Episódio traz legado de Zezito Araújo: “Somos resultado dos nossos ancestrais”

No encerramento da série especial em homenagem à África, o professor e historiador aborda como a luta do movimento negro atravessou sua trajetória e se transformou em políticas de inclusão dentro da Ufal

Por Cecília Calado – estudante de Jornalismo

O programa Ufal e Sociedade, da Rádio Ufal, encerra a série especial em homenagem à África com uma edição marcada por memória e resistência. O último episódio da temporada vai ao ar nesta segunda-feira (25), às 11h, data em que se celebra o Dia da África, e traz como convidado o historiador e pesquisador Zezito Araújo. Ao longo da entrevista, ele revisita sua trajetória no movimento negro alagoano, relembra a criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da Universidade Federal de Alagoas, atual Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neabi), e analisa os desafios ainda enfrentados no combate ao racismo estrutural no Brasil.

O episódio propõe uma reflexão sobre o papel da universidade pública na promoção da equidade racial e na valorização da história africana e afro-brasileira. Durante a conversa, Zezito destaca que o Dia da África representa uma oportunidade de romper com visões colonizadas sobre aquele continente e de reconhecer sua contribuição histórica para a humanidade.

“A criação dessa data dá a possibilidade de refletirmos sobre a África a partir de uma visão não colonizadora e reconhecer todo o potencial que esse continente tem na construção da humanidade”, afirmou.

Ao falar sobre identidade e pertencimento, o historiador critica a forma limitada como a presença negra ainda costuma ser retratada nos livros e nas escolas. Segundo ele, a narrativa histórica frequentemente reduz a população negra à escravidão, apagando conhecimentos, tecnologias e culturas fundamentais para a formação do país.

Na entrevista, Zezito reforça que africanos e afrodescendentes tiveram papel decisivo na construção econômica, social e cultural do Brasil. Ele lembra que atividades como a produção de açúcar, o trabalho com metais e a exploração mineral exigiam conhecimentos técnicos trazidos pelos povos africanos. Para ele, reconhecer essa contribuição é também combater o racismo histórico presente na sociedade brasileira.

Um dos momentos centrais da conversa é a lembrança da criação do Neabi da Ufal, considerado um dos primeiros do país. O professor conta que o movimento surgiu em meio às discussões sobre o reconhecimento do Quilombo dos Palmares e o tombamento da Serra da Barriga, em União dos Palmares. A partir desse processo, a Universidade e o movimento negro passaram a construir ações conjuntas voltadas à valorização da cultura afro-brasileira e à inclusão social.

“O Neabi foi a mola propulsora de uma série de ações. Ele não nasceu só da universidade, mas também do movimento negro”, destacou.

Ao longo dos anos, o núcleo passou a atuar na formação de professores da rede pública, na promoção de debates sobre relações étnico-raciais e na implementação de projetos voltados ao ensino da História da África. O trabalho também abriu espaço para o acolhimento de estudantes africanos e para o fortalecimento de políticas de inclusão dentro da universidade.

Outro ponto abordado na entrevista é a implantação das ações afirmativas na Ufal. Zezito relembra que a Universidade esteve entre as primeiras instituições brasileiras a discutir políticas de cotas raciais e sociais, em um contexto marcado por resistências e debates intensos sobre desigualdade.

Segundo ele, as cotas representam uma política de reparação histórica e permitiram ampliar a diversidade dentro da universidade pública. O historiador também rebate críticas recorrentes à política afirmativa e afirma que os resultados demonstram o fortalecimento da universidade a partir da inclusão de novos perfis sociais.

“As cotas são políticas de equidade. Elas trouxeram para a universidade uma diversidade social e cultural que antes não existia”, afirmou.

Ao analisar o cenário atual, Zezito aponta o racismo estrutural como um dos maiores desafios da sociedade brasileira. Para ele, o preconceito continua presente de maneira naturalizada nas instituições e nas relações sociais, dificultando avanços mais profundos na garantia de direitos.

Nesse contexto, Zezito destaca que a educação aparece como instrumento essencial de transformação. O historiador defende que o acesso ao ensino deve estar acompanhado de políticas públicas que assegurem permanência, oportunidades e condições reais de desenvolvimento para estudantes negros e periféricos.

Além da atuação acadêmica e política, o episódio também percorre momentos pessoais da trajetória do pesquisador. Em um dos trechos mais marcantes da entrevista, Zezito fala sobre ancestralidade e identidade ao refletir sobre o próprio caminho dentro da Universidade e do movimento negro. “Eu sou resultado dos meus ancestrais. Não sou resultado de mim mesmo”, declarou.

Outro tema abordado é a doação de seu acervo pessoal à Ufal, reunindo décadas de pesquisas, documentos e registros ligados à história da população negra em Alagoas. Para o professor, disponibilizar esse material para a universidade significa garantir que novas gerações possam continuar pesquisando, preservando e ampliando essas narrativas.

Encerrando a temporada especial do Ufal e Sociedade, o episódio reafirma o compromisso da Rádio Ufal com a valorização da diversidade, da memória e da produção de conhecimento crítico. A entrevista com Zezito Araújo fecha a série trazendo uma reflexão sobre história, identidade, inclusão e o papel transformador da universidade pública.

Além da exibição às 11h desta segunda-feira, o episódio também será reprisado às 17h e às 23h, com retransmissões de terça a sábado nos mesmos horários. O conteúdo ficará disponível em formato de podcast no site da Rádio Ufal e nas plataformas de áudio.

Ouça e compartilhe!

Ficha técnica do programa Ufal e Sociedade

Operador de áudio: Helder Melo
Direção técnica: Edilberto Sandes (Brother)
Locução: Simoneide Araújo
Produção: Cecília Calado

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável