Especial Mês da Mulher: Conheça a trajetória de Maria Aparecida Oliveira
A filósofa e educadora Maria Aparecida Batista de Oliveira, recém-condecorada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Alagoas, fala sobre sua história de militância, educação e defesa dos direitos das mulheres e da população negra
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Na segunda-feira (16), como parte da programação especial dedicada ao mês da mulher, o programa Ufal e Sociedade, da Rádio Ufal, recebe a professora Maria Aparecida Batista de Oliveira, uma das principais referências na luta por direitos humanos, igualdade racial e direitos das mulheres em Alagoas.
Natural de União dos Palmares, a professora iniciou sua trajetória na educação ainda muito jovem. Aos 13 anos, já ajudava a tia em uma escola do interior e, pouco tempo depois, começou a atuar como professora. “Eu começo a minha vida como educadora desde os 13 anos de idade. Eu era ajudante da minha tia, que era alfabetizadora, numa escola lá em União dos Palmares”, relembrou.
A vocação pela docência se consolidou rapidamente. Aos 16 anos, ela já dava aulas na rede pública e, posteriormente, ingressou no curso de Filosofia. A escolha da área foi motivada pelo interesse em compreender a sociedade e pelas influências que recebeu ainda na juventude. “Quando fiz vestibular em Filosofia, era o curso que eu queria de paixão. Acho que muito influenciada pela minha professora, que falava muito da filosofia e nos apresentou autoras como Simone de Beauvoir”, contou.
Durante a graduação e a carreira acadêmica, a professora teve contato com as ideias do educador Paulo Freire, que se tornaram uma referência em sua atuação como docente e pesquisadora. Ela lembra que, mesmo em um período marcado pela repressão política, as discussões sobre educação crítica e emancipadora já estavam presentes. “A gente estudava muito as obras de Paulo Freire e discutia a importância da educação para transformar a sociedade. Educar era também politizar, era fazer com que as pessoas se reconhecessem como sujeitos”, explicou.
Na Universidade Federal de Alagoas, onde construiu grande parte de sua carreira, a professora Cida, como é carinhosamente chamada na Ufal, atuou em atividades de ensino, pesquisa e extensão voltadas principalmente às questões de raça, gênero, diversidade sexual e direitos humanos. Ao longo dos anos, participou de grupos de pesquisa, orientou estudantes e contribuiu para ampliar o debate sobre essas temáticas dentro da Universidade.
Ela também teve forte atuação em movimentos sociais e espaços institucionais de defesa dos direitos das mulheres. Entre essas experiências, destaca a participação no Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher, onde chegou a exercer a presidência. “Foi uma experiência muito importante. Eu gosto muito de trabalhar com as comunidades populares e aprender com elas. Esse contato sempre foi fundamental na minha trajetória”, afirmou.
Durante a entrevista, a professora também relembra as dificuldades enfrentadas por mulheres que se declaravam feministas em décadas passadas. Segundo ela, assumir essa posição significava lidar com preconceito e hostilidade em diferentes espaços. “Quando a gente dizia que era feminista, existia muita discriminação. Na primeira passeata para combater a violência contra as mulheres, por exemplo, gritavam ofensas para a gente na rua. Não era fácil”, recordou.
Mesmo diante desses desafios, ela destaca que muitas conquistas alcançadas atualmente são resultado da mobilização histórica dos movimentos sociais. “Hoje temos várias políticas públicas voltadas para as mulheres, mas elas não foram dadas por nenhum governo. São fruto da luta dos movimentos feministas e sociais”, confirmou.
Racismo estrutural
Outro tema abordado na entrevista é o racismo estrutural e seus impactos na vida da população negra. A professora explica que a desigualdade racial continua presente em diferentes áreas, como saúde, educação e acesso a direitos básicos. “O racismo é muito perverso. Ele afeta profundamente as comunidades quilombolas e as populações negras. Muitas vezes, essas pessoas vivem em situação de vulnerabilidade e ainda enfrentam discriminação em serviços básicos”, revelou.
Apesar das dificuldades, a professora se diz emocionada ao ver as transformações ocorridas na universidade ao longo das últimas décadas, especialmente com a ampliação do acesso de estudantes negros ao ensino superior. “Quando eu vejo a universidade hoje mais enegrecida, isso me dá um alento. Valeu a pena todo o esforço coletivo para que mais pessoas tivessem acesso à universidade”, afirmou.
Em reconhecimento à sua trajetória acadêmica, intelectual e militante, a professora recebeu, em 2025, o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Alagoas, uma das maiores honrarias concedidas pela instituição.
Para ela, no entanto, o reconhecimento não representa o fim da luta, mas sim um incentivo para continuar defendendo a construção de uma sociedade mais justa. “A gente não pode perder de vista a esperança de ter um país mais igualitário. A luta precisa ser constante, cotidiana”, concluiu.
Além da exibição às 11h desta segunda-feira, você pode ouvir esse episódio também às 17h e às 23h, com reprises de terça a sábado nos mesmos horários. O conteúdo também estará disponível em formato de podcast no site da Rádio Ufal ou na sua plataforma de áudio favorita. Ouça e compartilhe!
Ficha técnica do programa Ufal e Sociedade:
Operador de áudio: Helder Melo
Direção técnica: Edilberto Sandes (Brother)
Locução: Lenilda Luna
Produção: Cecília Calado