Revista Saber Ufal nº 5
Saber Ufal Nº 5 - 2023.pdf
Documento PDF (50.7MB)
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SUMÁRIO
Da Redação
Entrevista com Fábio Guedes
Opinião - CT&I e desenvolvimento: por que é preciso fortalecer a Ufal
“2023 será um ano de reposicionamento global das universidades”, afirma reitor da Ufal
Ufal se reinventa durante a pandemia e forma mais de 3 mil novos profissionais
Histórias, sonhos e emoções de quem conseguiu diploma de médico pela Ufal em Arapiraca
Universidade amplia assistência estudantil com a criação de programas inovadores
Programas de pós-graduação da Ufal têm a melhor avaliação dos últimos 30 anos
4
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Universidade implanta
laboratório inclusivo para
estudantes cegos
Pág. 26
Ações de extensão promovem troca de saberes entre a universidade e a sociedade
Nova metodologia de contratações aumenta em 500% número de itens licitados na Ufal
Sinfra investe R$ 1,6 mi para atender a mais de 6 mil pedidos de manutenção em 2022
Apesar da pandemia e da escassez de recursos, Ufal capacita mais de 3,5 mil servidores nos
últimos três anos
Opinião - “Paespe me trouxe motivação para ter resiliência e realizar meus sonhos”
Ufal avança em técnica inovadora para o diagnóstico da esquistossomose
Laboratório da Ufal se torna referência no Brasil na área de Química Inorgânica
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CENTRO DE INOVAÇÃO TRANSFORMA UFAL EM POLO
DE TECNOLOGIA E CAPTA R$ 100 MI EM 7 ANOS
Pág. 48
Cientistas descobrem em Alagoas 14 novas espécies ou gêneros de fungos
Professor do Campus Arapiraca desenvolve pesquisa na Antártica
Expedição leva educação e saúde à população de cidades banhadas pelo São Francisco
Barco da Saúde realiza mais de 110 consultas médicas e 6 mil exames laboratoriais
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Festival de Música de
Penedo leva cultura
alagoana para a Europa
Pág. 68
Circuito Penedo de Cinema coloca Alagoas na rota do audiovisual no Brasil
Opinião - “Quando construímos parcerias, transformamos a realidade”
72
76
DA REDAÇÃO
DEMOCRATIZAÇÃO
É preciso olhar para o futuro
“
taram, ao longo dos últimos anos, enormes desafios
por meio da educação. Entendemos que este é o caminho
possível.
para o seu funcionamento. De um lado, a pandemia da
covid-19 provocou a suspensão das atividades presenciais
e obrigou as instituições a repensarem suas práticas pe‐
zeram com que as universidades buscassem se reinventar
do ponto de vista de gestão.
U FA L
Diante desse cenário, gerir uma instituição com a gran‐
diosidade e a complexidade da Universidade Federal de
Alagoas não é uma tarefa fácil. São quatro campi - Maceió,
Rio Largo, Arapiraca e Delmiro Gouveia - , cerca de 20 mil
estudantes, mais de 1.770 servidores técnicos-administra‐
tivos e aproximadamente 1.700 professores, o que forma
uma comunidade superior à população de muitos muni‐
cípios.
Apesar dos obstáculos, nossa universidade avançou.
Para que isso fosse possível, nós contamos com a cola‐
boração de servidores dedicados, que se mantiveram firmes
em suas funções, mesmo quando parecia não haver pers‐
pectivas no curto prazo. Fortalecemos o ensino, a pesquisa
e a extensão. Estivemos presentes no dia a dia de milhares
de pessoas, que enxergaram em nossa casa um futuro me‐
lhor.
É nesse contexto que apresentamos a quinta edição
da revista Saber Ufal. Ao longo das próximas páginas, você
poderá conhecer um pouco mais sobre o trabalho desen‐
volvido por gestores, professores, pesquisadores e técni‐
cos-administrativos que dedicam suas vidas a levar conhe‐
cimento, informação e transformar a vida de outras pessoas
EXPEDIENTE
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
Campus A.C. Simões, Av. Lourival Melo Mota,
S/N, Tabuleiro do Martins; Maceió, AL 57072900
Reitor
Josealdo Tonholo
Vice-reitora
Eliane Aparecida Holanda Cavalcanti
Chefe de Gabinete
Ubirajara Oliveira
Pró-reitor de Graduação
Amauri da Silva Barros
Pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação
Iraildes Pereira Assunção
Pró-reitor de Extensão
Cezar Nonato
Pró-reitor Estudantil
Alexandre Lima Marques da Silva
4
”
Fábio Guedes Gomes, diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas, fala sobre desafios no fomento à ciência
dagógicas. Do outro, sucessivos cortes orçamentários fi‐
nº 5 - 2023
Eduardo Almeida
À
CENTRO DE INOVAÇÃO
MOVIMENTA R$ 100 MI E
TRANSFORMA UFAL EM
POLO TECNOLÓGICO
Estão envolvidos cerca de 250
pesquisadores do IC e os projetos
têm parceria com multinacionais
Mais que isso: nós buscamos, com esta edição, apontar
para o futuro e mostrar que o trabalho realizado na Ufal
vai gerar resultados duradouros, com benefícios para toda
a sociedade, criando um movimento sinérgico.
Boa leitura!
Pró-reitor de Gestão de P. e do Trabalho
Wellington da Silva Pereira
Pró-reitor de Gestão Institucional
Arnóbio Cavalcanti Filho
REVISTA SABER UFAL
Uma publicação da Universidade Federal
de Alagoas sob a responsabilidade da As‐
sessoria de Comunicação da Ufal
Capa
Daniel Aubert
Conselho Editorial
Eduardo Almeida
Jarman Aderico
Márcia Alencar
Raniella Lima
Simoneide Araújo
Gerência administrativa
Raniella Lima
Reportagens
Eduardo Almeida
Jacqueline Freire
Lenilda Luna
Manuella Soares
Revisão
Mauricélia Ramos
Fotografias
Renner Boldrino
Projeto gráfico, diagramação e artes
Daniel Aubert
Impressão
Grafmarques
Tiragem
200 exemplares
Disponível também no portal ufal.br
frente da Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de Alagoas (Fapeal) desde 2015, o pro‐
fessor da Universidade Federal de Alagoas, Fábio
Guedes Gomes, relata com orgulho seus esforços
para garantir transparência e democratização de re‐
cursos para a ciência no estado. Ao longo dos últimos
sete anos, a Fapeal lançou 85 editais, beneficiando
instituições de ensino superior federais e estaduais,
além de órgãos públicos com atuação na área de
pesquisa.
Mas o caminho até aqui não foi fácil. O gestor
precisou lidar com sucessivos cortes orçamentários
na área de ciência e tecnologia no país e com a pan‐
demia da covid-19, que abalou o mundo e demonstrou
- mais uma vez - a importância dos pesquisadores
e das pesquisas. Nesta entrevista, Fábio Guedes fala
à Saber Ufal sobre os desafios à frente da Fapeal
e revela o que esperar da ciência alagoana para
os próximos anos.
Fábio Guedes Gomes: Sou vinculado à Ufal
[Universidade Federal de Alagoas] desde o final de
2008. Em janeiro de 2009, eu me mudei defini‐
tivamente de Salvador para Maceió. Havia sa‐
ído de Campina Grande depois de ser
convidado para atuar em algumas uni‐
versidades na Bahia. Chegando na
Ufal, lecionei nas graduações de
Economia e de Administra‐
ção e no mestrado em
Renner Boldrino
A
s universidades públicas federais brasileiras enfren‐
Fapeal lançou, desde 2015,
85 editais públicos e investiu
cerca de R$100 milhões
Eduardo Almeida: Professor
Fábio Guedes, o senhor é natural
do estado da Paraíba. Como
se deu sua trajetória até
chegar ao comando
da Fapeal?
Produção e edição
Márcia Alencar e Simoneide Araújo
5
Economia. Em 2013, pessoas do campo político, jun‐
tamente com integrantes da universidade, resolve‐
ram fazer um diagnóstico sobre as condições soci‐
oeconômicas do estado e fui convidado a integrar
esse projeto. Acabei coordenando o trabalho que
foi apresentado ao grupo político que almejava lan‐
çar uma candidatura. O grupo saiu vencedor à época.
Logo após, o governador eleito me convidou para
assumir a presidência da Fapeal. Pensei um pouco
e aceitei o convite, porque sabia que tínhamos um
diagnóstico em mãos e a plena consciência, seguindo
a orientação do governador, de como fazer com que
as áreas de ciência, tecnologia e inovação colabo‐
rassem para recuperar a capacidade do estado.
EA: Durante esse período à frente da Fapeal,
o mundo enfrentou a pandemia da covid-19, no qual
a ciência foi muito importante. Quais os desafios
de comandar uma instituição de fomento à pesquisa
durante a pandemia?
FGG: Nós tivemos uma experiência anterior,
nos anos de 2017 e 2018. Foi uma experiência que
afetou especialmente o Nordeste, que foi a crise do
zika vírus. De repente, começaram a nascer crianças
que apresentavam microcefalia, e isso começou a
assustar a sociedade. Nós não tínhamos estudos que
orientassem como resolver aquele problema. Rapi‐
damente, reunimos 56 fundações e, com o apoio
do Conselho Britânico, lançamos um edital em rede
convocando a comunidade científica para entender
melhor o problema. E nós chegamos a compreender
o fenômeno em oito meses. Encontramos a solução,
que era atacar o vetor. No caso da covid-19, nós ti‐
vemos um comportamento completamente contrá‐
rio. Não houve uma preocupação do governo federal
em entender que a pandemia era um problema sério
e que a ciência teria um papel fundamental. Nesse
sentido, os governadores do Nordeste tomaram uma
decisão importante, que foi criar um comitê científico.
Esse comitê tinha um representante de cada estado,
sob a coordenação de dois eminentes cientistas. As
fundações estaduais tiveram um papel importante,
porque muitas fundações lançaram editais convo‐
cando a comunidade científica local para entender
o fenômeno e orientar as instituições brasileiras, bem
como os atores políticos. A Fapeal lançou não ne‐
cessariamente um edital específico, mas fortaleceu
ações dentro de um edital que já existia, que era o
6
edital do PPSUS [Programa Pesquisa para o SUS]. E
foi na região Nordeste que a pandemia provocou
menos consequências. Isso foi resultado das ações
dos governadores em rede.
EA: Como foi lidar com o negacionismo?
FGG: A pandemia provocou dois fatos interes‐
santes. O primeiro deles é que nunca a ciência bra‐
sileira recebeu tanta evidência nos meios de comu‐
nicação como nesse período. Todos os dias havia
algum cientista falando sobre vacinação ou uso ade‐
quado de máscara. Por esse lado, foi muito positivo,
e a ciência mostrou a sua cara para a sociedade bra‐
sileira. Por outro, a máquina de produzir fake news,
ou seja, informações contrárias à racionalidade téc‐
nico-científica, era muito forte e foi um desafio usar
estratégias de comunicação para combater o nega‐
cionismo. Vai levar um tempo para poder reverter
essa situação.
EA: Qual era o cenário orçamentário para a
ciência e tecnologia no Brasil durante a pandemia?
Houve aumento no aporte de recursos?
FGG: Não. O que aconteceu foi que o governo
elegeu como inimigos do país o conhecimento e a
cultura. O orçamento das instituições foi escasseando
com o tempo. Houve o que posso chamar de ten‐
tativa de destruição do sistema de produção de sa‐
ber do país. Se você pegar o comportamento do go‐
verno federal nesse período recente, de negacionis‐
mo da ciência brasileira, o comportamento é com‐
pletamente objetivo do ponto de vista de retirar re‐
cursos das áreas de ciência, tecnologia e inovação.
Se você pegar do ponto de vista concreto, no Minis‐
tério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o orçamento
vem caindo assustadoramente, ano a ano, a partir
de 2015, mas, a partir de 2018, essa redução se acelera
de forma brutal.
EA: O portal de notícias G1 divulgou um levan‐
tamento do Observatório do Conhecimento que
mostra que o orçamento previsto para as univer‐
sidades brasileiras em 2023 será o menor dos úl‐
timos dez anos. Como evitar um “apagão” na ciên‐
cia brasileira?
FGG: O orçamento das universidades tem pas‐
sado por esse contingenciamento ano a ano. O que
acena o atual governo agora é muito positivo, e co‐
meçou com a negociação no Congresso para retirar
da Lei do Teto dos Gastos os recursos extraordinários
que as universidades podem contar. Além disso, a
equipe de especialistas da educação que participou
do Grupo de Trabalho, com a comissão de transição,
negociou a recomposição orçamentária das univer‐
sidades para que a gente retorne, pelo menos, ao
patamar orçamentário em 2014, porque a situação
é insustentável. Hoje elas sequer têm condições de
se manter com o retorno às aulas no modo presen‐
cial. Nesse sentido, eu acredito que o primeiro ano
[do novo governo] vai ser muito difícil. Vai ser um
ano em que possivelmente será paralisado o pro‐
cesso de destruição do sistema de produção do sa‐
ber do país, com a recomposição de algumas rubri‐
cas. Mas o processo para que possamos chegar a
um nível adequado de investimento, que são os níveis
registrados há dez anos, ainda vai levar um pouco
mais de tempo para que possamos alcançá-lo.
“
No caso da Ufal, devemos
considerar que ela é a maior
universidade, que tem o maior
número de programas de pósgraduação e que é a
universidade com o maior
número de pesquisadores
do tesouro estadual e 30% por meio de parceiros
estaduais ou do governo federal. Esse conjunto de
editais colabora para que a comunidade científica
produza bons indicadores. É um processo complexo,
no qual o governo estadual passou a ser o eixo cen‐
tral.
EA: Como se dá essa distribuição de recursos
entre as instituições?
FGG: Geralmente, quando lançamos um edital,
ele é aberto a todas as instituições. Com o edital pú‐
blico, você cria isonomia. No caso da Ufal, devemos
considerar que ela é a maior universidade, que tem
o maior número de programas de pós-graduação
e que é a universidade com o maior número de pes‐
quisadores. Então, é natural que a Ufal tenha uma
capacidade maior de apresentar propostas. Mas nós
também criamos programas específicos para as
nossas universidades estaduais, porque sabemos
o peso que têm e a importância de fazermos com
que as nossas universidades estaduais possam saltar
obstáculos e avançar mais aceleradamente no pro‐
cesso de qualificação. Então, basicamente, nosso
conjunto de instituições de ciência e tecnologia do
estado são duas instituições públicas federais, duas
universidades estaduais, uma instituição de pesquisa,
que é a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária], e dois centros universitários.
EA: Como Alagoas se posiciona, atualmente,
no ranking nacional de produção do conhecimento
científico?
EA: Nesse período, Alagoas ganhou o Centro
de Inovação em Jaraguá. Qual é a importância desse
centro para o desenvolvimento da pesquisa da ciên‐
cia no estado?
FGG: Alagoas avançou muito. Mesmo nesse
contexto de crise do financiamento da ciência e tec‐
nologia, as universidades foram muito resilientes.
Isso pode ser demonstrado pela avaliação da Ca‐
pes, que divulgou os conceitos dos programas de
pós-graduação no Brasil. Praticamente metade dos
programas de pós-graduação do estado subiram
de conceito. Por mais de 20 anos, em Alagoas, tínha‐
mos apenas um programa nota 5. Agora, nós temos
cinco programas com nota 5. É importante dizer que
a participação das fundações estaduais para essa
evolução foi fundamental. A Fapeal lançou, desde
FGG: Esse Centro é um espaço acalentado há
pelo menos 15 anos pela comunidade científica, aca‐
dêmica e empreendedora no estado. É bom que se
frise que o seu início se deu por um processo do
governo federal de expansão de polos tecnológicos
pelo Brasil. Quando assumimos, em 2015, o gover‐
nador [Renan Filho] se sensibilizou sobre a impor‐
tância do polo e, ao longo do seu governo, foi apor‐
tando recursos para fazer com que a obra avanças‐
se. Hoje o Centro de Inovação está completamente
habitado, e o preenchimento de sua instalação física
é feito por merio de edital, caracterizando a empresa
2015, praticamente 85 editais públicos e investiu cer‐
ca de R$100 milhões, sendo 70% desse montante
que vai ocupar e os benefícios gerados. Além disso,
a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação lan‐
7
çou, em parceria com a Fapeal, uma série de editais
importantes, que vão criando e robustecendo a
massa crítica empresarial e universitária em Alagoas,
por compreender que é importante você fazer e cons‐
truir a sinergia entre universidade, empresas e o go‐
verno do Estado.
EA: O que os alagoanos podem esperar para
os próximos anos em termos de investimento em
ciência e tecnologia?
são vetores para o desenvolvimento de Alagoas. Nós
estamos em patamar que podemos dar saltos es‐
tratégicos que podem nos levar, por exemplo, à in‐
ternacionalização dos nossos programas de pósgraduação. Quer ter uma ideia? Em novembro de
2022 foi divulgado o resultado do edital “Amazônia
+10”. Foram selecionadas 39 propostas do Brasil in‐
teiro, e a proposta número um, a mais bem avaliada,
foi liderada por um pesquisador de Alagoas.
Renner Boldrino
FGG: Alagoas amadureceu bastante nesses úl‐
timos oito anos. Isso contribui para que as discus‐
sões subam de nível. Os programas de pós-gradu‐
ação em Alagoas, por exemplo, já compreenderam
que não basta fazer pesquisa para contemplar
a própria comunidade científica acadêmica,
e sim pesquisas que sejam impor‐
tantes para o estado, com
impacto social e econô‐
mico. Nós amadurece‐
mos bastante para sa‐
bermos que a ciên‐
cia e a inovação
Perfil:
Fábio Guedes Gomes
Graduado em Ciências Econômicas, com mes‐
trado em Economia Regional e doutorado em Ad‐
ministração; professor da Ufal desde 2008; diretorpresidente da Fapeal desde 2015.
8
9
FHC.
Arquivo pessoal
redução em relação ao PIB com tamanha disfun‐
ção financeira, o que acontece desde o governo
10
para se rever essa cultura, mas isso dependerá da
conscientização de todos quanto a qual deve ser o
verdadeiro papel da Ufal no desenvolvimento de Ala‐
goas. Pensem nisso!
