Taxidermista fala sobre riscos e ética na coleta dos animais

Bruno Collaço explica que animais não são mortos com a finalidade de serem empalhados e fala sobre cuidados ao lidar com material silvestre


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Laboratório aproveita animais encontrados mortos para fazer as peças | nothing
Laboratório aproveita animais encontrados mortos para fazer as peças

Pedro Barros – estudante de Jornalismo 

O Portal da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) apresenta a última reportagem da série sobre o Laboratório de Taxidermia do Museu de História Natural (MHN). O setor é o responsável por preparar os animais empalhados do museu, entre eles os que foram expostos em maio, na comemoração de seus 25 anos.

O Laboratório de Taxidermia é o mais isolado do Museu. Por ser uma espécie de necrotério dos bichos, o setor deve seguir alguns procedimentos de segurança. “Utilizamos máscaras, ósculos, luvas, avental etc. As máscaras devem ter filtros químicos e biológicos. Temos todo um EPI [Equipamento de Proteção Individual] específico para reduzir ao máximo a possibilidade de contato indevido com algum material contaminado”, explicou o biólogo Bruno Collaço, que coordena o setor. 

Isso porque, além dos cuidados comuns que se deve ter em toda atividade laboratorial, existe um agravante. “Como nós trabalhamos com material biológico silvestre, há uma diversa gama de riscos que corremos. Quando o animal chega morto, ele pode estar infectado por alguma coisa. Como ele é silvestre, não temos o histórico de saúde dele”, observou. 

No passado, os riscos eram ainda maiores. No século 19, quando a técnica começou a ser sistematizada, os taxidermistas passaram a utilizar sabão arsenical, um sabão feito de arsênico, que é uma substância altamente tóxica. “É um produto letal em uso contínuo e mata num período curto, mas foi largamente utilizado. Eu ainda utilizei pó de arsênico quando comecei a aprender a taxidermizar e a preocupação era grande”, contou. 

Segundo Bruno, ao longo da história, os taxidermistas desenvolveram várias doenças derivadas de intoxicações. “Hoje em dia, os riscos diminuíram bastante, porque a tecnologia mudou, os produtos melhoraram. Entre os que utilizamos hoje para conservar a pele, está o sal Tretaborato de sódio, chamado comercialmente de bórax. Ele é muito menos tóxico e, com as medidas de proteção, se torna muito seguro”, explicou. 

Estômago forte 

Além de se submeter aos riscos, taxidermia é o tipo de profissão que requer o desapego de certas repulsas, ou, como se diz popularmente, ter um “estômago forte”. Na técnica de conservação de ossos, muito útil para expor esqueletos, por exemplo, são utilizados insetos que se alimentam de cadáveres. “A gente retira os órgãos e o máximo de musculatura que pudermos, colocamos ossos em uma estufa, para desidratar o os restos de músculos e tendões, e, para limpá-los melhor, os levamos para uma caixa chamada de dermestário, onde criamos os deméters, besourinhos que se alimentam dessa carne seca”, destacou. 

Animais mortos

De acordo com o biólogo, os animais utilizados pelo laboratório não são mortos com a simples finalidade de fazer peças de museu. “Uma pessoa mais sensível que vê a peça da preguiça com o filhote, por exemplo, fica bastante impressionado, porque ela é realmente muito realista. Normalmente, as pessoas perguntam: ‘puxa, você matou o bichinho e o filhote para fazer isso?’. Mas a gente não matou, eles foram trazidos para o museu já mortos e aí nós aproveitamos esses corpos para levar educação ao público e fazer estudos científicos”, justificou. 

A própria taxidermia tem, em suas raízes históricas, a prática de aproveitar os corpos de animais que morreram. “Durante o tempo do desbravamento do continente africano pelos europeus e com a fundação dos primeiros zoológicos na Europa e nos Estados Unidos, a busca por espécies exóticas era muito intensa. Muitos animais eram levados vivos, mas acabavam morrendo. Para aproveitar os corpos eles eram cedidos a museus, que faziam a taxidermia”, ressaltou. 

Nos países europeus e nos EUA, onde a caça esportiva é legalizada, ainda existe a prática de matar animais para venda e colecionismo particular.“Lá existe a cultura de adquirir animais empalhados para ornamentação. São aquelas cabeças de alce, veado, raposas, patos”, lembrou. 

Apesar de sacrificar alguns animais para fins científicos, o MHN utiliza a taxidermia para a função exatamente contrária: “Nosso interesse é conservar os bichos para que não precisemos coletar e matar mais deles na natureza”, explicou.

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