como o F(r)icções: Grupo de Estudos e Pesquisas em Currículo, Filosofia e Diferença, e na articulação entre ensino, pesquisa e extensão. A tese continua, portanto, não como algo que ficou para trás, mas como uma espécie de linha de força que segue se desdobrando. Uma linha que me convoca a continuar confabulando pedagogias, currículos e modos de fazer pesquisa sensíveis à diferença e comprometidos com a criação de possíveis na universidade, na educação, na escola e na vida”, revela. 

Prêmio Capes

Desde 2005, o Prêmio Capes de Tese reconhece os melhores trabalhos de conclusão de doutorado defendidos em programas de pós-graduação brasileiros, considerando critérios como a originalidade da pesquisa, sua relevância para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural, social e de inovação, bem como o valor agregado pelo sistema educacional à formação do candidato.

Cada programa de pós-graduação seleciona, por meio de uma comissão avaliadora interna, a melhor tese defendida no ano e a inscreve para concorrer à premiação. A tese selecionada passa, então, a concorrer com os trabalhos inscritos pelos demais programas do país, em sua respectiva área do conhecimento. O trabalho do professor João Paulo foi escolhido em 2025, ao lado de outra tese, para receber menção honrosa.

“Chegar ao Prêmio carregando comigo as histórias dessas crianças, algumas delas crianças trans, em um contexto ainda tão hostil à vida de pessoas LGBTQIAPN+, foi uma experiência inesquecível. Além do reconhecimento acadêmico de uma pesquisa, a menção honrosa representa, para mim, a possibilidade de fazer circular essas histórias, experiências e invenções e de reafirmar a importância de pesquisas que contribuam para a construção de escolas capazes de hospedar e afirmar a diferença”, conta.

Diálogo com a UFMG

A palestra na UFMG teve como público-alvo mestrandos e doutorandos do Programa mineiro. “Na ocasião, compartilhei aprendizagens, desafios e caminhos percorridos ao longo da pesquisa, que culminaram no reconhecimento da tese pela Capes. Também apresentei alguns desdobramentos da investigação em minhas atuais atividades de pesquisa, ensino e extensão na Ufal, especialmente na criação e nos trabalhos desenvolvidos no F(r)icções, fundado em maio de 2026, no Centro de Educação de nossa universidade”, afirma.

Ele diz ainda que o convite da UFMG para compartilhar essa trajetória também teve um significado especial: “Foi uma oportunidade de retornar ao espaço em que minha pesquisa foi construída, agora em outra posição, e transformar parte dessa experiência em diálogo com os que estão iniciando ou vivendo seus próprios percursos na pós-graduação”. 

Durante a palestra, foram abordados os caminhos percorridos até o reconhecimento da tese, incluindo escolhas metodológicas, aprendizagens, dificuldades e desafios encontrados durante a investigação. Também foram apresentados desdobramentos da pesquisa nas atuais atividades de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas na Ufal. A participação dos estudantes foi marcada por perguntas e discussões sobre diferentes etapas da trajetória acadêmica. Os questionamentos envolveram tanto o processo de produção da tese quanto os desdobramentos da pesquisa após a conclusão do doutorado. Também foram discutidos os desafios e as possibilidades do início da carreira como docente e pesquisador efetivo de uma universidade pública.

Um dos principais pontos destacados durante a atividade foi a compreensão de que uma pesquisa de doutorado não se encerra com a defesa da tese. Ao contrário, a investigação continua produzindo perguntas, encontros, deslocamentos e novas possibilidades. Sobre isso, o professor afirma: “Uma tese nunca é uma obra solitária. Ela é feita de encontros, interlocuções, grupos de pesquisa, orientações, leituras, amizades e pessoas que nos ajudam a continuar quando o caminho parece difícil. Por isso, falar sobre o Prêmio Capes de Tese foi também falar sobre a vida na pós-graduação e sobre a possibilidade de construir uma trajetória acadêmica sem separar pesquisa, docência, formação e vida”, conclui.

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