De 2018 a 2022, houve redução real de 17,5%
Gráfico n° 1 - Despesas do Orçamento Federal Executado na Ufal em 2010, 2014, 2018 e 2022 (R$ mi)
1000.00
900.00
800.00
700.00
600.00
500.00
Pessoal e Encargos Sociais
2010 (Lula)
2014 (Dilma)
Outras despesas correntes
(Ufal)
2018 (Dilma/Temer)
4.6
0.00
13.5
100.00
41.6
200.00
26.7
300.00
98.5
400.00
160.6
Infelizmente no Brasil estamos armadilhados
em uma lógica de gestão macroeconômica que fa‐
vorece o rentismo [ganhos com aplicações financei‐
ras] em detrimento da produção de riqueza e do
bem-estar social [inclusão social]. Para se ter uma
ideia dos efeitos negativos de tal lógica, apesar dos
superávits primários no governo Lula e das reformas
trabalhista e da previdência nos governos Temer e
Bolsonaro, de 1996 a 2021 apenas em dois anos es‐
pecíficos, 2010 e 2021, a taxa de crescimento real da
economia esteve acima da taxa de juros real. Não
há dívida que se mantenha em uma trajetória de
ação, mestrado e doutorado], pesquisas [P&D] e ex‐
tensão para o desenvolvimento de Alagoas, vem so‐
frendo os reflexos negativos do rentismo, como pode
ser observado no gráfico n° 1.
173.8
A ideia de Estado empreendedor sustentada por
autores como Mariana Mazzucato dá ainda mais sen‐
tido à crucial aliança estratégica entre o setor privado,
as instituições do conhecimento e os governos nas
três dimensões: federal, estadual e municipal. Tal ali‐
ança, por sua vez, exige que os caminhos do desen‐
volvimento sejam orquestrados por esses diferentes
atores, buscando gerar sintonia nos propósitos e mis‐
sões inovadoras. Não há um ambiente favorável ao
surgimento e ao fortalecimento das instituições pri‐
vadas, notadamente ao nível das organizações em‐
presariais [firmas], com concentração de riqueza e
exclusão social, uma vez que não há agregação de
valor e, consequentemente, mercados para as em‐
presas em nível local.
108.4
Entender os reflexos da aceleração dos proces‐
sos de transformação digital desencadeada pela co‐
vid-19, colocando o imperativo da não dependência
dos países em desenvolvimento, como o Brasil, dos
mercados externos de bens e serviços de maior in‐
tensidade tecnológica, principalmente na área de
saúde, é um bom caminho para a compreensão da
interação dinâmica entre CT&I e desenvolvimento.
O microcosmo da Ufal, crucial por sua capacidade
de gerar quadros qualificados [em níveis de gradu‐
É inadmissível, deste modo, que a defesa do
patrimônio social da Ufal, a qual representa o principal
pilar da cadeia de conhecimento de Alagoas, ainda
não tenha sensibilizado a maioria dos que fazem a
Ufal e a própria sociedade alagoana. Penso que só
há uma explicação para tal despropósito: a cultura
do protagonismo individual [uma espécie de “farinha
pouca, meu pirão primeiro”] que coloca em segundo
plano um coletivo constituído de pessoas, em sua
grande maioria, vivendo em condições de pobreza
ou extrema pobreza. Acredito que ainda há tempo
763.7
P
ensar a interação Ciência, Tecnologia e Inovação
(CT&I) e desenvolvimento exige reflexão acerca
das seguintes questões: por que é preciso conhecer
para desenvolver? Ou por que é preciso que haja in‐
teração entre as cadeias de conhecimento e produ‐
ção?
Os fundamentos do desenvolvimento, como pro‐
tagonizado por Schumpeter no início do século pas‐
sado, estão no empreendedorismo, na inovação e
no capital [crédito], que financia as novas combina‐
ções tecnológicas. As pesquisas dos neoschumpe‐
terianos apontaram para a necessidade de arranjos
institucionais [os Sistemas de Inovação] para que sis‐
temicamente fossem fundadas as condições para o
desenvolvimento econômico, social e ambiental das
nações.
925.3
Reynaldo Rubem Ferreira Jr – professor da Faculdade
de Economia, Administração e Contabilidade (Feac)
da Ufal
850.6
CT&I e desenvolvimento: por que é
preciso fortalecer a Ufal
dos gastos com pessoal, de 38,8% das despesas cor‐
rentes e de 66,1% dos recursos para investimentos.
Cortes de recursos desta natureza não só põem em
risco a sobrevivência da Ufal como também a própria
capacidade de desenvolvimento em um estado que
tem mais de 50% da população em situação de po‐
breza.
Os efeitos de tal política macroeconômica podem
ser observados nos seguintes dados. Comparandose o último ano do governo Lula com o penúltimo
do Bolsonaro, observa-se que os recursos destinados
à dívida pública representam a maior parcela das des‐
pesas pagas do orçamento federal executado, ou
seja, 45,3% e 50,9%, respectivamente. Não só houve
aumento da participação financeira no bolo, no pe‐
ríodo em análise, como este se deu em detrimento
dos recursos destinados aos investimentos produtivos
e ao pagamento de pessoal e encargos sociais. Ou
seja, na lógica do mercado financeiro, a prioridade
é a rentabilidade dos rentistas e não as políticas pro‐
dutivas e sociais.
687.4
OPINIÃO
Investimentos (Ufal)
2022 (Bolsonaro)
Fonte: Elaboração própria com dados do Siop/Secretaria de Planejamento do Governo Federal
Nota: os valores estão corrigidos pelo IPCA de novembro de 2022
11
danças sociais trazidas pela pandemia. Será que nos‐
sos municípios estão clamando por alguma inserção
regional que não tem sido atendida?”, refletiu Jose‐
aldo Tonholo.
Nos últimos anos, a Universidade buscou fazer
o seu “dever de casa”: revisou contratos, reduziu cus‐
tos e modernizou sistemas e fluxos internos, buscan‐
do superar as dificuldades impostas pelos sucessivos
contingenciamentos de recursos. No entanto, com
a retomada das atividades presenciais, novas deman‐
das passam a surgir, o que exige, por um lado, a res‐
ponsabilidade na gestão e, por outro, a garantia de
continuidade dos serviços.
Renner Boldrino
PLANEJAMENTO
“2023 será um ano de
reposicionamento global das
universidades”, afirma reitor da Ufal
Apesar do cenário econômico adverso, Josealdo Tonholo faz planos e
propõe reflexão sobre a atuação no período pós-pandemia
Reitor Josealdo Tonholo lamenta a falta de recursos, mas tem esperança de que haverá reposicionamento no orçamento
Eduardo Almeida
A
pós sofrer com sucessivos cortes orçamentários
e enfrentar a pandemia da covid-19, a Univer‐
sidade Federal de Alagoas (Ufal) traça seus planos
para um futuro promissor. O retorno presencial das
atividades, em meio a um contexto econômico ad‐
verso, impõe desafios adicionais. Para superá-los, o
reitor Josealdo Tonholo defende que 2023 seja um
ano de reposicionamento e propõe uma reflexão so‐
bre a atuação da instituição no período pós-pandemia.
A missão, porém, não será fácil: de acordo com
levantamento do Observatório do Conhecimento, di‐
12
vulgado pelo portal de notícias G1, as universidades
federais brasileiras devem contar, em 2023, com o
menor orçamento dos últimos dez anos. Na prática,
a falta de recursos dificulta não apenas investimentos
em melhorias estruturais e modernização dos campi,
mas a manutenção das atividades de ensino, de pes‐
quisa e de extensão.
“O ano de 2023 será um ano de reposiciona‐
mento global das universidades. Então, eu espero
que tenhamos a reposição para um orçamento mi‐
nimamente digno, que compense as deficiências dos
últimos anos. Também é necessário que a universi‐
dade faça o seu planejamento em função das mu‐
“Até 2022, nós conseguimos fazer um ajuste em
função da desocupação que a gente teve da univer‐
sidade durante a pandemia. Houve um verdadeiro
processo de reengenharia para revisão de todos os
contratos que a universidade tem. Mas, para 2023, a
lei orçamentária é inferior àquilo que a gente execu‐
tou nesses últimos dois anos. Nós vamos precisar
do apoio muito forte da nossa bancada federal”, des‐
tacou Tonholo.
E complementa: “Ou a gente tem o reposicio‐
namento do governo federal em relação ao papel
das universidades, em especial à necessidade de or‐
çamento, ou nós poderemos vir a ter problemas de
descontinuidade de algumas atividades, porque o
orçamento deste ano não permitirá tratar de despesas
que a gente chama de contratos não continuados”.
aponta, além do ganho institucional, avanços no de‐
senvolvimento da ciência e da tecnologia no estado
de Alagoas.
“Particularmente, as atividades na área de tec‐
nologia de informação estão avançando. Atualmente,
por exemplo, os projetos desenvolvidos no Instituto
de Computação alavacam orçamento maior do que
o próprio orçamento da universidade, e isso tem as‐
segurado uma contribuição muito grande para resol‐
ver problemas relevantes do estado de Alagoas, dos
municípios, mas também de empresas e do governo
federal”, complementou o reitor.
Um exemplo de como as pesquisas desenvol‐
vidas na universidade refletem na solução de pro‐
blemas reais foi a produção de uma ferramenta para
ser usada na Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz).
O recurso, denominado de Calt, propõe o cálculo au‐
tomático dos tributos devidos nas operações interes‐
taduais destinadas a Alagoas. O estudo teve finan‐
ciamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Es‐
tado Alagoas (Fapeal) e conseguiu elevar a arreca‐
dação tributária no Estado. No primeiro quadrimestre
de 2021, houve um aumento de R$ 315 milhões, em
comparação ao mesmo período de 2020.
“Além da computação, a Ufal vem se destacan‐
do em diversas outras áreas, como administração,
saúde, humanidades e sociais aplicadas, que estão
envolvidas nessas ações de inovação”, revelou Tonho‐
lo.
Avanços
Interiorização
Apesar das dificuldades enfrentadas, sobretudo
em virtude dos cortes orçamentários, a Ufal acumula
avanços ao longo dos últimos anos. Uma dessas con‐
quistas - provavelmente, a mais expressiva - é a me‐
lhoria na avaliação realizada pela Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)
em 19 programas de pós-graduação desenvolvidos
atualmente na universidade.
Uma das iniciativas desenvolvidas ao longo de
2023 deve ser a análise situacional das unidades da
Ufal no interior. Conforme Josealdo Tonholo, o desen‐
volvimento de cursos deve ser avaliado não apenas
do ponto de vista da estrutura física, mas também
do ponto de vista da oferta acadêmica que eles levam
para a sociedade.
“Isso demonstra o grau de comprometimento
de cada um dos docentes que está fazendo atividade
de pesquisa na instituição e o grau de organização
dos cursos de pós-graduação”, frizou Tonholo, que
“Precisamos fazer essa revisitação da oferta
para atender melhor o posicionamento nosso no in‐
terior e precisamos entender qual a nova realidade
do estado de Alagoas”, concluiu o reitor.
13
SUPERANDO DESAFIOS
Renner Boldrino
Ufal se reinventa durante a pandemia e
forma mais de 3 mil novos profissionais
Apesar das adversidades, instituição investiu na capacitação de seus professores e na modernização de seus marcos regulatórios
Desafio da Prograd é manter as salas de aula com alunos e alunas e buscar alternativas para reduzir a evasão na Universidade
Eduardo Almeida
A
pandemia de covid-19 e os sucessivos cortes
orçamentários impuseram desafios adicionais
ao funcionamento das instituições de ensino superior
federais nos últimos três anos. No entanto, apesar
das adversidades, a Universidade Federal de Alagoas
(Ufal) formou mais de três mil novos profissionais en‐
tre os anos de 2020 e 2022, cumprindo o seu papel
social e beneficiando diretamente a população do
estado.
14
Para chegar a esse número de concluintes, a
Ufal precisou modernizar seus marcos regulatórios,
reorganizar seu calendário acadêmico e promover
uma série de capacitações para que os professores
e técnicos pudessem adaptar suas atividades à nova
realidade. A Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da
Universidade aponta que mais de 1.600 professores
participaram de capacitações ao longo dos últimos
três anos.
“Nós temos um programa chamado Proford
[Programa de Formação Continuada em Docência
do Ensino Superior], que é referência nacional e foi
aprovado na Ufal em 2014. O programa trabalha a
formação continuada dentro de temáticas contem‐
porâneas, como o uso das metodologias ativas, ava‐
liação em uma perspectiva inovadora e políticas in‐
clusivas”, explicou Amauri Barros, professor e pró-rei‐
tor de Graduação.
param de formações, um número expressivo. Foram
abordados temas como ferramentas de comunica‐
ção, Moodle básico e avançado, Microsoft Teams, Google Meet, que possibilitaram a execução dos traba‐
lhos”.
E pontua: “Nós avançamos muito, aprendemos
muito. Foram mais de 1.600 professores que partici‐
as quatro universidades públicas do estado: a Uni‐
versidade Estadual de Alagoas (Uneal), a Universidade
Outra iniciativa que beneficiou diretamente a
comunidade acadêmica, ao longo dos últimos anos,
foi a criação de um programa de mobilidade entre
15
Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal),
o Instituto Federal de Alagoas (Ifal) e a Ufal. A iniciativa
permite que estudantes de uma instituição cursem
disciplinas em outra.
“Essa é outra iniciativa que se tornou referência.
O programa de mobilidade entre as instituições pú‐
blicas de ensino superior de Alagoas surgiu em meio
à pandemia e permitiu que os estudantes realizassem
as atividades de interesse de forma remota, com os
créditos aproveitados em sua universidade de origem.
Uma iniciativa inovadora, que trouxe muitos benefícios
para a comunidade acadêmica”, destacou Barros.
Embora tenha registrado avanços importantes,
a pandemia de covid-19, os cortes orçamentários e
as posturas norteadoras de autoridades públicas im‐
puseram novos desafios para a Universidade. Um
deles - e talvez um dos mais impactantes - foi a grande
evasão ocorrida durante os últimos anos. A Ufal pre‐
cisou desenvolver novas estratégias para atração e
manutenção dos estudantes durante esse período.
de 10.300 candidatos. Essa é uma iniciativa inspiradora
para outras instituições. Uma das poucas iniciativas
registradas, na qual nós buscamos alternativas para
o preenchimento das vagas deixadas pelo Sisu [Sis‐
tema Unificado de Seleção]”, detalhou Barros.
De acordo com o pró-reitor, a evasão nas uni‐
versidades é um fenômeno nacional. “Nós passamos
por um momento muito difícil. Ainda não temos um
diagnóstico preciso, mas as informações que temos
são que a evasão resulta da pandemia, da situação
socioeconômica do país e do período negacionista,
no qual não havia incentivo à formação superior. Muito
pelo contrário. Nós ouvimos que os estudantes de‐
veriam fazer apenas o curso técnico e que a univer‐
sidade era lugar de balbúrdia”, acrescentou.
Para os próximos anos, a Pró-reitoria de Gradu‐
ação da Ufal prepara inovações: a primeira delas é
a migração do sistema acadêmico Sieweb para o
Sigaa, o que deve ampliar as possibilidades de gestão
e de acesso a informações. A previsão é que a mi‐
gração aconteça ainda este ano de 2023. Além disso,
está previsto o fortalecimento de ações de mobilidade
acadêmica e de capacitações voltadas para os pro‐
fessores da Universidade.
“Nós também buscaremos atualizar nosso mar‐
co regulatório. Nessa perspectiva, a gente precisa
revisar os projetos pedagógicos e atualizar a nossa
legislação. A ideia é qualificar os cursos e desenvol‐
ver ações para atrair mais estudantes. Outra proposta
da Ufal é aumentar a interlocução com o ensino básico
e abrir ainda mais as portas da Ufal. São grandes de‐
safios, mas sabemos que são possíveis de serem con‐
cretizados”, finalizou Amauri Barros.
Pró-reitor Amauri Barros (de camisa vinho) e equipe da Prograd também estão empenhados em atualizar a legislação da Ufal
“A Ufal chegou a contar com aproximadamente
25 mil estudantes de graduação, mas, nos últimos
anos, esse número caiu para cerca de 20 mil. No pe‐
ríodo letivo 2021.2, por exemplo, foram registradas
700 vagas ociosas. No primeiro período de 2022, dei‐
xamos de preencher 400 vagas. Agora, para 2022.2,
nós estávamos com 626 vagas ociosas. Um número
muito expressivo, que nos levou a adotar medidas
urgentes”, afirmou o pró-reitor Amauri Barros.
16
“Quem fez o Enem entre os anos de 2011 e de
2021 pôde participar da seleção. O número de ins‐
crições superou as nossas expectativas: foram mais
Trazer alunos e alunas de escolas para conhecerem a Ufal e seus
cursos foi a meta do Simpósio Intermunicipal de Pesquisa e Tecnologia na Educação Básica: a função social da universidade em
debate (Sinpete), realizado em 2022.
Renner Boldrino
Simoneide Araújo
Uma dessas medidas adotadas pela Ufal foi o
lançamento de um processo seletivo simplificado,
o qual permitiu que os candidatos utilizassem a me‐
lhor nota obtida no Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem) nos últimos dez anos. A iniciativa foi conside‐
rada um sucesso: foram ofertadas pouco mais de
600 vagas, em diversos cursos, que passaram a ser
disputadas por cerca de 10.300 candidatos.
17
a comissão de formatura elegeu a turma 2016.2 com
o nome de Euclides Oliveira da Cunha. Mais do que
uma homenagem, uma demonstração de amor!
Histórias, sonhos e emoções de
quem conseguiu diploma de
médico pela Ufal em Arapiraca
Jovens egressos da segunda turma do Campus Arapiraca contam
como a Universidade foi parte essencial para mudança de vida
Conquista em dobro: os irmãos Walter e Vinício saíram de Delmiro Gouveia e concluíram juntos, na mesma turma, o curso de Medicina
Manuella Soares
T
rês tumores cerebrais, quatro cirurgias, um ano
de quimioterapia e 32 sessões de radioterapia.
Quem dá nome a essa história é o egresso da Ufal,
Euclides Oliveira da Cunha, e só não existe um final
feliz porque não acabou. Todos os dias, a história ga‐
nha novos capítulos, mas agora está sendo escrita
pela versão do Euclides médico, recém-diplomado
no curso de Medicina do Campus Arapiraca da Uni‐
versidade Federal de Alagoas.
O diploma é resultado de um profissional formado
com cicatrizes transformadas. “Eu consegui mudar
como pessoa, ver a vida de maneira diferente. Se você
for analisar pacientes com câncer, percebe que eles
são felizes mesmo passando por aquele tipo de pro‐
blema. É porque eles veem a vida diferente, conse‐
guem perceber algo muito maior nesse mundo do
que simplesmente ficar rico ou ter um bem material,
por exemplo. Eles percebem a beleza do dia”, des‐
tacou Euclides.
18
E foram longos dias. O curso de Medicina na
Ufal durou oito anos, entre pausas para procedimentos
e recuperação, Euclides contou com o apoio da família
e da comunidade universitária de mãos dadas, acre‐
ditando que ele conseguiria superar.
“Meu terceiro procedimento cirúrgico foi duran‐
te o Internato, que é um momento puxado, que tem
trabalhos de prática. Eu quase perderia um ano de
novo, mas graças a Deus consegui conciliar quando
voltei. Fiz mais carga horária e segui com a turma”,
lembrou dos esforços coletivos para que ele não
perdesse a oportunidade de concluir a graduação.
Foi essa mesma turma acolhedora do Euclides
que teve a primeira Colação de Grau presencial do
curso de Medicina do Campus Arapiraca, em fevereiro
deste ano. A Ufal não entregou para a sociedade ape‐
nas números de CRM. Dentro de cada jaleco, estão
profissionais mais humanizados, que já iniciaram suas
carreiras mostrando o olhar diferenciado para a mis‐
são do cuidado com o outro. Em votação unânime,
“Eu não esperava! Eles são diferenciados, con‐
seguiram identificar a dor do colega a ponto de fazer
essa homenagem. Um ponto importante da turma
que a gente deve ressaltar é essa humanidade dos
alunos!”, falou Euclides com emoção.
"A Ufal foi uma das melhores coisas que acon‐
teceram na nossa vida. Através dela podemos ter
acesso a uma educação superior de qualidade, que
permitiu transformar a vida da nossa família. Hoje,
boa parte do que tenho eu devo ao que a Universi‐
dade me proporcionou. Levo da Ufal muitos ensina‐
mentos e amigos", completou.
Bem de saúde, coração aquecido de amigos,
um diploma de médico e aliança no dedo. Agora Eu‐
clides tem muitas páginas para escrever como egres‐
so da instituição que transformou sua vida, desde
que trocou o trabalho de feirante pela dedicação aos
estudos.
Pode não ser uma mãe, mas a Ufal tem dos seus
alunos o mesmo orgulho sentido ao receber de volta
um filho formado – ou dois –, prontos para ganhar
asas!
Missão (quase) de mãe
Muitas histórias cabem em uma graduação na
Ufal. E em muitas delas os sonhos são coletivos. Aluno
e família vivem juntos todos os sentimentos que en‐
volvem estar numa universidade. Os irmãos Walter
e Vinício saíram de Delmiro Gouveia e conseguiram
chegar à graduação de Medicina em Arapiraca no
mesmo ano, na mesma turma!
"A experiência da colação foi única, passa um
filme na cabeça de que todo seu esforço foi recom‐
pensado. Nossa mãe estava muito ansiosa falando
sobre isso, a euforia e a emoção de formar dois filhos
médicos era nítida. O que sinto é felicidade e orgulho
por toda nossa caminhada", comemorou Vinício, irmão
de Walter, colega de Euclides e dos outros 25 novos
médicos que a Ufal ajudou a (trans)formar.
Euclides Oliveira, médico recém-graduado pela Ufal
"Sempre fomos muito unidos, estudamos e re‐
visamos juntos durante toda faculdade, praticamente
tendo acesso aos mesmos textos e aulas", contou
Walter. "Nossa relação foi sempre de parceria. Temos
os mesmos amigos, tirávamos notas parecidas, íamos
para faculdade, academia e plantões quase sempre
juntos", emendou Vinício.
Concluintes da segunda turma, os irmãos viram
de perto o crescimento do curso que começou com
uma equipe de 13 docentes e 25 técnicos. "Fomos
como desbravadores e enfrentamos uma série de
problemas quanto a campos de prática, mas sempre
tivemos excelentes professores e preceptores que,
até certo ponto, compensaram todas as dificuldades
impostas pela carência de estrutura inicial", rememo‐
rou Walter.
Ele já deixou o curso bem mais estruturado, com
quase 50 professores efetivos, um complexo inau‐
gurado e várias parcerias firmadas para campos de
Arquivo pessoal
Arquivo pessoal
CONQUISTAS
prática em hospitais e unidades básicas da região.
Acreditar no sonho valeu a pena.
19
Seleções contínuas
Uma das grandes mudanças promovidas na área
estudantil foi a publicação periódica de editais, em
especial do cadastramento socioeconômico, no qual
os estudantes manifestam interesse em participar
das ações assistenciais. A atual gestão da Universi‐
dade tornou a publicação contínua, de modo que, a
cada início de semestre, um novo edital busca sele‐
cionar possíveis beneficiários.
Universidade amplia assistência
estudantil com a criação de
programas inovadores
Levantamento mostra que mais e 3.800 estudantes foram diretamente
beneficiados por ações da Proest durante o ano de 2022
Restaurante Universitário, um dos pontos fortes da assistência estudantil, garante alimentação na capital e no interior
Eduardo Almeida
C
om a proposta de assegurar a permanência dos
estudantes na instituição, em meio à maior crise
de saúde do século 21, a Universidade Federal de
Alagoas (Ufal) ampliou suas ações assistenciais nos
últimos anos. A instituição apostou em programas
inovadores, não apenas oferecendo suporte finan‐
ceiro como também intensificando iniciativas para
garantir acessibilidade e inclusão.
Um levantamento realizado pela Pró-reitoria Es‐
tudantil (Proest) da Ufal revela que, somente no ano
de 2022, 3.857 estudantes foram beneficiados por
ações assistenciais. Essas iniciativas incluem paga‐
mento de bolsas, moradia na Residência Universitária
Alagoana, acesso ao Restaurante Universitário, além
de apoio pedagógico e acompanhamento para os
discentes.
De acordo com o pró-reitor Estudantil, Alexandre
Lima, as políticas públicas desenvolvidas pela Uni‐
20
versidade são fundamentais não apenas para garantir
o acesso dos estudantes à instituição de ensino, mas,
sobretudo, para possibilitar que esses mesmos es‐
tudantes possam concluir os seus cursos.
“De forma inovadora, nós criamos na Ufal nos
últimos anos a modalidade auxílio-creche, para es‐
tudantes que são pais e mães de crianças de até cin‐
co anos e 11 meses; lançamos uma nova modalidade
assistencial, chamada ajuda de custo, que visa auxiliar
os estudantes na compra de equipamentos acadê‐
micos; e também ampliamos as ações com foco no
atendimento à saúde”, destacou o pró-reitor.
E complementa: “Além dessas iniciativas, nós
fizemos a implantação do Laboratório de Acessibili‐
dade, uma parceria do Núcleo de Acessibilidade com
a Biblioteca Central, para atender aqueles estudantes
que têm algum tipo de deficiência. O Laboratório se
dedica à produção de material didático para atender
“Antes dessa gestão, esse edital era publicado
a cada dois anos. Então, o estudante que ingressava
na Ufal não tinha a oportunidade de participar do edi‐
tal. Desde 2022, a gente começou a utilizar a estra‐
tégia de lançar o cadastramento socioeconômico
sempre a cada início de semestre. Isso foi muito im‐
portante, porque você estabelece um fluxo contínuo”,
contou, com orgulho, o pró-reitor Alexandre Lima.
Mas, as ações de assistência estudantil esbar‐
raram nos sucessivos cortes de recursos registrados
pelas universidades públicas nos últimos anos. De
acordo com a Pró-reitoria Estudantil da Ufal, a falta
de recursos afetou diretamente o volume de auxílios
ofertados, provocou o atraso no repasse e compro‐
meteu até mesmo iniciativas para garantir mais aces‐
sibilidade dentro da instituição.
“Dados da última pesquisa realizada pelo Fórum
Nacional dos Pró-reitores de Assistência Estudantil,
publicados em 2019, mostram que a Ufal tem mais
de 70% de estudantes dentro do perfil de vulnerabi‐
lidade, ou seja, cuja renda familiar é de até um salário
mínimo e meio. Então, a redução de orçamento afetou
Para os próximos anos, a Pró-reitoria Estudantil
planeja a ampliação no número de estudantes be‐
neficiados por programas assistenciais, minimizando
a demanda reprimida. A medida, entretanto, depende
de negociação com o governo federal e do aumento
no aporte de recursos para a Ufal. Além dessa am‐
pliação, a Proest planeja uma maior integração com
outros setores acadêmicos.
“A ideia é fomentar parcerias com outras próreitorias acadêmicas, no sentido de estimular o es‐
tudante a desenvolver atividades diversas ao longo
do seu percurso na Ufal. Já tivemos edital com a Pro‐
grad [Pró-reitoria de Graduação], para o Programa
de Monitoria, no qual os selecionados integravam
nossos bancos de pessoas em situação de vulnera‐
bilidade, e nós pretendemos estender esse tipo de
iniciativa”, concluiu Alexandre Lima.
Atuação
A Pró-reitoria Estudantil atua em quatro linhas
prioritárias de ações: inclusão e permanência; apoio
ao desempenho acadêmico; promoção da cultura,
do lazer e do esporte; e assuntos de interesse da ju‐
ventude, o que resulta em assistência à saúde, à mo‐
radia e à alimentação, na concessão de bolsas per‐
manência e em programas de apoio à vida acadêmica
nas dimensões social, política, cultural, esportiva e
de formação técnica.
Equipe da Proest, liderada por Alexandre Lima (de camisa vermelha à direita), desenvolve ações para garantir assistência estudantil
Renner Boldrino
Renner Boldrino
INCLUSÃO E PERMANÊNCIA
diretamente o nosso público. A gente tem uma pro‐
cura muito grande, mas não consegue atender todos
os estudantes que manifestam interesse nos auxílios
por falta de orçamento”, pontuou Lima.
a esse público e, assim, garantir inclusão dentro da
Universidade”.
21
Renner Boldrino
tituição conta com um programa nota 6 (Rede Re‐
norbio de Biotecnologia); com quatro programas com
nota 5 (Ciências da Saúde, Diversidade Biológica e
Conservação nos Trópicos, Física e Serviço Social) e
11 programas com nota 4 (Ciência Animal, Ciências
Farmacêuticas, Dinâmica do Espaço Habitado, Eco‐
nomia, Geografia, História, Linguística e Literatura,
Meteorologia, Propriedade Intelectual e Transferência
de Tecnologia para Inovação, Psicologia e Recursos
Hídricos e Saneamento).
Reitor Josealdo Tonholo e vice-reitora Eliane Cavalcanti na entrega do Prêmio Ufal de Dissertação e Tese 2022, promovido pela Propep
CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Programas de pós-graduação
da Ufal têm a melhor avaliação
dos últimos 30 anos
Universidade registrou crescimento de 45% nos conceitos de cursos;
13 novas propostas estão sob avaliação da Capes
Eduardo Almeida
Q
uando o assunto é ciência e tecnologia, a Uni‐
versidade Federal de Alagoas (Ufal) se destaca.
Instituição com o maior número de programas de
pós-graduação no estado, a Ufal conquistou, no último
triênio, a sua melhor avaliação dos últimos 30 anos
nessa área. Seus programas de pós-graduação re‐
gistraram um crescimento de 45% no conceito da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes).
A melhoria na avaliação desses programas se
torna ainda mais relevante quando consideramos o
contexto no qual ocorreu: em meio à pandemia de
covid-19, considerada a maior crise de saúde do sé‐
culo 21, e diante de sucessivos cortes no número de
22
bolsas destinadas a estudantes de pós-graduação.
Com planejamento e ações inovadoras, a Pró-reitoria
de Pesquisa e Pós-graduação (Propep) comemora
os resultados.
“Apesar da crise vivenciada na saúde, na eco‐
nomia e na política, que atingiu de maneira nunca
imaginada as universidades públicas do país, a atual
gestão imprimiu reformas de fluxos de trabalho, pro‐
cessos e execução financeira que permitiram otimizar
os gastos e atender a inúmeras demandas represadas
e outras totalmente inéditas, como editais e premi‐
ações, eventos e publicação de anais”, informou a
pró-reitora da Propep, Iraildes Assunção.
Atualmente, a Ufal conta com 38 programas de
pós-graduação, que abrigam 2.070 estudantes. A ins‐
“A pesquisa na Ufal experimentou três anos
de renovação, que reafirmaram o compromisso da
atual gestão não apenas com o ensino, com a pes‐
quisa e com a extensão, como também com o de‐
senvolvimento e a consolidação das pós-graduações,
integrando as três dimensões anteriores”, ressaltou
a pró-reitora.
O fomento à pesquisa e à pós-graduação na
Ufal incluiu alterações em marcos regulatórios, com
a publicação de resoluções e de instruções norma‐
tivas para adequar e disciplinar os programas de pósgraduação, os programas institucionais de bolsas de
iniciação científica e a pesquisa. Foram regulamen‐
tados, por exemplo, a criação, a administração e o
uso da plataforma de equipamentos multiusuários.
“Desde março de 2020, a Propep vem se adap‐
tando à nova realidade, provocada pelo contexto
pandêmico, que trouxe grandes desafios. Ao longo
desse tempo, toda a estrutura administrativa da próreitoria foi adaptada, e os processos remodelados
para atender às demandas de pesquisa, pós-gradu‐
ação e inovação da Ufal. Por outro lado, as tecnologias
da informação ficaram mais presentes no dia a dia
dos técnicos-administrativos, docentes e discentes”,
pontuou Iraildes Assunção por meio de nota enviada
à Saber Ufal.
As políticas de incentivo à pesquisa e à pós-gra‐
duação incluíram ainda o estímulo a parcerias com
o poder público e com o setor produtivo. Em coope‐
ração com órgãos dos governos municipal e estadu‐
al, além do setor industrial e pequenos empresários,
a Universidade aprovou, em primeiro lugar, o projeto
no edital Digital BR, da Agência Brasileira de Desen‐
volvimento Industrial do governo federal, que teve
como objetivo selecionar propostas para promover
a transformação digital para o setor produtivo.
“A atual gestão imprimiu uma marca não só no
incentivo à pesquisa, mas à inovação e à tecnologia.
E isto fez a diferença nos quatro anos mais sombrios
vividos pela nossa Ufal, pois aprendemos a buscar
recursos no setor produtivo, reforçando o conceito
de que na Universidade se ensina porque se pesquisa”,
acrescentou Iraildes Assunção.
Perspectivas
Se o presente é motivo de orgulho, o futuro se
mostra ainda mais promissor. Estão em fase de análise
na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (Capes) 13 novos APCN [Aplicativo para
Propostas de Cursos Novos], como são chamados
os projetos de cursos. Se implantados, os novos pro‐
gramas vão beneficiar não apenas os estudantes da
capital, mas também os do interior.
Foram enviadas propostas de doutorado para
os programas de Ciência Animal, Matemática, Psico‐
logia, Nutrição, Ciências da Informação, Sociologia,
Geografia, Ciências Farmacêuticas, além de propostas
de cursos de mestrado para Administração Pública,
Energias Renováveis, Zootecnia, Ciências do Movi‐
mento e Ensino, Linguagens e Culturas, para o Campus
do Sertão.
Outra perspectiva positiva para o futuro da pósgraduação na Ufal diz respeito à internacionalização
dos programas. “Pretendemos consolidar uma política
de planejamento para a pós-graduação, articulando
os objetivos do Plano de Desenvolvimento Instituci‐
onal (PDI) com a política institucional de internacio‐
nalização em todos os níveis, destacando a pós-gra‐
duação como uma prioridade a ser enfrentada”, des‐
tacou a pró-reitora.
“O atual governo federal sinaliza um outro ho‐
rizonte, com um caminho de progresso e valorização
da Educação, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação.
Portanto, esperamos que novos recursos sejam dis‐
ponibilizados para atender a editais de fomento à pes‐
quisa e incremento, não só no valor, mas na quanti‐
dade de bolsas. Isto já tem sido sinalizado pelos pre‐
sidentes das duas principais agências”.
23
da inovação dentro da nossa instituição”, expôs Uchôa.
Renner Boldrino
O que também dificulta a atuação do Núcleo
são as limitações orçamentárias. “Percebemos que,
em 2020, houve um aumento nos depósitos, mas,
logo em seguida, um decréscimo. Isso é reflexo da
diminuição dos recursos para investimentos em ino‐
vação. Houve menos editais, menos apoio para as
atividades de inovação. E isso se refletiu também em
todo esse quadro que nós estamos vivendo atual‐
mente”, afirmou Uchôa.
Para os próximos anos, a coordenadora do NIT
prevê a conclusão de projetos que vão possibilitar a
maior integração entre a Ufal e a iniciativa privada,
o que deverá impulsionar ainda mais o desenvolvi‐
mento científico e tecnológico, inicialmente, dentro
da Universidade e, de forma mais ampla, no estado
de Alagoas.
Pró-reitora Iraildes Assunção (em pé) e sua equipe da Propep celebram conquista dos cursos de pós com aumento do conceito da Capes
NIT registra 79 patentes e 82 novos programas de
computador nos últimos três anos
C
iência e tecnologia caminham lado a lado na
Universidade Federal de Alagoas (Ufal). No pe‐
ríodo de 2020 a 2022, em meio à pandemia de covid19 e a seguidos cortes de recursos, o Núcleo de Ino‐
vação Tecnológica (NIT) da Ufal registrou 79 patentes,
15 marcas, seis desenhos industriais e 82 novos pro‐
gramas de computador, assegurando proteção inte‐
lectual para esses produtos e desenvolvimento tec‐
nológico para o estado.
Apesar do cenário adverso, os números regis‐
trados nesse período são superiores àqueles conta‐
bilizados entre os anos de 2017 e 2019, quando foram
registradas 72 patentes, quatro marcas, dois dese‐
nhos industriais e seis novos programas de compu‐
tadores. Os avanços só foram possíveis graças ao
empenho de uma equipe comprometida e qualifica‐
da.
24
nologia para a Inovação”, explicou Sílvia Uchôa, co‐
ordenadora do NIT da Ufal.
Outro fator que tem contribuído com o desen‐
volvimento tecnológico na Ufal foi a aprovação da
política de inovação institucional, segundo o novo
Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, no
ano de 2022. “Também podemos citar o reconheci‐
mento de outras áreas da Universidade, que reco‐
nhecem o papel desempenhado pelo NIT”, acrescen‐
tou a coordenadora.
O que é o NIT?
O Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Ufal
é responsável pela gestão da política de inovação
da Universidade. Dentro dessa política institucional,
são trabalhados aspectos como propriedade intelec‐
tual, transferência de tecnologia e empreendedoris‐
mo.
Na área de propriedade intelectual, o NIT atua
principalmente com patentes, marcas, desenhos in‐
dustriais, programas de computador e as cultivares,
que são novas variedades de plantas de diferentes
espécies e gêneros vegetais destinados à produção
agrícola.
Há ainda uma atuação voltada para a área de
projetos, com a verificação de acordos, convênios e
contratos para que a propriedade intelectual gerada
nesses instrumentos jurídicos possam ser devidamen‐
te aproveitados pela universidade.
