Durante o Femupe, Antônio Nóbrega reinterpreta as raízes culturais da arte que nasce do povo
Em palestra no Femupe, o violinista recifense reflete sobre as fronteiras entre a cultura erudita e a popular e a missão de recriar as tradições brasileiras
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“Eu tive a sorte de, aos 20 anos de idade, conhecer o escritor Ariano Suassuna e, através dele, ser apresentado ao mundo cultural popular”, disse o violinista, cantor e pesquisador Antônio Nóbrega em sua palestra ‘A cultura nativa brasileira’, na programação do segundo dia do 18º Festival de Música de Penedo (Femupe).
Desde então, o artista recifense de formação clássica dedicou mais de cinco décadas dos seus 74 anos ao estudo das manifestações populares. Com a bagagem de quem integrou o Quinteto Armorial, grupo musical que se inspirou no Movimento Armorial liderado por Suassuna e produziu, entre os anos 70 e 80, música erudita com influências das raízes populares, Nóbrega fez questão de esclarecer sua posição no cenário artístico: ele não se considera um "artista popular", mas sim alguém que estuda, recria e reinventa essa arte.
Como explicou, a curiosidade pelo que vinha a ser raízes populares acabou por levá-lo a um mundo “completamente desconhecido, como se houvesse uma muralha entre nós, os da classe dominante, e os daqueles das classes subalternizadas historicamente no Brasil. E aí essa curiosidade me levou a tentar conhecer esse mundo cultural popular”, disse. Começava aí sua "cruzada" ao longo dos anos 70 pelas periferias e morros de Recife, onde passou a vivenciar o cotidiano dos grupos de caboclinhos, maracatus, coquistas e repentistas.
“A cultura dita popular nasce nesse povo, desse estrato, dessa camada social. Ela é fruto das pessoas que viveram dentro desse estrato: lavradores, marceneiros, domésticos, domésticas, engraxates, um mundo de gente. Foi essa camada social que criou esse universo de uma riqueza, esse ecossistema, para usar uma palavra muito comum, de vital importância para o Brasil”, reforçou.
Midiatização e superficialidade
Para o pesquisador, há uma ignorância no Brasil em relação à riqueza de suas próprias tradições, pois as danças populares não costumam ser mostradas pela mídia, exceto as festas mais tradicionais. “As danças [populares] não são mostradas dentro das rádios, dos principais programas de mídia, a não ser quando chega o período das festas como o São João e o Carnaval. Aí vem toda aquela midiatização e vai pelo lado menos importante, folclórico e mais superficial”, observou ao criticar que esse tipo de cobertura ignora a complexidade estrutural dessas danças. Ele usou como exemplo o frevo, dança carnavalesca que elenca mais de 100 passos, mas é retratada como divertimento.
Ao justificar o porquê de rebater as menções a ele como “o maior artista popular brasileiro”, Nóbrega disse que impossível se medir quem é o melhor em arte e que não é um “artista popular” como o sentido da expressão sinaliza, pois vem de outro contexto social e não compartilha das mesmas vivências religiosas ou comunitárias, mas sim busca absorver a forma e a estrutura da cultura popular para traduzi-las nos palcos.
Para auxiliar no trabalho de difusão dessa riqueza cultural, o artista fundou o Instituto Brincante. "Hoje a situação está melhor. Em São Paulo, você escuta grupos tocando maracatu nas ruas. O propósito do nosso trabalho é justamente fazer com que essa arte seja conhecida e assimilada, pois a gente ainda é muito ignorante em relação ao Brasil", concluiu.
O Femupe
O Festival de Música de Penedo (Femupe) é uma realização da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), executado por meio do Centro de Musicologia de Penedo (Cemupe) e da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (Proexc).
O evento é fruto da união institucional com o Sesc Alagoas, Prefeitura de Penedo, Banco do Nordeste, Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), Associação dos Empresários e Empreendedores do Turismo e da Economia Criativa de Penedo (Astec), Sebrae Alagoas, Sociedade Montepio dos Artistas de Penedo e outros parceiros.