Professora Sílvia Uchôa (segunda da esquerda para direita) coordena a equipe do Núcleo de Inovação Tecnológica da Ufal
No entanto, apesar do importante crescimento
registrado ao longo dos últimos anos, a coordena‐
dora do NIT da Ufal reconhece que ainda há espaço
para avançar. E a principal aliada na busca pela ino‐
vação é a informação. Para Sílvia Uchôa, é fundamen‐
tal que o debate sobre desenvolvimento tecnológico
paire os diversos setores da Universidade.
“Temos [no NIT] uma equipe muito reduzida,
mas nós podemos destacar que essa equipe está
devidamente qualificada, inclusive com a formação
“O que a gente verificou, desde que assumi o
NIT, há aproximadamente seis meses, é que ainda
há um desconhecimento e que nem todos os setores
estão alinhados com a questão da inovação. Acredito
no mestrado do Profinit, que é o mestrado profissional
em Propriedade Intelectual e Transferência de Tec‐
que a falta de disseminação de uma cultura de ino‐
vação dificulta a compreensão e até a consolidação
Renner Boldrino
Eduardo Almeida
“A perspectiva para o curto prazo é que a gente
possa ter a nossa vitrine tecnológica finalizada. Essa
ação está sendo desenhada com o NTI [Núcleo de
Tecnologia da Informação] para que a gente possa
colocar as tecnologias de uma forma mais visível den‐
tro da plataforma da Ufal. Dessa forma, fazer ofertas
tecnológicas e que a gente possa colocar editais
para que as empresas busquem essas tecnologias”,
assegurou Sílvia Uchôa.
25
convencionais de Microscopia.
PROJETO DE PESQUISA
Com isso, é possível o estudo em Morfologia
Parasitária sem a obrigatoriedade do uso de um mi‐
croscópio, garantindo o acesso ao uso do programa
por pessoas com deficiência visual, pois é realizada
audiodescrição das imagens por meio de leitores de
tela, os quais são feitos em um software sintetizador
de voz que transforma informações textuais em in‐
formações sonoras.
Universidade implanta laboratório
inclusivo para estudantes cegos
Labparatodos recebeu Prêmio de Excelência Acadêmica dos Programas
Institucionais de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica
I
ncluir e ao mesmo tempo desconstruir a ideia de
capacitismo, que é a discriminação de pessoas com
deficiência. Esse foi o ponto de partida dos estudantes
Felipe Neves e Hevelyn Oliveira com o projeto de
pesquisa Labparatodos: Laboratório Virtual e Inclusivo
de Parasitologia. O propósito era unir tecnologia as‐
sistiva e biologia, e a ideia deu tão certo que os dois
foram premiados com a Excelência Acadêmica dos
Programas Institucionais de Bolsas de Iniciação Ci‐
entífica (Pibic) e Tecnológica (Pibiti) da Universidade
Federal de Alagoas (Ufal).
Esta é a primeira vez que um projeto dentro de
uma universidade brasileira pensa em inclusão antes
mesmo de receber estudantes com deficiência. Não
há na literatura descrição sobre a aplicação da au‐
diodescrição para imagens microscópicas com fins
didáticos. “A Ufal vai acessibilizar lâminas parasitoló‐
gicas para estudantes com deficiência visual, antes
mesmo de receber um deles. É um projeto pioneiro
nessa área do saber. Geralmente, as instituições de
ensino básico e superior precisam receber estudantes
cegos e com baixa visão para só depois se adaptarem
a eles”, afirmou Felipe Neves, pessoa cega e estu‐
dante de curso de Letras.
26
volvimento Tecnológico e Inovação (Pibiti) em 20202021 com a intenção de desenvolver um projeto que
unia tecnologia assistiva e biologia.
“Na época eu era bolsista do NAC e estava co‐
meçando a atuar com audiodescrição para produção
de conteúdo acessível para o Instagram. Nesse pe‐
ríodo, fiz algumas pesquisas e cheguei até a conver‐
sar com profissionais de outras universidades para
entender melhor o que seria a audiodescrição”,
explicou Hevelyn.
Para o professor Muller, o Labparatodos surge
do incômodo da ausência de estudantes com defi‐
ciência visual nos cursos da área de Saúde e do au‐
toquestionamento docente sobre como lidar caso
tivéssemos alunos com essa característica. “Os es‐
tudos microscópicos das formas parasitárias são im‐
portantes para o reconhecimento morfológico e o
diagnóstico das infecções por esses agentes. Assim,
incorporar tecnologias assistivas ao ensino de Para‐
sitologia ou a outras áreas das ciências foi um cami‐
nho que abrimos e seguimos na pavimentação”, ex‐
plicou.
Felipe Neves, estudante do curso de Letras e pessoa cega, com o professor Muller Ribeiro, que coordena o projeto de pesquisa
Esta é a primeira vez que um projeto apresentado
por um estudante cego é premiado. Não à toa, Felipe
destaca a importância da acessibilidade para o bom
andamento do projeto, que visa ser acessível às pes‐
soas cegas e de baixa visão.
“Nós elaboramos um protocolo de audiodescri‐
ção para tornar acessíveis as lâminas digitalizadas
da disciplina de Parasitologia. Até chegar a mim, en‐
quanto audiodescritor consultor, esse protocolo passa
por algumas etapas, como a caracterização das ima‐
gens das lâminas e o processo de audiodescrição
das imagens. Após isso, compete a mim realizar a
revisão e a validação do texto audiodescrito. Por fim,
o material é finalizado e entregue aos usuários”, contou
o estudante.
Hevelyn Oliveira é mestranda em Educação no
Centro de Educação, mas, na época de desenvolvi‐
mento do projeto, era estudante do curso de Educação
Física. Ela era bolsista do Núcleo de Acessibilidade
(NAC) da Ufal e Felipe, assistido pelo mesmo Núcleo.
Foi quando o professor Muller Ribeiro, do curso de
O objetivo do projeto é desenvolver uma plata‐
forma virtual composta por um banco de dados de
imagens de lâminas parasitológicas de alta resolu‐
ção, de descrições textuais e audiodescrição das ima‐
gens a fim de proporcionar o acesso à informação,
Biologia, abriu processo seletivo para bolsista do Pro‐
grama Institucional de Bolsas de Iniciação em Desen‐
eliminar as barreiras impeditivas para estudantes no
âmbito da Parasitologia, além de ser suporte às aulas
Renner Boldrino
Jacqueline Freire
Após esse trabalho, o material era avaliado pelo
coordenador do projeto, professor Muller Ribeiro, que
analisava a descrição técnica e a audiodescrição da
imagem, verificando se havia coerência da parte téc‐
nica com a audiodescrição da imagem, validando ou
não. Em caso de não aprovação, o material era de‐
volvido e as observações realizadas pelo docente
eram retificadas e encaminhadas novamente para
uma nova análise.
27
O projeto Labparatodos busca criar um programa
virtual, um aplicativo, que contenha audiodescrição
de lâminas parasitológicas. Para isso, no primeiro ano
do projeto, o grupo desenvolveu um documento ba‐
tizado de Protocolo Operação Padrão (POP). “Ele tem
o objetivo de apresentar direcionamentos para a cons‐
trução da audiodescrição de imagem de parasitos,
e também possibilitar a construção do aplicativo, ou
seja, esse material vai guiar em pequenos passos a
construção de um aplicativo acessível, que busca
trazer contribuições da audiodescrição para o ensino
de biologia, por meio da replicação da técnica de
audiodescrição científica e torna o material acessível
e disponível a pessoas com deficiência visual”, expli‐
cou Hevelyn.
odescrição de imagem estática e, por fim, alguém
que faça a consultoria dos dados gerados, sendo esta,
obrigatoriamente, uma pessoa com deficiência visual.
“A participação de cada elo nesse fluxo é fun‐
damental, e destaco aqui a atuação dos discentes
Marianne de Aguiar Vitório Praxedes, do curso de Me‐
dicina; Hevelyn Oliveira da Silva, da Educação Física;
e Felipe das Neves Vieira, de Letras/Português. Ser
premiados com excelência acadêmica por dois anos
consecutivos no Cait [Congresso Acadêmico de Ini‐
ciação Científica e Tecnológica], aumenta nossa res‐
ponsabilidade e compromisso com o projeto. Prin‐
cipalmente, quando essa premiação se torna instru‐
mento de inclusão, sendo Felipe, possivelmente, o
primeiro aluno cego premiado com tal honraria aca‐
dêmica na Ufal”, destacou o professor.
O professor Muller conta mais sobre o aplicativo,
que é baseado no conceito de design universal. “É
um artefato digital que qualquer indivíduo pode ter
acesso, independente das suas características indi‐
viduais. Logo, permite que qualquer aluno acesse a
informação ali apresentada, os que podem enxergar
verão a imagem, os alunos cegos ou com baixa visão,
podem acessar a imagem pelo texto, e a partir dele
acessar a imagem no campo do imagético”, disse.
Reconhecimento
Ele considera que é importante que a equipe
da audiodescrição seja formada por alguém que pos‐
sa descrever tecnicamente a imagem, alguém que
aplique a essa descrição inicial as técnicas de audi‐
“Estamos muito orgulhosos com o florescimen‐
to do Labparatodos e muito felizes com esses pri‐
meiros frutos, os quais nos fazem nos engajarmos
O projeto foi apresentado nas edições do 31° Con‐
gresso Acadêmico de Iniciação Científica (Pibic) e 14°
Congresso Acadêmico de Iniciação Tecnológica (Pibiti),
realizados em 2021, de forma virtual; e também no
32° Congresso do Pibic e no 15° Congresso Acadêmico
do Pibiti, referente ao ciclo 2021/2022, realizados em
novembro do ano passado.
Hevelyn Oliveira, professor Muller Ribeiro e Felipe Neves pretendem criar aplicativo com audiodescrição das lâminas parasitológicas
mais e mais. Para a próxima fase, a nossa expectativa
é aplicar o mesmo protocolo de audiodescrição nou‐
tras áreas do saber, como a Botânica, Histologia e
Patologia; e, além disso, criar um aplicativo para que
todos, da universidade ou não, possam acessar os
materiais de maneira democrática e equitativa”, revelou
Felipe.
Para o estudante, o prêmio é muito significativo,
primeiro por ser um reconhecimento do trabalho, mas
também por contribuir para a desconstrução do ca‐
pacitismo. “Essa ideia preconceituosa de que uma
pessoa com deficiência é incapaz, urgentemente, pre‐
cisa ser extinta. O prêmio de Excelência Acadêmica
também é uma comprovação de que a cegueira é
só um detalhe”, afirmou.
Já o professor Muller avalia o aprendizado que
também teve durante os trabalhos. “Felipe muito nos
Estudante Hevelyn Oliveira integra a equipe do projeto
ensinou nesse processo, não apenas na qualidade
de discente audiodescritor-consultor do projeto, mas,
sobretudo, sobre normalizar a convivência com PcD”,
disse.
estiverem preparados para receber esses estudantes,
conseguiremos eliminar algumas das barreiras que
impedem a entrada e a permanência desses estu‐
dantes”, afirmou a mestranda.
“Pessoalmente, percebo uma mudança na mi‐
nha percepção do indivíduo cego. Antes estava imerso
nos preconceitos que construímos. Hoje me percebo
realizando audiodescrição das características físicas
de pessoas e espaços, criando materiais didáticos
acessíveis e, principalmente, tratando do indivíduo
que tenha deficiência como uma pessoa com defi‐
ciência e não como um deficiente, uma vez que essa
compreensão mostra-se mais humanizada ao ressal‐
tar a pessoa à frente de sua deficiência, valorizandoa independentemente de suas condições físicas, sen‐
soriais ou intelectuais. Essa mudança de percepção
foi fundamental e agradeço muito a Felipe”, comple‐
tou o professor.
O grupo de pesquisa já está desenvolvendo tam‐
bém uma espécie de plataforma virtual, onde será
elaborado o código web. “Em breve sairemos de um
protótipo para a primeira versão, e a expectativa é
que seja entregue ao fim desse ciclo. Agradeço a
toda equipe Labparatodos e ao professor Muller pela
oportunidade e pelo incentivo. Acredito que todo su‐
cesso do projeto se deve a sua orientação e a sua
dedicação. Graças a isso podemos ver uma ideia se
tornar realidade e transformar vidas”, comemorou.
Renner Boldrino
Novos projetos
28
Renner Boldrino
Aplicativo
Agora no mestrado, Hevelyn pretende dar con‐
tinuidade ao trabalho com audiodescrição (AD). “Na
minha pesquisa busco validar a ideia de que o projeto
seja usado por professores e profissionais que atuem
com estudantes com deficiência visual ou que te‐
A fala de Hevelyn é reiterada pelo estudante
Felipe Neves, ao agradecer o apoio e a parceria de
seu orientador e dos demais colaboradores da ação:
“Minha imensa gratidão ao professor Muller por co‐
gitar esse projeto, por empenhar-se nele e pela pes‐
soa solícita que é. Também estendo minha gratidão
aos amigos e colegas que deram e dão vida ao Lab‐
paratodos. Desejo que esse projeto seja uma inspi‐
ração para os outros e demais instituições, assim te‐
remos uma educação efetivamente inclusiva”, com‐
pletou.
nham interesse em aprender mais sobre audiodes‐
crição parasitológica. Penso que se os professores
29
PARA ALÉM DOS PRÓPRIOS MUROS
Ações de extensão promovem
troca de saberes entre a
universidade e a sociedade
Somente no ano de 2022, Ufal realizou mais de 325 atividades de extensão; iniciativas aconteceram em Maceió e no interior do estado
Eduardo Almeida
L
evar conhecimento para além dos muros da uni‐
versidade e promover a troca de saberes entre
a academia e a sociedade. Esse é o principal objetivo
das ações de extensão, que ganharam destaque na
Universidade Federal de Alagoas (Ufal) nos últimos
anos. Somente em 2022, foram mais de 325 iniciativas
nessa área, beneficiando a população da capital e
do interior do estado.
A extensão vem crescendo na Universidade,
mesmo com redução de orçamento e com a pandemia,
que acabou prejudicando essas ações. Entre as 325
iniciativas desenvolvidas em 2022, estão cursos,
eventos, produtos, projetos e programas, que são de‐
senvolvidos em todas as unidades acadêmicas, campi
fora de sede e suas unidades de ensino, além de
acontecerem no Hospital Universitário Professor Al‐
berto Antunes (HUPAA).
A extensão na Ufal conta com inúmeros casos
de sucesso, como o Programa de Apoio aos Estudan‐
tes de Escolas Públicas do Estado, conhecido como
Paespe, que completou 30 anos de existência em
2022. Essa iniciativa busca capacitar jovens de escolas
públicas de Alagoas e prepará-los para que eles pos‐
sam enfrentar processos seletivos, como vestibulares
e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Também com caráter social, o Programa de Ex‐
tensão Conexões de Saberes é um curso pré-vesti‐
bular destinado exclusivamente para jovens em si‐
tuação de vulnerabilidade social. O programa já au‐
xiliou centenas de pessoas a ingressar nos cursos
de graduação da Ufal. Na Chamada Regular do Sisu
2023, foram convocados nove alunos e alunas da tur‐
ma do Conexões de Saberes. Muitos dos beneficiados
voltam para o projeto, desta vez para auxiliar na con‐
dição de instrutor que vai contribuir com a inclusão
de outros jovens no ensino superior.
As ações de extensão não se limitam aos mo‐
radores da capital. No Campus do Sertão, por exem‐
plo, o Coral Universitário tem propiciado experiências
artísticas não só para a comunidade acadêmica, mas
também para a população da região, atuando como
um importante ator cultural. A atividade é vinculada
ao Núcleo de Expressão Artística.
No Campus Arapiraca, o destaque, em 2022, foi
para a Semana de Envolvimento, organizada pela Co‐
ordenação de Extensão do campus com o propósito
de fortalecer a relação sociedade-universidade. A
ação contou com uma programação variada e buscou
mostrar para a população do Agreste muitas das ati‐
vidades que são desenvolvidas dentro da Ufal na‐
quela região.
A extensão na Ufal também promove grandes
eventos, que mobilizam não só a comunidade aca‐
dêmica, mas também marcam o calendário científicocultural do estado: Bienal Internacional do Livro, Fes‐
tival Internacional de Música de Penedo, Circuito Pe‐
nedo de Cinema e a Expedição Científica do Rio São
Francisco.
O principal desafio para colocar essas iniciativas
em prática, de acordo com Cezar Nonato, pró-reitor
de Extensão da Ufal, ainda é o aspecto financeiro.
“Tendo em vista que é da natureza da extensão o
encontro dialógico entre universidade e a sociedade,
Renner Boldrino
Equipe que compõe a Pró-reitoria de Extensão se empenha para atender às demandas tanto dos cursos em Maceió quanto do interior
30
31
ela demanda investimento nas condições para pro‐
piciar as despesas que estão envolvidas com o des‐
locamento de estudantes, docentes e técnicos para
o desenvolvimento das atividades junto aos diferentes
setores”, explicou.
Novas perspectivas
Para 2023, uma das metas estipuladas pela Próreitoria de Extensão é concluir o processo de curri‐
cularização da extensão, ou seja, integrar as ações
efetivamente aos cursos. “Encerramos o primeiro se‐
mestre letivo de 2022 com o seguinte cenário: no uni‐
verso dos 104 cursos de graduação que a Ufal possui,
73 cursos já iniciaram a execução da Curricularização
da Extensão por meio da implementação das Ativi‐
dades Curriculares de Extensão”, observou Nonato.
O gestor complementa: “Por outro lado, vinte e
seis cursos ainda se encontram em processo de cons‐
trução das suas matrizes curriculares e nove já fina‐
lizaram a formulação das suas propostas, encontran‐
do-se, assim, no estágio de tramitação das novas ma‐
trizes para que possam ser apreciadas no Conselho
Superior Universitário da Ufal, o nosso Consuni”.
Na área cultural, a Pró-reitoria de Extensão (Proex)
prevê a conclusão da política cultural da Universidade
e o mapeamento das atividades culturais desenvol‐
vidas na instituição. “Essas duas iniciativas são fun‐
damentais para qualificar ainda mais o caráter edu‐
cativo e cultural da Ufal, não só no sentido da for‐
mação da comunidade, mas também nos percebemos
enquanto agentes culturais do estado de Alagoas”,
reafirmou Nonato.
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“Todas essas prospecções para o ano de 2023
estão intimamente ligadas à necessidade de ampliar
o aspecto da função social da nossa universidade,
sobretudo quando observamos que estamos num
estado que ainda amarga índices como o de ter 17%
da sua população em situação de analfabetismo e
36,7% das suas famílias em situação de fome, só pra
dar um exemplo. Nesse contexto, as atividades de
extensão universitária podem servir de terreno fértil
para a construção de caminhos para a superação des‐
sas condições, gerando possibilidades para o poder
público em suas diferentes esferas e para as diversas
organizações da sociedade civil”, concluiu o pró-reitor
Cezar Nonato.
Renner Boldrino
Cezar Nonato, pró-reitor de Extensão, tem entre seus desafios concluir o processo de curricularização da extensão nos cursos de graduação
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pesquisas
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e muito mais!
32
33
Simoneide Araújo
GESTÃO INSTITUCIONAL
Nova metodologia de
contratações aumenta em 500%
número de itens licitados na Ufal
Total de produtos adquiridos por licitação saltou de 305,
no ano de 2019, para 1.835, em 2022
José Edson Lima e o pró-reitor Jarman Aderico seguem firmes no propósito de promover avanços na área de gestão
Eduardo Almeida
S
e a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) é des‐
taque nas áreas de ensino, pesquisa e extensão,
ela também avança na área de gestão institucional.
Uma nova metodologia de contratação implantada
ao longo dos últimos três anos possibilitou um cres‐
cimento de mais de 500% no número de produtos
licitados, o que garante mais transparência e mais
eficiência para os gastos públicos.
Para se ter uma ideia de como a modernização
dos procedimentos licitatórios tem contribuído para
34
a melhoria dos serviços prestados pela Universidade,
no ano de 2019, foram adquiridos por meio de licitação
305 itens. No ano de 2022, esse número saltou para
1.835 produtos, excluídos neste caso os procedimen‐
tos desertos e fracassados. Um crescimento signifi‐
cativo.
pró-reitor de Gestão Institucional, Jarman Aderico.
“A metodologia de contratações consiste em es‐
tratégias de trabalho colaborativo e compartilhado,
baseada na descentralização, mobilização e capaci‐
tação contínua de três grupos: os requisitantes, as
A nova metodologia de compras acontece da
seguinte forma: cada unidade acadêmica e adminis‐
trativa da Ufal passou a contar com “requisitantes de
contratações”, os quais são responsáveis por informar
as necessidades das unidades no Plano de Contra‐
tações Anual. Essas demandas, por sua vez, são seg‐
mentadas em grupos de materiais que correspondem
às Comissões Permanentes de Materiais e Equipa‐
mentos, que são 14 grupos de trabalho, criados em
Comissões Permanentes de Materiais e Equipamentos
e os setores de Compras e Licitações”, explicou o
2020 e responsáveis pela especificação, padronização
e cotação dos itens priorizados pelas unidades.
Após o trabalho dessas comissões, as unidades
requisitantes formalizam e justificam as contratações
para que, em seguida, os setores de compras e lici‐
tações prossigam com as fases interna e externa
dos processos licitatórios.
“Além disso, para dar mais celeridade aos pro‐
cedimentos de pesquisa de preços, foram adquiridas
licenças de uso do software Banco de Preços, utili‐
zado pelos órgãos de referência da Administração
Pública, a exemplo do TCU [Tribunal de Contas da
União] e do MPF [Ministério Público Federal]. Na mes‐
ma perspectiva de promover a celeridade, também
35
foi implantada, desde abril de 2021, a utilização de
processo eletrônico nas licitações, o qual permite,
inclusive, a total transparência com a divulgação da
íntegra dos autos de todos os processos licitatórios”,
acrescentou Jarman Aderico.
E complementa: “Foi também constituída a Rede
de Compras e Licitações com a criação dos setores
de compras do Campus do Sertão e do Ceca [Campus
de Engenharias e de Ciências Agrárias], que se jun‐
taram aos já existentes na Proginst [Pró-Reitoria de
Gestão Institucional], Sinfra [Superintendência de In‐
fraestrutura] e Biblioteca Central, o que permitiu du‐
plicar o total de servidores nas fases interna e externa
das contratações”.
Outro importante avanço na área de gestão ins‐
titucional da Ufal foi a criação do Observatório de
Contratos, que tem como objetivo promover a me‐
lhoria dos serviços e a otimização dos contratos da
Universidade, principalmente os de maior vulto finan‐
ceiro e de maior alcance. As atividades do Observa‐
tório estão organizadas em três ciclos.
O primeiro é o “Ciclo de Conhecimento”, momento
em que a equipe do Observatório se dedica ao estudo
dos documentos do contrato. O segundo é “Ciclo de
Melhorias”, quando o Observatório elabora um relatório
de indicações de melhorias imediatas e para a futura
contratação do mesmo objeto. Por fim, o “Ciclo de
Consolidação”, em que o relatório de melhorias é apre‐
sentado, e a equipe do Observatório passa a moni‐
torar a execução dos apontamentos, de acordo com
as indicações de implantação previstas no ciclo an‐
terior.
Até a produção desta reportagem, o Observatório
de Contratos havia efetivado a análise de seis con‐
tratos, sendo três de limpeza e conservação e três
de manutenção predial residente. Estima-se que a
economia com a análise dessas contratações chega
a R$ 3 milhões.
Fórum de gestores
A gestão da Ufal tem investido, nos últimos dois
anos, na equipe de compras, o que até já rendeu,
em 2022, o Prêmio 19 de Março, que reconhece a
instituição, em âmbito nacional, como a que mais in‐
vestiu em capacitação de equipes de compras e con‐
tratações públicas. Sem contar que a atuação cole‐
tiva dos setores e equipes envolvidos fez a Ufal quin‐
tuplicar os itens licitados por pregão eletrônico. Tudo
isso foi fundamental para criação do Fórum de Ges‐
tores e Fiscais de Contratos, lançado em junho do
ano passado, e a implantação do Sistema Contratos
Gov.
Esse Fórum é um órgão criado na Ufal para in‐
centivar a capacitação e promover a valorização dos
servidores. “Na verdade, estamos chamando de fó‐
rum um conjunto de ações para capacitar, valorizar
e promover a interação entre gestores e fiscais de
contratos. Vamos fazer treinamentos constantes para
capacitá-los, premiar as melhores práticas”, explicou
José Edson Lima, coordenador de Administração de
Suprimentos e Serviços da Proginst da Ufal.
Busca por alternativas
Mas, apesar dos avanços registrados, administrar
uma instituição com a complexidade da Ufal não é
tarefa fácil. Os sucessivos cortes orçamentários im‐
postos pelo governo federal obrigaram os gestores
a encontrar alternativas para manter a instituição fun‐
cionando.
de despesas maior que a capacidade orçamentária
e financeira. Apenas a custo de muitas demandas
não atendidas foi possível passar por esses últimos
anos. Apesar da consciência livre de culpa, ficamos
consternados de não ter como resolver diversos pro‐
blemas da comunidade universitária. A todo momento
ficamos nos cobrando a encontrar soluções alterna‐
tivas que respeitem as diretrizes da conveniência e
oportunidade”, ponderou Aderico.
No entanto, de acordo com o gestor, o ano de
2023 deve ser marcado por um cenário mais favorável.
“Com os aprendizados acumulados e as novas es‐
truturas colaborativas criadas, se avizinha um ganho
significativo com a participação positiva dos atores
institucionais e da Ufal do ponto de vista da gestão
pública. O aprimoramento dos desenhos de contratos,
o conhecimento difundido em orçamento público e
a perspectiva de elaboração de planos nos diversos
níveis de gestão estarão no circuito dos próximos
anos”, concluiu Jarman Aderico.
“Não foi uma tarefa fácil suportar uma previsão
Simoneide Araújo
José Edson, em mais uma ação da Proginst, reuniu coordenadores e diretores administrativos para tratar de gestão patrimonial.
36
37
apenas no Campus A.C. Simões, em Maceió, mas tam‐
bém desempenha serviços nos campi Arapiraca, do
Sertão, em Delmiro Gouveia, e de Engenharia e Ciên‐
cias Agrárias (Ceca), em Rio Largo – o que inclui as
sedes e suas unidades.
Sinfra investe R$ 1,6 mi para
atender a mais de 6 mil pedidos
de manutenção em 2022
Nem mesmo os sucessivos cortes de recursos por parte do governo
federal inviabilizaram as ações de melhorias
Prédio onde funcionará a Fármácia Universitária já está em fase de conclusão das obras de reforma
Eduardo Almeida
R
esponsável pelas atividades ligadas à infraes‐
trutura, à segurança e à logística da Universida‐
de Federal de Alagoas (Ufal), a Superintendência de
Infraestrutura (Sinfra) tem avançado a passos largos
nos últimos anos. Só em 2022, por exemplo, foi in‐
vestido aproximadamente R$ 1,6 milhão para a aqui‐
sição de produtos que possibilitaram o atendimento
de mais de 6 mil solicitações de manutenção na ins‐
tituição.
O montante foi aplicado na compra de itens como
manta asfáltica, lâmpadas de LED, torneiras, pias, re‐
gistros, tinta e fiação, viabilizando a realização das
atividades do ensino, da pesquisa e da extensão pela
comunidade acadêmica. Nem mesmo os sucessivos
cortes de recursos por parte do governo federal in‐
viabilizaram as ações de melhorias.
“A escassez orçamentária e a pandemia foram,
sem dúvida, os maiores desafios recentes que en‐
frentamos. Sem orçamento, não foi possível executar
tudo o que gostaríamos, mas, mesmo assim, nós re‐
cebemos apoio incondicional da gestão central para
tentar alcançar todas as unidades que formam a
Ufal”, explicou o engenheiro civil Felipe da Rocha Paes,
38
que atua como superintendente de Infraestrutura da
Universidade.
Outro avanço importante registrado pela Sinfra
nos últimos anos foi o aprimoramento dos processos
licitatórios, diante da reabertura do setor de compras
da Sinfra em 2021. Além de garantir mais eficiência
na prestação de serviços, a medida também atendeu
às exigências de órgãos externos para que as novas
edificações na Universidade tenham alvará de fun‐
cionamento, licença ambiental e auto de vistoria do
Corpo de Bombeiros.
Para 2023, o gestor se mostra otimista. Segundo
Paes, a equipe da Superintendência tem se debru‐
çado sobre projetos que devem alavancar ainda mais
a área de infraestrutura e logística. Algumas das me‐
didas, conforme ele explica, estão em fase avançada
e devem ser implementadas em breve na instituição.
“Entre as novidades que estão em fase de pla‐
nejamento podemos citar os processos administra‐
tivos para contratação de empresas especializadas
na manutenção de aparelhos de ar-condicionado e
manutenção de plataformas elevatórias e elevadores.
A perspectiva é que esses serviços estejam disponíveis
este ano”, destacou Felipe Paes.
E acrescenta: “Outras duas novidades, estas em
fase de execução, são a perfuração de um poço ar‐
Quando concluídas, as medidas poderão gerar
uma economia aos cofres públicos da ordem de R$
6 milhões por ano. “Aqui vale citar o apoio do magnífico
reitor, Josealdo Tonholo, dos professores Vladmir Ca‐
ramori e Nélia Callado, ambos do Ctec [Centro de
Tecnologia], e do então presidente da Casal, Clécio
Falcão, sem os quais não seria possível a formalização
do acordo”, concluiu Paes.
Você sabia?
Entre os serviços realizados pela Sinfra estão
manutenção predial, rede elétrica, rede de esgoto
e vias; controle de pragas urbanas (cupins, escorpiões,
ratos); capina e poda da vegetação; coleta de resí‐
duos laboratoriais; elaboração de projetos de enge‐
nharia, arquitetura, rede lógica e segurança; execução
de obras públicas; combate a incêndio e pânico; trans‐
porte; segurança patrimonial; e limpeza.
Walter Santos, coordenador de Manutenção, superintendente Felipe Paes e Emerson Camelo, coordenador de projetos da Sinfra
“A Sinfra tem trabalhado constantemente para
melhorar a prestação dos serviços que estão sob a
sua responsabilidade. Uma das formas de alcançar
esse objetivo é aumentando o seu leque de atuação.
Nos últimos anos, firmamos alguns contratos impor‐
tantes com empresas especializadas em prestação
de serviços de jardinagem, controle de pragas urba‐
nas e manutenção e restauro de prédios históricos”,
acrescentou Felipe Paes.
No entanto, de acordo com o engenheiro civil,
a tarefa de garantir melhorias na infraestrutura e na
logística da Universidade não tem sido fácil, sobre‐
tudo pelo fato de que a Superintendência não atua
Renner Boldrino
Renner Boldrino
CUIDADO COM A UFAL
“O maior desafio é prover os serviços necessá‐
rios para manter a diversidade de atividades realiza‐
das no âmbito da Ufal em pleno funcionamento. Isso,
somado ao tamanho da Universidade, torna o desafio
ainda maior, tendo em vista a grande quantidade de
recursos financeiros e humanos que devem ser em‐
pregados para manter toda essa estrutura funcionan‐
do”, ponderou o superintendente Felipe Paes.
tesiano que vai tornar a Ufal autossuficiente no for‐
necimento de água para o Campus A.C. Simões e a
parceria firmada com a Casal e Sanama, que viabilizou
a recuperação de parte do Sistema de Tratamento
de Esgoto do Campus A.C. Simões, o que vai possi‐
bilitar a abertura da mesa de negociações entre Ufal,
o IMA [Instituto do Meio Ambiente] e a SEMARH [Se‐
cretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídri‐
cos], para que a Universidade trate seu próprio eflu‐
ente”.
39
Simoneide Araújo
INVESTIMENTO
Apesar da pandemia e da escassez de
recursos, Ufal capacita mais de 3,5 mil
servidores nos últimos três anos
Foram cerca de 200 cursos nesse período; instituição também realizou
o maior concurso docente da sua história
Gestores da Ufal participaram do curso Gestão de Risco e Controles Internos, ministrado pelo professor Paulo Lima
Eduardo Almeida
A
básico, técnico e profissionalizante. Além desses edi‐
tais, foram lançados processos seletivos para con‐
tratação de professores substitutos para suprir afas‐
tamentos.
Entre os anos de 2020 e 2022, foram lançados
nove editais e nomeados 87 técnicos-administrativos,
“O balanço das ações da pró-reitoria é altamen‐
te positivo, pois conseguimos realizar uma série de
atividades de nossa competência, mesmo dentro de
um período de contingenciamento imposto pela pan‐
demia”, explicou o pró-reitor de Gestão de Pessoas
e do Trabalho da Ufal, Wellington Perereira, ao co‐
mentar o desempenho positivo da área que lidera
na Universidade.
pesar das restrições impostas pela pandemia
de covid-19 e pela escassez de recursos públi‐
cos, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) registrou
avanços na área de gestão de pessoas nos últimos
três anos. Durante esse período, a instituição capa‐
citou mais de 3,5 mil servidores, disponibilizando cerca
de 200 cursos, e realizou o maior concurso docente
da história da universidade, com 70 vagas.
sendo 53 da classe D e 34 da classe E; 113 professores
do magistério superior; e três professores do ensino
40
Conforme o pró-reitor, o grande desafio dos úl‐
timos anos foi lidar com a maior crise de saúde re‐
gistrada nos últimos 100 anos: a pandemia de covid19. Wellington Pereira destaca que o distanciamento
social impôs uma nova dinâmica de trabalho, visto
que boa parte dos servidores passou a atuar de forma
remota ou ficou afastada devido à contaminação
pela covid-19.
Um levantamento da Pró-reitoria de Gestão de
Pessoas e do Trabalho (Progep) mostra que a Coor‐
denação de Desenvolvimento de Pessoal gerenciou,
entre os anos de 2020 e 2022, mais de 6,9 mil pro‐
cessos avaliativos de servidores dos mais diversos
níveis e carreiras da instituição.
“Não obstante à pandemia, conseguimos exe‐
cutar todas as nossas atividades cotidianas, não ge‐
rando quaisquer prejuízos aos nossos servidores. Falo
em relação às progressões e às avaliações de de‐
sempenhos dos técnicos-administrativos e de está‐
Diante da falta de recursos para capacitações,
a Universidade passou a inovar. Foram realizados
eventos virtuais, promovidos não só por membros
da própria Ufal como por instituições parceiras. “Os
cortes orçamentários na área de recursos humanos
atingiram diretamente a área de capacitação. Porém,
gios probatórios docentes, mas também em relação
às capacitações”, ponderou Pereira.
ofertamos diversos cursos por meio de eventos in‐
ternos, externos e capacitações In Company”, frisou
41
o pró-reitor Wellington Pereira.
O pró-reitor acrescenta: “A Gerência de Capaci‐
tação elaborou um Plano de Desenvolvimento de
Pessoas com foco descentralizado no levantamento
das necessidades de capacitações dos servidores
da Ufal, permitindo que os próprios servidores, em
conjunto com as chefias, pudessem ter as suas ne‐
cessidades discutidas diretamente nas bases hierár‐
quicas das unidades, de forma a refletir o mais próximo
possível as reais necessidades de desenvolvimento
dos servidores”.
Carências
No entanto, embora reconheça os avanços ob‐
tidos nos últimos anos, o pró-reitor destaca que o
cenário vivido pela Universidade está longe do ideal.
Conforme Wellington Pereira, a Ufal conta com um
deficit de servidores técnico-administrativos e de do‐
centes. Atualmente, a instituição dispõe de 1.702 téc‐
nicos-administrativos e 1.778 docentes para atender
toda a instituição.
“Levando em consideração que a proporciona‐
lidade ideal seria de dois técnicos para cada docen‐
te, fica demonstrado o deficit existente em nosso
quadro. É importante ressaltar que, desse quantitativo
de servidores técnico-administrativos, mais de 400
ocupam cargos extintos ou impedidos de provimen‐
tos, a exemplo dos cargos de motorista, porteiro e
auxiliar administrativo”, acrescentou Pereira.
De acordo com o pró-reitor, a Universidade re‐
alizou uma consulta junto às unidades acadêmicas
e campi fora de sede e informou ao Ministério da
Educação e à Comissão de Transição do governo fe‐
deral as necessidades de ampliação de quadro para
os próximos anos. Porém, Wellington Pereira reco‐
nhece que a situação não é de fácil solução.
“Quando assumimos a pró-reitoria, encontra‐
mos as vagas distribuídas de acordo com a legislação
em vigor na época e com as pactuações para projetos
de expansão da instituição devidamente definidas.
Mas, desde 2017, a Ufal não recebe vagas novas para
o cargo de técnico-administrativo. Com relação aos
docentes, chegamos a receber alguns códigos de
vagas pactuadas, que foram destinados ao curso de
Medicina do Campus Arapiraca, à Unidade Educacional
de Penedo, ao Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias, em Rio Largo, e à Medicina do Campus A.C.
Simões”, observou Wellington Pereira, pró-reitor de
Gestão de Pessoas.
Renner Boldrino
Pró-reitor Wellington Pereira e sua equipe buscam junto ao MEC a ampliação do quadro de servidores para os próximos anos
42
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preferido
43
OPINIÃO
“Paespe me trouxe motivação para ter
resiliência e realizar meus sonhos”
Geiza Gomes, ex-aluna Pespe e professora voluntária
da Ufal
A
Arquivo pessoal
minha trajetória é nada mais do que um convite
para que pessoas como eu - vindas da periferia
- tenham a coragem de persistir, e, assim, ter resi‐
liência para realizar os seus sonhos.
44
O ano era 2002, em um dos blocos de aulas de
um espaço chamado Ufal, iniciei um trabalho informal
na copiadora ou ponto de xerox de um dos meus
tios. Ainda não existia a Lei Jovem Aprendiz, mas lá
eu iniciava a minha primeira atividade remunerada.
Dentre as minhas funções estavam: tirar cópias, realizar
encadernações e ven‐
der lanches. O que
mais chamava a
minha atenção
era a elegância
das estudantes e professoras, e eu me imaginava
naquelas roupas e principalmente dispondo daquele
vocabulário tão diferente da minha rede de relacio‐
namentos.
Infelizmente, alguns meses depois abandonei
o posto de trabalho, pois minha mãe temia por minha
segurança após uma rebelião no presídio, já que so‐
mente um muro separava o bloco em que eu trabalhava
do sistema prisional.
Eis que chega o ano de 2004. Em um dia como
qualquer outro, durante as aulas da 2ª série do ensino
médio na Escola EstadualAlfredo Gaspar de Mendonça,
a diretora nos convoca para a sala de vídeos. Na sala,
um senhor de cabelos brancos, com um olhar forte
e semblante esperançoso, de imediato prendeu a
minha atenção e me fez ignorar os burburinhos e al‐
gazarras dos colegas de escola. A proposta de estar
em um espaço com “as mentes mais brilhantes de
Alagoas”, como ele mesmo disse, me fez, de imediato,
aceitar realizar o exame de matemática que ele havia
levado. Maior parte dos meus colegas recusaram-se,
afinal, todos fugiam de matemática, inclusive eu, mas
fui cativada pelo inusitado. Dias após, aquele profes‐
sor volta com as notas catastróficas; a minha havia
sido inferior a 3,0. De imediato pensei ter perdido a
oportunidade, até que ele anunciou que todos os
interessados estavam aptos a iniciar as atividades do
Paespe. Em novembro daquele ano, descubro que
o Paespe ficava na Ufal. Descobri finalmente o sig‐
nificado daquela sigla e ainda descobri que eu es‐
tudaria no Ctec, bloco vizinho ao meu primeiro em‐
prego e contato com a Universidade, o bloco de Ar‐
quitetura.
assistir às aulas do doutorado em Pernambuco, e mi‐
nha tia me enviou mensagem perguntando se eu es‐
tava na Ufal. Respondi que não, pois eu estava em
Recife. Ela insistiu e disse que era isso o que queria
saber. Foi aí que percebi que na cabeça dela qualquer
universidade levava o nome de Ufal, logo, ela também
desconhecia aquela sigla. Outro episódio me chamou
a atenção, recentemente em uma das reuniões com
pais ou responsáveis dos jovens paespeanos, uma
mãe relata ao professor Roberaldo que não sabia que
poderia descer do ônibus e circular pelo campus.
Fica nítido que, ainda hoje, as universidades não fazem
parte do mundo das pessoas em vulnerabilidade so‐
cioeconômica. Essa é a beleza do Paespe: levar a
Ufal para além dos muros!
Retomando… O ano 2005 foi desafiador, muito
conteúdo que não havia sido apresentado na escola,
mas também foi um ano de muita inspiração e apren‐
dizado, pois aos 17 anos tive o meu primeiro contato
com um computador. Era uma rotina cansativa que
se dividia entre a escola, os afazeres domésticos e
a Ufal [essa era a melhor parte: dizer que eu era aluna
da Ufal]. Por volta das 16h eu saía de casa, andava
cerca de 2,5 km para chegar na sala do Paespe. A
aula iniciava às 19h, mas o final de tarde trazia mais
segurança nessa caminhada. Ao chegar, eu “filava”
aquele café com biscoitos na sala do professor Ro‐
beraldo [idealizador e coordenador do Programa]. Ao
término da aula, por volta das 21h, eu andava mais
2,5 km com a companhia de colegas paespeanos
que moravam nos bairros do entorno do campus.
Eis que chega o ano 2006 e, com ele, a notícia
da reprovação no Processo Seletivo Seriado (PSS).
Infelizmente eu não estava entre os calouros de en‐
genharia civil da Ufal. No mesmo ano, recebo a notícia
da aprovação no Ifal para o curso técnico em cons‐
trução civil. Durante os dois anos de curso eu me
revezava entre estudar e ser voluntária no Paespe.
Passava a tarde na Ufal organizando as atividades
do Programa e de lá seguia para as aulas noturnas
no Ifal.
Conseguem imaginar que eu trabalhava na Ufal
e não sabia o que aquele espaço representava para
a nossa sociedade? Caro leitor, você já imaginou que
No ano 2008, estava reunida com os familiares
na expectativa de ouvir o meu nome na rádio entre
muitas pessoas não sabem o significado da sigla da
Universidade do seu Estado? Outro dia, viajei para
à tensão, recebo a ligação do professor Vladimir Ca‐
ramori: “Geiza, estou na Praça Sinimbu, você é Geiza
os aprovados no curso de engenharia civil. Em meio
Thamirys Correia Gomes?” Com a minha confirmação,
ele me parabeniza pela aprovação no curso de en‐
genharia civil da Ufal. Este foi um dos momentos mais
mágicos e aguardados da minha vida. Jamais esque‐
cerei aquela sensação.
Naquele ano, eu iniciava a maior labuta de todas.
Concluir o curso não foi fácil, porque eu me deparei
com desafios pela bagagem escolar e, principalmen‐
te, pelas dificuldades financeiras para me manter na
Universidade sem trabalhar, já que na época não tí‐
nhamos tantas oportunidades via assistência estu‐
dantil. Os apoios familiar e do professor Roberaldo
sempre foram os responsáveis pela conclusão do
curso. Além disso, continuar nas atividades do Paespe
me trazia motivação. Eu não podia desistir, porque
aqueles alunos se inspiravam em mim: “Ela foi do
Paespe e hoje é aluna da Ufal”.
Quase 20 anos se passaram. A minha história
com a Ufal iniciou-se no ensino médio, passou pela
graduação, mestrado e agora pela trajetória como
professora voluntária.
Aprendi muito! Principalmente com os alunos
e instrutores. As suas histórias de vida me moldaram
para melhor e me lapidam a cada dia. Tanta coisa
aconteceu, tantas pessoas me inspiraram e se ins‐
piram em mim.
Hoje, tenho muito orgulho e gratidão por estar
tão próxima de um sonho que em 2004 parceria im‐
possível: ser doutora! Mais orgulho ainda, por ter con‐
tribuído para que o Paespe seja uma Tecnologia So‐
cial e seja reconhecido internacionalmente como um
Serviço de Aprendizagem Solidária. Por saber que
estamos agregando valor social às pessoas e que,
por meio da educação, estamos promovendo mobi‐
lidade social.
Tenho a consciência de que é muita responsa‐
bilidade vestir a camisa do Paespe. Sou grata à Uni‐
versidade Federal de Alagoas por todas as oportu‐
nidades, ao Paespe por ampliar a minha visão de mun‐
do, aos voluntários do Programa por sua dedicação.
Principalmente, sou grata ao professor Roberaldo,
pelas aulas de vida que ganhei dele, que é quem
mais entende da matéria.
45
pliando esse painel para fazer novos testes. Acredito
que em um ano aproximadamente a gente estará
com os dados bem consolidados, bem analisados.
E aí, sim, essa técnica será validada para distribuição
de forma mais ampla para a população”, acrescentou
o cientista.
Renner Boldrino
CIÊNCIA
Ufal avança em técnica inovadora para o
diagnóstico da esquistossomose
Iniciativa conta com a parceria de pesquisadores da UFMG e da Fiocruz;
etapa de validação está em fase final
Professor e pesquisador Wagner Porto é líder de um grupo de pesquisa no Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS)
Eduardo Almeida
A
pós três anos de pesquisas, a Universidade Fe‐
deral de Alagoas (Ufal) avança no desenvolvi‐
mento de uma técnica inovadora para o diagnóstico
da esquistossomose no Brasil. O novo método está
em fase final de validação, e a expectativa dos pes‐
quisadores envolvidos no projeto é que ele passe a
ser distribuído em larga escala no país em aproxima‐
damente um ano.
A técnica consiste na identificação de casos de
esquistossomose em pacientes que apresentam uma
baixa carga parasitária, como explica o professor e
cientista Wagnner Porto, que lidera um grupo de pes‐
quisa no Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde
(ICBS) da Ufal. A iniciativa conta com a participação
de pesquisadores da Universidade Federal de Minas
Gerais e da Fiocruz.
“Com o programa de controle da esquistosso‐
mose e com o tratamento anual das pessoas infectadas,
a gente tem percebido que a carga parasitária vem
se tornando cada vez mais baixa e que alguns casos
acabam não sendo identificados pelas técnicas usu‐
46
ais. Então, a gente está desenvolvendo técnicas que
conseguem identificar quem não elimina grande
quantidade de ovos”, expôs Wagnner Porto.
Wagnner Porto lembra que o diagnóstico e o
tratamento são apenas parte das ações de combate
à esquistossomose. Segundo ele, é importante que
os gestores públicos atuem na principal causa de
transmissão da doença: o saneamento básico pre‐
cário. Neste sentido, a Ufal vem desenvolvendo ações
em parceria com o poder público, orientando gestores
e capacitando quem atua no atendimento a pacientes.
“Nosso laboratório firmou parceria com a Pre‐
feitura de Viçosa, cidade onde iniciei o meu trabalho
e minhas pesquisas na Ufal. Também estamos, há
cerca de um ano, atuando com a Prefeitura de Maceió.
A gente tem intensificado nossas pesquisas em áreas
consideradas endêmicas, auxiliando os agentes de
saúde, para que eles orientem as pessoas mais ca‐
rentes dessas áreas”, completou Porto.
Integração
passou a fazer parte do grupo de cientistas por meio
de um projeto de iniciação científica. Mesmo após a
finalização do projeto, ela segue engajada em novas
pesquisas, que devem resultar no seu trabalho de
conclusão de curso.
“Na graduação, a gente se depara com um con‐
teúdo muito extenso. Ter foco em determinada área
ajuda bastante. Agora, por exemplo, estou participan‐
do de um projeto científico que engloba vários estados
brasileiros para investigar uma demanda negligen‐
ciada, que é o Schistosoma mansoni. A pesquisa vai
agregar muito à minha formação, por tudo o que a
gente vem pesquisando e pelos resultados obtidos.
Vamos dar uma resposta para a população e também
para a saúde pública de um modo geral”, observou
Rose Avelino.
A pós-doutoranda Flávia Damasceno é uma das
participantes da pesquisa. Formada pela Ufal, a pes‐
quisadora fez mestrado, doutorado e pós-doutorado
na Universidade de São Paulo (USP). “A proposta do
meu estágio pós-doutoral é padronizar novas técnicas
para diagnóstico da esquistossomose. A adesão a
esse projeto contribui muito com a minha formação,
porque me possibilita conhecer a realidade do estado
de Alagoas. Essa é uma área em que nunca trabalhei
e que, sem dúvidas, vai agregar muito à minha for‐
mação”.
Embora o novo modelo de diagnóstico ainda
aguarde validação final, as pesquisas desenvolvidas
no ICBS têm repercutido no meio acadêmico. Além
da publicação em revistas científicas e da apresen‐
tação de resumos em congressos, as investigações
resultaram em relatórios de iniciação científica, tra‐
balhos de conclusão de curso e dissertações de mes‐
trado.
As novas técnicas para o diagnóstico da esquis‐
tossomose resultam da integração entre ensino, pes‐
quisa e extensão. O laboratório comandado pelo
professor Wagnner Porto na Ufal conta, atualmente,
com oito pesquisadores, distribuídos entre estudantes
da graduação de cursos da área de Saúde, de mes‐
trado, de doutorado e de pós-doutorado, sob a su‐
pervisão de professores da Universidade.
Conforme Wagnner Porto, a validação do novo
método depende, atualmente, apenas da ampliação
do número de pessoas alcançadas pela pesquisa.
Nos últimos três anos, mais de 600 pessoas foram
atendidas pelos pesquisadores, número ainda con‐
siderado insuficiente. A expectativa é que a validação
do novo modelo aconteça dentro de um curto período
de tempo, que pode vir a ser de até um ano.
“A gente consegue fazer com que o estudante
visualize, na prática, o conteúdo que ele lê nos livros.
Além disso, o projeto faz a interface com a extensão,
porque, apesar de ser trabalho de pesquisa, é feito
um trabalho de educação em saúde que se asseme‐
lha muito com a extensão. Dessa forma, a gente con‐
templa o tripé da Universidade, que é o ensino, a pes‐
quisa e a extensão”, ressaltou o cientista.
“Para validar uma nova técnica imunológica, a
Uma das participantes das ações desenvolvidas
O Ministério da Saúde estima que, no Brasil, cerca
de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas sob o risco
de contrair a doença. Os estados das regiões Nordeste
e Sudeste são os mais afetados, de acordo com o
MS. Qualquer pessoa, de qualquer faixa etária e sexo,
gente precisa de um painel de pacientes bastante
extenso e bem caracterizado. Então, a gente está am‐
no Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da
Ufal é a estudante de graduação Rose Avelino, que
pode ser infectada com o parasita da esquistosso‐
mose.
Esquistossomose
A esquistossomose, conhecida como “barriga
d’água” ou “doença do caramujo”, é uma doença pa‐
rasitária, que está relacionada ao saneamento pre‐
cário. A enfermidade é causada pelo Schistosoma
mansoni. As pessoas contaminadas adquirem a in‐
fecção quando entram em contato com água doce
onde existam caramujos infectados pelos vermes cau‐
sadores da esquistossomose.
47
EXCELÊNCIA
EDGE conta hoje com cerca de 250 pesquisadores, que
desenvolvem ou desenvolveram projetos para empresas
como Dell, Sony, Lenovo, Intelbras e Petrobras
48
Renner Boldrino
CENTRO DE INOVAÇÃO
TRANSFORMA UFAL EM
POLO DE TECNOLOGIA E
CAPTA R$ 100 MI EM 7 ANOS
49
Eduardo Almeida
Instituto de Computação da Ufal, Mário Hozano.
C
Aplicativo Pixsee
Se no início, entre os anos de 2015 e 2016, o Cen‐
tro de Inovação contava com um quantitativo redu‐
zido de colaboradores, atualmente esse número pas‐
sa de 250. Além de professores e universitários, exalunos da Ufal e profissionais liberais desenvolvem
ou desenvolveram projetos para empresas como Dell,
Sony, Lenovo, Intelbras e Petrobras. Os resultados
registrados pelo grupo apontam para um futuro pro‐
missor.
“A iniciativa de criar um programa para o desen‐
volvimento de um polo regional de tecnologia surgiu
a partir dos professores Rodrigo de Barros Paes e
Willy Carvalho Tiengo, que se uniram a um grupo
de outros cinco pesquisadores. Assim nasceu o Edge,
que hoje atende a gigantes da tecnologia e desen‐
volve projetos de altíssimo impacto”, explicou Mário
Hozano Lucas de Souza, professor e pesquisador da
Universidade e integrante do Centro de Inovação Edge.
Para se ter uma ideia do crescimento do Edge,
atualmente, o grupo ocupa salas em dois prédios
do Campus A.C. Simões e espaços no Polo de Ino‐
vação, no bairro de Jaraguá, em Maceió. Os integran‐
tes do programa discutem uma nova forma de or‐
ganização, visto que esses locais não são suficientes
para abrigar todos os profissionais envolvidos nas
atividades.
“O desenvolvimento da computação é uma ten‐
dência. Há uma grande demanda por profissionais
dessa área. E esse trabalho pode acontecer de forma
remota. Não é preciso um local específico para de‐
senvolver um software, por exemplo. Basta ter um
computador. Então, estamos repensando nosso mo‐
delo de trabalho. A falta de espaço não será um pro‐
blema”, acrescentou o professor e pesquisador do
50
O Centro de Inovação Edge atua na área de Com‐
putação Industrial, de forma mais específica com apli‐
cações de inteligência artificial, de automação e de
dispositivos de computação embarcada. Atualmente,
são desenvolvidos de forma simultânea aproxima‐
damente 20 projetos. Nos últimos sete anos, foram
mais de cem.
“Um dos nossos projetos mais recentes foi o de‐
senvolvimento do aplicativo Pixsee, que funciona
como uma babá eletrônica inteligente, com capaci‐
dade para detectar situações de perigo, como sufo‐
camentos, por exemplo. O aplicativo consegue captar
ainda a temperatura e a umidade do ambiente, além
de produzir fotos do bebê remotamente. Para nós,
uma grande conquista”, ressaltou o professor Mário
Hozano.
Inclusive, essa babá eletrônica inteligente –
uma câmera de monitoramento para bebês – que
usa tecnologia produzida na Universidade Federal
de Alagoas, foi premiada nos Estados Unidos. Foi no
evento de tecnologia considerado o mais influente
do mundo, o Consumer Electronics Show (CES) 2023,
realizado no início de janeiro deste ano, em Las Ves‐
gas (EUA).
Renner Boldrino
om a proposta de entregar resultados e impul‐
sionar pessoas, o Centro de Inovação vinculado
à Universidade Federal de Alagoas (Ufal) tem levado
o nome do estado para o mundo. Num período de
sete anos, o Edge - programa ligado ao Instituto de
Computação (IC) - transformou Alagoas em polo re‐
gional de tecnologia e conseguiu captar mais de R$
100 milhões em investimentos com empresas de di‐
versas áreas.
Professor Mario Hozano informa que o Edge, além do Campus A.C. Simões, também está no Polo de Inovação, instalado em Jaraguá
Captação de recursos
O trabalho desenvolvido no Centro de Inovação
Edge, no entanto, vai além do desenvolvimento de
softwares. A ideia do grupo é entregar soluções viá‐
veis para as empresas parceiras, o que nem sempre
acaba chegando ao grande público. Em muitos casos,
as soluções de tecnologia ficam restritas às indústrias
demandantes.
Um dado que chama a atenção é o grande vo‐
lume de recursos captados pelo Centro de Inovação
Edge nos últimos anos. Os pesquisadores estimam
que, desde 2015, foram investidos cerca de R$ 100
milhões em ações que garantiram não só o desen‐
volvimento científico do estado como apresentaram
soluções para problemas enfrentados por grandes
empresas ao redor de todo o mundo.
“Nós atuamos fortemente em soluções para as
próprias fábricas, porque a maioria dos parceiros são
indústrias. Produzimos protótipos valiosos, que dimi‐
nuem custos, aumentam faturamento e diminuem
a margem de erro. São produtos extremamente va‐
riados, que vão desde a produção de cabos ópticos
a sistemas para smartphones, passando, claro, pelos
“Um levantamento recente, ao qual nós tivemos
acesso, mostra que a Universidade Federal de Ala‐
gaos está entre as oito universidades que mais cap‐
taram recursos dentro da Lei de Informática. Esses
dados são muito significativos, porque mostram o
impacto do trabalho que temos realizado na Univer‐
sidade. Os alagoanos estão conduzindo projetos de
projetos desenvolvidos com a Petrobras”, completou
Mário Hozano.
altíssima inovação, o que não acontecia na minha
época de graduação, por exemplo”, destacou Mário
Hozano, professor e pesquisador da Ufal.
No entanto, apesar do elevado nível de inves‐
timento privado, o desenvolvimento das pesquisas
também foi afetado pelos sucessivos cortes de re‐
cursos federais ocorridos ao longo dos últimos anos.
“É preciso entender que a Universidade vai muito
além dos projetos desenvolvidos em parceria com
empresas. Há uma cadeia de serviços que precisa
funcionar bem para que o trabalho dos pesquisado‐
res produza resultados”, complementou.
Para Mário Hozano, o Edge deve assinalar um
crescimento ainda maior ao longo dos próximos anos.
“Nós registramos um crescimento muito acelerado
nos últimos anos, especialmente nos últimos dois
anos, mas acreditamos que vamos crescer ainda mais
no futuro próximo. Precisamos parar, nos organizar
internamente e criar uma estrutura para avançar ain‐
da mais, sobretudo com captações que vão além da
Lei de Informática”.
51
Meneghetti, veio a partir da conversão da área de
pesquisa. Os professores migraram da área de Quí‐
mica Básica para a área de Catálise. “Nosso grupo
passou a estudar, por exemplo, a transformação de
óxidos metálicos e nanopartículas na produção de
insumos químicos que servem de base para outras
aplicações”, destacou o professor, que completa,
em 2023, 20 anos de Ufal.
Renner Boldrino
DESTAQUE NA CIÊNCIA
Laboratório da Ufal se torna referência
no Brasil na área de Química Inorgânica
Grupo de pesquisa tem mais de 200 artigos publicados e registra
aproximadamente 4 mil citações por parte de outros pesquisadores
Professor e pesquisador Mário Meneghetti escolheu a Ufal para se dedicar aos estudos e às pesquisas na área de Química Inorgânica
Eduardo Almeida
Q
uando o assunto é ciência e produção de co‐
nhecimento, a Universidade Federal de Alagoas
(Ufal) é destaque. Um grupo de pesquisa vinculado
ao Instituto de Química e Biotecnologia (IQB) se tornou
referência no Brasil na área de Química Inorgânica.
Desde a fundação do grupo, em meados da primeira
década dos anos 2000, foram publicados mais de
200 artigos na área, que foram citados por aproxima‐
damente quatro mil pesquisadores.
52
“Além de ser um estado que nos proporciona
uma boa qualidade de vida, sabia que em Alagoas
eu teria muita coisa a fazer na área de Química
Inorgânica. Havia muito espaço para crescimento na
Universidade, porque aqui não havia muitos
profissionais nessa área. Então, foi o desafio de
contribuir com o crescimento do que viria a ser o
Instituto de Química que me motivou a optar pela
Ufal”, lembrou Meneghetti.
O caminho até ganhar notoriedade não foi nada
fácil. Essa jornada começa com a aprovação do
gaúcho Mário Roberto Meneghetti em concurso para
professor da Ufal. Apesar da possibilidade de perma‐
necer no Sul do país ou de seguir para uma univer‐
sidade no estado da Bahia, Meneghetti opta por Ala‐
goas e dá início à trajetória que contribuiria para elevar,
Ao pesquisador se juntou, inicialmente, a pro‐
fessora Simoni Margareti Plentz Meneghetti, igual‐
mente considerada uma referência quando se trata
de Química Inorgânica. Atuando de formas distintas
e, ao mesmo tempo, complementares, os dois fun‐
dam o Grupo de Catálise e Reatividade Química, que,
futuramente passaria a contar também com o traba‐
lho das professoras Janaína Heberle Bortoluzzi e Ru‐
siene Monteiro de Almeida.
de forma significativa, o nome do Instituto de Química
e Biotecnologia.
A virada de chave do laboratório, segundo Mário
“Com o tempo, obviamente, fomos nos adap‐
tando às questões locais e também dos próprios fi‐
nanciadores. Em 2003, por exemplo, quando estava
se iniciando o primeiro governo de Lula, houve um
investimento forte na área de oleoquímica. Então, o
grupo começou a direcionar estudos para esta área.
No caso, preparar catalisadores para a transformação
de óleos pela gordura animal e biodiesel”, observou
Meneghetti.
O grupo de pesquisa conta, atualmente, com
25 pesquisadores, que envolvem não apenas profes‐
sores, mas também estudantes de graduação – por
meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação
Científica (Pibic) – e estudantes de mestrado e dou‐
torado que integram programas de pós-graduação
da Ufal. Esse número, no entanto, já foi o dobro do
atual e diminuiu à medida que aumentaram as difi‐
culdades de fomento.
“Isso é reflexo da diminuição do fomento à pes‐
quisa. As bolsas começaram a ficar muito aquém do
que realmente deveriam ser para ajudar os alunos
a se dedicarem aos estudos, desde a Iniciação Ci‐
entífica, mas sobretudo para estudantes de mestrado
e de doutorado. Também se criou uma atmosfera
de desestímulo à ciência ao longo dos últimos anos,
o que, sem dúvidas, contribuiu para a redução”, com‐
plementou Mário Meneghetti.
e três projetos aprovados pelo CNPq [Conselho Na‐
cional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico],
sob a coordenação da professora Simone Meneghetti.
Acredito que, além dessa aprovação, a retomada do
financiamento das universidades deve nos ajudar a
melhorar, principalmente, a estrutura física dos nossos
laboratórios, que se degradou ao longo dos últimos
anos”, concluiu Mário Meneghetti.
Futuras cientistas
Além do desenvolvimento de pesquisas de re‐
levância na Química Inorgânica, o Grupo de Catálise
e Reatividade Química da Ufal se destaca por outras
ações. Uma delas é a participação no programa Fu‐
turas Cientistas, que também conta com a participa‐
ção do Grupo de Ensino QuiCiência, do Instituto de
Química e Biotecnologia da Ufal.
O programa Futuras Cientistas é desenvolvido
pelo Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste
(Cetene) e busca proporcionar o contato de alunas
e professoras da rede pública com as áreas de Ciência,
Tecnologia, Engenharia e Matemática. A ideia, de acor‐
do com a definição do próprio programa, é contribuir
com a equidade de gênero no mercado.
A Universidade Federal de Alagoas disponibilizou
15 vagas para participação no programa, que foram
distribuídas para ampla concorrência e para pretas,
pardas, indígenas e quilombolas, trans e travestis, e
candidatas PCD. O Futuras Cientistas teve início no
dia 3 de janeiro. As estudantes vão receber bolsa au‐
xílio no valor de R$ 483.
CONHEÇA UM POUCO MAIS SOBRE AATUAÇÃO
DO GRUPO DE PESQUISA:
Para 2023, o professor e pesquisador acredita
num cenário de mais investimentos e de retomada
do estímulo à produção científica dentro das univer‐
sidades. O Grupo de Catálise e Reatividade Química
recebeu a notícia, no fim do ano de 2022, de que seis
projetos foram aprovados por agências de fomento,
o que deve contribuir com novas pesquisas.
“Foram três novos projetos aprovados pela Fa‐
peal [Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas]
53
BIOTECNOLOGIA
Renner Boldrino
Cientistas descobrem em Alagoas
14 novas espécies ou gêneros de fungos
Trabalhos desenvolvidos na Ufal demonstram potencial para indústria
de combustíveis e remediação de áreas contaminadas
Professora Mellissa Landel coordena grupo de pesquisa que estuda a interação entre a microbiota e a epilepsia
Eduardo Almeida
A
ciência pulsa na Universidade Federal de Ala‐
goas (Ufal). Um grupo de pesquisadores vincu‐
lados ao Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde
(ICBS) tem alcançado resultados expressivos em
pesquisas relacionadas à biodiversidade, à taxonomia
e à biotecnologia microbiana. Os cientistas descobri‐
ram, num período de dez anos, 14 novas espécies
ou gêneros de fungos existentes em biomas como
a Mata Atlântica e a Caatinga.
Os trabalhos desenvolvidos na Ufal demonstram
54
potencial para contribuir com o crescimento da in‐
dústria de combustíveis. Isso, a partir da produção
de enzimas de importância biotecnológica, e com
processos de remediação de áreas contaminadas –
em especial as contaminadas por hidrocarbonetos,
como o petróleo, por exemplo, que, recentemente,
afetou diversas praias do litoral brasileiro, exigindo
atuação rápida do poder público.
vivos que podem ser vistos a olho nu. “Estamos tra‐
balhando a relação entre a microbiota e a epilepsia,
bem como a microbiota e os corais branqueados da
APA Costa dos Corais”, explicou a professora e pes‐
quisadora Melissa Landel.
Além disso, os pesquisadores que integram o
ICBS passaram a estudar a interação entre microbi‐
A docente coordena, desde 2013, quando che‐
gou a Alagoas vinda do Rio Grande do Sul, um grupo
que, atualmente, conta com dez colaboradores e que
envolve desde estudantes de graduação, por meio
de programas de Iniciação Científica, até estudantes
ota – microrganismos que fazem parte do organismo
humano – e macro-organismos, que são organismos
de doutorado, envolvendo programas de pós-gradu‐
ação da Ufal.
“O nosso laboratório conta com alunos de gra‐
duação e de pós-graduação, além de professores e
discentes colaboradores de outros laboratórios e ins‐
titutos da Ufal, bem como colaborações com outras
universidades. Nosso grupo já descreveu várias es‐
pécies novas de leveduras, algo bastante significativo
e pioneiro, sobretudo por se tratar de biomas típicos
da região Nordeste”, acrescentou a professora Melissa.
Para marcar as descobertas, as novas espécies
ou gêneros de fungos foram nomeadas em home‐
nagem aos locais em que foram encontradas. “Co‐
mumente, nessas descobertas, são homenageados
55
Para 2023, o grupo liderado pela pesquisadora
deve seguir desenvolvendo projetos e parcerias na
área de biotecnologia, incluindo projetos no âmbito
de um novo programa Institutos Nacionais de Ciência,
Tecnologia e Inovação (INCTs) para estudos com le‐
veduras. “Este projeto foi aprovado no edital de 2022
e tem coordenação da UFMG [Universidade Federal
de Minas Gerais], mas que conta também com a par‐
ticipação de vários estudiosos em leveduras não só
do Brasil, como também de instituições no exterior,
além do nosso grupo aqui da Ufal”, ressaltou a do‐
cente.
Além desses projetos, os pesquisadores da Ufal
também vão integrar uma rede criada recentemente,
chamada de Manguebits, que envolve instituições
nacionais e internacionais para o estudo e a restau‐
ração inteligente de manguezais utilizando microorganismos. A iniciativa contará com a participação
de alunos de graduação e pós-graduação da Ufal.
“No nosso grupo, a integração é feita por meio
da orientação e da participação efetiva dos nossos
discentes, tanto alunos Pibic [Programa de Bolsas
de Iniciação Científica], quanto alunos de mestrado
e doutorado dos PPGs [Programas de Pós-graduação]
que faço parte. Além disso, os alunos têm participado
de publicações de alto impacto e colaborações com
outros pesquisadores e instituições de ensino e pes‐
quisa do Brasil e do exterior”, complementou Landel.
Para Victor Tavares, estudante do curso de Li‐
cenciatura em Ciências Biológicas pela Ufal, integrar
o laboratório coordenado pela professora Melissa Lan‐
del e ter a oportunidade de colaborar com pesquisas
de alto impacto para a região Nordeste e para o país
contribui de forma significativa para a sua formação
como professor e como pesquisador.
“Integrar um laboratório modifica muito a sua
visão e o que você pensa sobre o que é ciência, prin‐
56
cipalmente para os estudantes de licenciatura, porque
permite a integração entre o que a gente vê na teoria
e o que é desenvolvido aqui dentro. A gente começa
a ler mais, a aprender mais, a interpretar mais e co‐
meça a entender processos que antes de fazer parte
do laboratório não conseguíamos entender”, relatou
Victor Tavares.
O doutorando Ciro Félix sabe bem como a ciência
pode transformar vidas. Hoje concluinte da pós-gra‐
duação, o doutorando chegou ao laboratório coor‐
denado pela professora Melissa Landel há dez anos.
“O envolvimento com a pesquisa começou de modo
despretensioso. A professora Melissa havia acabado
de chegar a Alagoas, e eu fui indicado para desen‐
volver pesquisas, algo muito presente na formação
em Ciências Biológicas", afirmou Ciro Félix, que che‐
gou até o laboratório por meio do Pibic.
O caminho entre a graduação e o doutorado
não foi fácil, mas, ao olhar para trás, o pesquisador
se orgulha de sua trajetória. “O amadurecimento de‐
mandou tempo, claro, mas também demandou ori‐
entação. A liberdade científica que eu tive acabou
me incentivando muito. Quando a gente sai do au‐
tomático e busca entender a importância da ciência
e do método científico, a gente amadurece”, acres‐
centou Ciro Félix.
O doutorando conclui ressaltando que a ciência
deve seguir presente em sua vida. “Eu pretendo, sim,
continuar na vida acadêmica. Eu pretendo ser pro‐
fessor em uma universidade e replicar muito do que
eu aprendi aqui, com o método científico, e quem
sabe, formar um próximo aluno, desde a graduação
até o doutorado, como aconteceu comigo”, finalizou
Félix.
Pesquisadores que integram
o laboratório do ICBS, coordenado
pela professora Melissa Landel,
descobriram novas espécies
de fungos que foram
nomeadas em homenagem
aos locais em que foram encontradas,
biomas típicos da
região Nordeste
Renner Boldrino
pesquisadores renomados na área ou há uma refe‐
rência ao substrato de isolamento dos micro-orga‐
nismo ou ainda ao local onde houve o achado. Foi
assim que foram nomeadas as espécies Valentiella
maceioensis sp. nov., Vishniacozyma alagoana sp. nov.
e Carcinomyces nordestinensis sp. nov”, expôs Landel.
57
ALCANCE INTERNACIONAL
Professor do Campus Arapiraca
desenvolve pesquisa na Antártica
Alysson Duarte coletou amostras ambientais
entre novembro e dezembro de 2022
M
uitas ações da Universidade Federal de Ala‐
goas (Ufal) têm alcance nacional e internaci‐
onal, com pesquisadores participando de grupos de
pesquisa e intercâmbios em várias partes do mundo.
Um bom exemplo disso é Alysson Wagner Fernandes
Duarte, biólogo e professor do Campus Arapiraca.
Por causa de seu estudo sobre micro-organismos
na Antártica, já participou de três expedições. A ter‐
ceira foi recentemente, em um período de dois meses
no continente gelado.
Durante novembro e dezembro de 2022, o pes‐
quisador coletou amostras ambientais de solos,
líquens e vegetação, para o isolamento de micro-or‐
ganismos. “Esse material é utilizado para avaliação
do potencial de aplicação biotecnológica na área da
saúde humana e no setor agrícola”, explicou Alysson,
docente e orientador de mestrado pelos Programas
de Pós-graduação em Ciências Médicas, da Facul‐
dade de Medicina, e Agricultura e Meio Ambiente,
do Campus Arapiraca.
O professor integrou a Expedição de 2022/2023,
chamada de Operantar XLI. “O que fazemos durante
a expedição é essencialmente coletar amostras am‐
bientais, trazê-las congeladas ao Brasil e fazer o pro‐
cessamento das amostras na Ufal. Nessa pesquisa
que desenvolvemos no Campus Arapiraca, interagi‐
mos com pesquisadores de diferentes universidades
do Brasil, como a UFMG [Universidade Federal de
Minas Gerais], Unicamp [Universidade de Campinas],
UnB [Universidade de Brasília], Unila [Universidade
Federal da Integração Latino-Americana], Unipampa
[Universidade Federal do Pampa], USP, UFS [Univer‐
58
sidade Federal de Sergipe], além das parcerias com
os pesquisadores da Ufal”, relatou o docente.
O início
Alysson Duarte é egresso da Ufal, na graduação
e no mestrado. “Fiz Ciências Biológicas (2007), orien‐
tado pela Ana Cristina de Lima Normande, da Fanut
[Faculdade de Nutrição], e depois mestrado no pro‐
grama de Pós-graduação em Nutrição, orientado por
Ana Maria Queijeiro López, do IQB [Instituto e Química
e Biotecnologia]. Pesquisava microbiologia de pro‐
dutos apícolas, principalmente mel de abelhas nativas
e africanizadas. Ao final do mestrado estava analisan‐
do onde faria doutorado e fui a um Congresso de
Ciência de Alimentos na Unicamp. Visitei alguns la‐
boratórios e, dentre eles, o da pesquisadora Lara Du‐
rães Sette, que estava iniciando as pesquisas com a
Antártica e me apresentou essa possibilidade”, narrou
o professor.
Ele participou da seleção do doutorado em 2010,
pelo Programa de Pós-graduação em Biotecnologia
da USP. “Comecei os trabalhos com a Antártica, ori‐
entado pela professora Lara e, desde então, continuo
pesquisando micro-organismos daquele continente.
Em 2013 fui pela primeira vez à Antártica, ainda durante
o doutorado. Em 2016 ingressei na Ufal, Campus Ara‐
piraca, como docente do curso de Medicina. Como
docente, já fui em duas expedições, em 2017 e agora
essa última, no final de 2022”, pontuou Duarte.
Programa Antártico Brasileiro - A Antártica é a
região mais fria da Terra. O continente é descrito no
site do Programa Antártico Brasileiro como “o conti‐
nente dos superlativos: o mais alto, o mais ventoso,
Arquivo pessoal
Lenilda Luna
Professor e pesquisador Alysson Duarte durante coleta de amostras de microorganismos na Antártica
o mais frio, o mais seco e o mais inóspito”. O Programa
tem 41 anos e é coordenado pela Marinha do Brasil,
Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)
e CNPq, com participação de várias universidades
brasileiras. “A Ufal é uma colaboradora do projeto My‐
coAntar, que estuda a micologia Antártica, coorde‐
nado pelo pesquisador Luiz Henrique Rosa, da Uni‐
versidade Federal de Minas Gerais”, completou o pes‐
quisador Alysson Duarte.
Essa parceria, que o professor Alysson estabe‐
leceu ainda durante o doutorado, já está rendendo
mais frutos na formação científica dos pesquisadores
da Ufal. “A minha primeira aluna de Iniciação Científica
(Pibic), no Campus Arapiraca, Mayanne Karla da Silva,
está finalizando o mestrado pelo Programa de Pósgraduação em Microbiologia pela UFMG. Sou coo‐
rientador do trabalho dela. Ela acabou indo para Belo
Horizonte e continuamos os trabalhos em parceria”,
relatou o docente.
Rotina de trabalho - Alysson Duarte narrou um
pouco do roteiro e rotina de trabalho no Continente.
“A ida à Antártica começa com a saída de avião da
Força Aérea (KC390) do Rio de Janeiro até Pelotas
(RS), onde pegamos as roupas específicas que iría‐
mos usar na Antártica. De Pelotas, pegamos um novo
voo no mesmo avião da FAB até a cidade de Punta
Arenas, Chile e de lá partimos para a Antártica de
navio. A Marinha do Brasil possui dois navios polares
que dão apoio à pesquisa científica, os navios Ary
Rongel e Almirante Maximiano”, contou ele.
Depois de embarcados, ainda é preciso esperar
as melhores condições para atravessar o estreito de
Drake, situado entre a extremidade sul da América
do Sul e a Antártica. “A chamada janela do Drake é
a melhor previsão das condições de navegação para
seguirmos viagem, porque nessa expedição atraves‐
samos uma das regiões mais críticas de navegação
do mundo, numa região de encontro dos oceanos
59
A viagem de ida não foi fácil. “Pegamos um Drake
mais difícil, o navio batia um pouco e precisava ficar
mais recolhido. Se as condições de tempo são boas,
a travessia de navio dura entre quatro e cinco dias.
Depois disso, chegamos à Antártica, abaixo do paralelo
de 60 S. Fiquei na Estação Antártica Comandante Fer‐
raz, fazendo as coletas na Ilha Rei George”, detalhou.
A nova Estação Antártica Brasileira, inaugurada
em 2020, é a terceira maior estação científica do mun‐
do na Antártica e possui uma infraestrutura de refe‐
rência. “A estação tem uma capacidade de geração
de energia renovável e uma estrutura de excelência.
Fiquei feliz em ter visto essa nova estação. Quando
estive lá, em 2017, a equipe chinesa estava constru‐
indo a estação. Vê-la pronta, do jeito como ficou, é
muito animador!”, comemorou o pesquisador.
Importância científica para a Ufal - Alysson Du‐
arte destaca os resultados desse esforço para o de‐
senvolvimento da pesquisa na Ufal. “Como dizemos,
a Antártica é um laboratório natural devido às con‐
dições ambientais extremas. Tem características li‐
mitantes para a sobrevivência de todas as formas
de vida, com as menores temperaturas da Terra, além
de extremos de radiação ultravioleta UV-A, UV-B,
ciclos de congelamento e degelo e estresse hídrico.
Então, microrganismos que sobrevivem naquele con‐
tinente precisam se adaptar a estas condições ad‐
versas e podem assim produzir compostos com novas
propriedades e aplicações”, ressaltou Duarte.
A pesquisa da microbiologia Antártica faz um
estudo similar com a Caatinga de Alagoas. “Apesar
de distantes, são ambientes com características si‐
milares como o estresse hídrico, a Antártica sendo
um deserto frio e a Caatinga um deserto quente. Os
dois últimos editais de pesquisa que aprovamos, no
CNPq e na Fapeal, foram com essa perspectiva, a
de aproximar esses ambientes distantes por meio
da avaliação do potencial biotecnológico dos micror‐
ganismos isolados deles”, explicou o pesquisador Alys‐
son Duarte.
O estudo se volta para a produção de enzimas
por leveduras de líquens da Antártica. “Temos traba‐
lhado com produção de enzimas, pigmentos, apli‐
cação agrícola e atividade contra Leishmania, em par‐
ceria com as professoras Magna Moreira e Aline C.
de Queiroz, dos campi da Ufal em Maceió e Arapiraca,
respectivamente. As principais linhas de frente do
que temos pesquisado nos microrganismos da An‐
tártica são: prospecção de enzimas, produção e ava‐
liação de pigmentos microbianos e aplicação agrí‐
cola”, informou om professor Alysson.
Arquivo pessoal
Pacífico e Atlântico. Haja dramin para seguir viagem
embarcado (risos)”, narrou Duarte sobre a aventura
da viagem.
Amostras de micro-organismos coletadas são avaliadas quanto ao potencial de aplicação biotecnológica na sáude e no setor agrícola
As pesquisas envolvem alunos de doutorado,
mestrado e iniciação científica dos programas Pibic
e Pibiti. “Destaco também que as possibilidades de
pesquisa na Antártica são variadas e os microorga‐
nismos representam novas fontes de recursos bio‐
lógicos para diferentes usos pelo ser humano, seja
no campo da saúde, seja no setor agrícola. Por fim,
estudar a Antártica é importante para alertamos para
a preservação do ambiente, visando conscientizar a
população da riqueza biológica que existe naquele
continente”, finalizou o professor.
Arquivo pessoal
Alysson Duarte, professor do Campus Arapiraca, levou a bandeira da Universidade para marcar a presença da instituição na Antártica
60
Resumo das pesquisas
plo, e utilizar para aplicações cosméticas.
Prospecção de enzimas. Um estudo publicado
em 2022, na edição especial de tema Antártico nos
Anais da Academia Brasileira de Ciências. “Reportamos
diferentes espécies de leveduras com versatilidade
na produção de proteases, amilases, pectinases. Essas
enzimas podem ser utilizadas na indústria de alimen‐
tos, produção de fármacos, combustíveis, dentre ou‐
tros. As proteases, por exemplo, buscamos enzimas
que tenham atividade fibrinolítica e que possam ser
aplicadas na saúde humana, como no tratamento
de trombose. Além disso, temos pesquisado a pro‐
dução de L-asparaginase por fungos da Antártica e
a principal aplicação dessa enzima é a aplicação no
tratamento da Leucemia Linfoblástica Aguda”.
O setor de cosmético tem buscado substituir
os corantes sintéticos por corantes naturais, os pig‐
mentos microbianos podem ser uma alternativa à
redução dos compostos sintéticos. E também esta‐
mos estudando se estes pigmentos têm atividade
antimicrobiana, antioxidante ou contra a Leishmania.
Este último em colaboração com as professoras Mag‐
na e Aline, que são referência na busca de fármacos
com atividade leishmanicida”.
Na produção e avaliação de pigmentos micro‐
bianos, a perspectiva é que como um dos fatores de
estresse no polo Sul é o excesso de luz UV, alguns
microrganismos produzem pigmentos como uma res‐
posta adaptativa a esta condição, além da resposta
ao frio daquele ambiente. “Publicamos, em 2021, um
artigo em uma conceituada revista na área Biotec‐
nologia, a Critical Review in Biotechnology onde repor‐
tamos os pigmentos bacterianos por isolados da An‐
tártica e destacamos isolados vermelhos resistentes
a altas doses de UV-C. Isto é importante porque po‐
demos produzir e extrair esses pigmentos, por exem‐
Aplicação agrícola
“Temos analisado se fungos e bactérias da An‐
tártica podem ser utilizados como bio-inoculantes
solubilizadores de fosfato inorgânico. O fósforo so‐
lúvel é uma das necessidades do setor agrícola, mas
não basta apenas o produtor adicionar o adubo quí‐
mico (fósforo) aos solos, porque a maior parte dele
ficará inacessível às plantas. Os micro-organismos
solubilizadores de fosfato é que fazem a solubilização
deste elemento químico para a raiz da planta e vimos
que tanto as bactérias quanto as leveduras da An‐
tártica apresentam uma boa atividade de solubiliza‐
ção de fosfato. Estes estudos foram desenvolvidos
em parceria com o pesquisador Adeildo Júnior de
Oliveira, do Campus Arapiraca” .
61
Eduardo Almeida e Rose Ferreira
A
s linhas tortas do São Francisco, retratadas em
inúmeras canções da música popular brasileira,
foram palco para uma ação que levou educação e
saúde à população ribeirinha de Alagoas e Sergipe
em 2022. De 3 a 12 de novembro, a 5ª Expedição Ci‐
entífica do Baixo São Francisco percorreu 250 quilô‐
metros, entre as cidades de Piranhas e Piaçabuçu,
mostrando que a ciência segue pulsando em nosso
estado.
Além dos pesquisadores da Universidade Fe‐
deral de Alagoas (Ufal), integrantes de outras 26 ins‐
tituições participaram da iniciativa. Distribuídos nas
embarcações Magnífica, Indiana e Maravilhosa, os
expedicionários promoveram ações de educação am‐
biental, visitaram escolas públicas e sítios arqueoló‐
gicos, fizeram novos registros de espécies e realizaram
mais de seis mil exames em comunidades ribeirinhas.
A Expedição Científica do Baixo São Francisco
incluiu ainda a doação de equipamentos - como mi‐
crotratores com implementos agrícolas, computado‐
res, impressora e projetores - e a promoção de ações
lúdicas, beneficiando os moradores dos municípios
de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja
Nova, Penedo e Piaçabuçu, no estado de Alagoas,
e de Gararu, Propriá e Brejo Grande, de Sergipe.
Rose Ferreira
“Acredito que essa 5ª expedição ficou na me‐
mória das pessoas. Os dados da expedição científica
falam por si só, e as publicações que já temos e os
parceiros envolvidos atestam o nosso trabalho. Só
temos a agradecer o apoio de cada investidor e a
dedicação de todos os envolvidos”, declarou Emerson
Soares, coordenador-geral da Expedição e professor
da Ufal.
Planejamento
O planejamento para pôr em prática uma expe‐
dição que conta com a participação de 66 pesqui‐
sadores se inicia cerca de um ano antes da primeira
embarcação cair na água. De acordo com Eliane Ca‐
valcanti, vice-reitora da Ufal e responsável pelo Barco
da Saúde, logo após o término de uma edição da
Expedição Científica, a Universidade dá início ao pla‐
nejamento da expedição seguinte.
“A partir do momento em que o grupo de tra‐
balho emite o relatório das atividades que foram
desenvolvidas durante a Expedição, o que normal‐
mente acontece no mês de dezembro, a gente começa
o planejamento para a edição seguinte. Nossa ideia
é sempre aprimorar os trabalhos e serviços oferecidos
à população. Então, a gente vai melhorar sempre”,
explicou Eliane Cavalcanti.
A expectativa para a Expedição Científica do São
Francisco não se limita aos seus organizadores. “A
gente sente a Expedição conosco os 365 dias do ano,
porque, desde o nosso primeiro planejamento do ano
letivo, a gente pensa no tema que vai trabalhar. Não
é só recepcionar pesquisadores. A criança quer saber
Meninas, estudantes ribeirinhas, participaram do projeto Academia e Futebol, do Instituto de Educação Física e Esporte da Ufal
CIÊNCIA E EXTENSÃO
Rose Ferreira
Professor Emerson Soares, coordenador-geral da Expedição, demonstra trabalho de análise de espécie encontrada no São Francisco
Expedição leva educação e
saúde à população de cidades
banhadas pelo São Francisco
Durante dez dias, pesquisadores percorreram 250 quilômetros entre
as cidades de Piranhas e Piaçabuçu
62
63
o porquê da Expedição, qual o objetivo e por que
ela está passando aqui”, explicou Edilene Marques
Matias, ex-aluna e hoje professora da educação infantil
da Escola Municipal de Educação Básica General Artur
da Costa e Silva, no povoado de Chinaré, em Igreja
Nova-AL.
A professora complementou: “Porque não são
só os 12 dias da Expedição. Quantas descobertas vo‐
cês fizeram nesses cinco anos? Isso contribui para
o nosso futuro, para que o estudante de hoje também
possa se tornar um pesquisador amanhã. Eu saí daqui
e hoje sou professora dessa escola. E olha o poder
que a gente tem em ser professor, tendo a oportu‐
nidade de transformar o futuro das crianças pela edu‐
cação”.
Pesquisador Mozart Daltro fez análise do teor de óleo e graxas e
da presença de metais pesados na água do Velho Chico
Expedição em números
Durante dez dias, a Expedição Científica do Baixo
São Francisco percorreu 250 quilômetros, que cortam
dez municípios - sete em Alagoas e três em Sergipe.
Ao longo desse período, foram colocados chips em
300 peixes, colhidas 60 amostras de Teor de Óleos
e Graxas (TOG) e pesticidas, feito o peixamento de
100 mil peixes, colhidas 60 amostras de água e 66
de microplásticos e realizadas histopatologias de 120
peixes.
Também foram realizadas três palestras cien‐
tíficas transmitidas ao vivo pelo Instagram da Ufal,
somando mais de 4 mil visualizações; 2 mil visitas ao
Oceanário do Sesc DF; visitados 15 escolas, quatro
sítios e oito comunidades, entre indígenas, quilom‐
bolas e de artesãos; entregues três fossas agroeco‐
lógicas; e analisadas seis sub-bacias.
A Expedição Científica do Baixo São Francisco
é uma realização da Ufal, em parceria com o Ministério
da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), o Comitê
da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, a Com‐
panhia de Desenvolvimento dos Vales do São Fran‐
cisco e do Parnaíba (Codevasf), a Secretaria de Estado
do Meio Ambiente e de Recursos Hídricos de Alagoas
(Semarh) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de Alagoas (Fapeal).
64
Crianças de escolas ribeirinhas participam de aula prática
em um dos barcos da Expedição Científica
Rose Ferreira
Rose Ferreira
A iniciativa conta ainda com o apoio da Fundação
Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pes‐
quisa (Fundepes), da Agência Peixe Vivo, do Tanto
Expresso, do Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade, da Emater/AL, da Hanna Instru‐
ments, da Colgate, do Rotary Club Arapiraca, da Triunfo
Pedras, do Grupo Coringa, da Andrade Distribuidor
e das seguintes instituições: Universidade Federal
Rural de Pernambuco, Universidade Federal da Bahia,
Universidade Federal de Rondônia, Universidade Fe‐
deral da Paraíba, Universidade Federal de Sergipe,
Instituto Nacional da Propriedade Industrial, Univer‐
sidade Estadual de Feira de Santana e do Instituto
de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira.
65
realizados 45 encaminhamentos de complexidades
para atendimentos no Hospital Universitário Professor
Alberto Antunes (HU), em Maceió. A maior parte dos
casos, segundo os integrantes do Barco, diz respeito
a atendimentos dermatológicos, com sugestão de
alta complexidade.
Barco da Saúde realiza mais de 110
consultas e 6 mil exames laboratoriais
Em dez dias, Expedição Científica percorreu 250 quilômetros
pelo Baixo São Francisco
Equipe que integrou o Barco da Saúde também fez coleta de sangue da população ribeirinha.
Eduardo Almeida e Rose Ferreira
A
Expedição Científica do Baixo São Francisco che‐
gou à sua quinta edição, em 2022, com uma no‐
vidade: pela primeira vez, contou com um barco ex‐
clusivo para serviços de saúde. E os resultados não
poderiam ter sido melhores: em dez dias, foram mais
de 110 consultas médicas e seis mil exames labora‐
toriais realizados, beneficiando a população de dez
cidades ribeirinhas dos estados de Alagoas e de Ser‐
gipe.
“O Barco da Saúde surge como uma forma da
Universidade promover assistência, porque a institui‐
ção não é composta só por ensino e pesquisa, mas
pela extensão também. O Barco tem o viés da assis‐
tência, que, na realidade, é a extensão. Essa iniciativa
busca garantir cuidados com os povos tradicionais
que vivem às margens do São Francisco e que utilizam
as águas do rio para o seu cotidiano”, explicou Eliane
Cavalcanti, vice-reitora da Universidade Federal de
Alagoas (Ufal) e responsável pelas ações do Barco
da Saúde.
66
Coube, então, à embarcação Indiana abrigar toda
a estrutura de saúde. No espaço, foi montado um
laboratório flutuante, no qual eram armazenadas
parte das amostras coletadas da população ribeirinha.
Outra parte do material era encaminhada para um
laboratório na cidade de Arapiraca, de modo a agi‐
lizar a conclusão dos trabalhos e a entrega dos re‐
sultados e dos laudos para a população beneficiada
pela ação.
“Terminava a consulta, terminava a triagem, e
a equipe da saúde não parava. Voltávamos para o
barco, para analisar, laudar os exames e liberar os
resultados. Fizemos hemograma completo, hemo‐
globina glicosilada, creatinina, TGO e TGP, urinálise,
PSA, sangue oculto nas fezes, exames citológicos,
ISTs e HPV. Estima-se que, por paciente, a gente te‐
nha feito em torno de 14 exames”, destacou a vicereitora da Ufal, Eliane Cavalcanti.
Após as consultas e os exames, os profissionais
do Barco da Saúde analisavam a necessidade de en‐
caminhamentos para outros serviços de saúde. Foram
Durante a expedição, mais de 500 pacientes fo‐
ram atendidos pelos profissionais que atuaram no
Barco da Saúde, um trabalho que só foi possível graças
à parceria estabelecida entre os organizadores da
Expedição e os gestores de saúde municipais.
“Eu sempre digo que ‘sonho que se sonha só é
meramente um sonho’, mas ‘sonho coletivo é um pro‐
jeto’. Tudo o que a gente faz de bom será sempre
um caminho sem volta. O caminho, agora, é melhorar
a iniciativa. A gente vai buscar melhorar sempre. Se
agora a gente levou três complexidades, quem sabe
a gente não leve mais uma para a 6ª edição? Ou quem
sabe a gente aumente um pouco a equipe?”, ques‐
tionou Eliane Cavalcanti.
Durante 10 dias, representantes de 27 instituições
percorreram 250 quilômetros durante a 5ª Expedição
Científica do Baixo São Francisco, levando ações de
educação e saúde para a população dos municípios
de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja
Nova, Penedo e Piaçabuçu, no estado de Alagoas,
e de Gararu, Propriá e Brejo Grande, no estado de
Sergipe.
“Antes de colocarmos o Barco na água, senta‐
mos com cada gestor municipal para termos uma
ideia do perfil do paciente que atenderíamos naque‐
le momento. Não foi uma demanda aleatória, já foi
uma demanda direcionada. Os pacientes que apre‐
sentavam algum problema vieram até nós e, em se‐
guida, demos uma devolutiva. Agora, nós vamos di‐
alogar com os gestores e discutir quais medidas serão
tomadas”, frisou Eliane Cavalcanti.
Ao longo desse período, foram realizadas a chi‐
pagem de 300 peixes, colhidas 60 amostras de TOG
e pesticidas, feito o peixamento de 100 mil peixes,
colhidas 60 amostras de água e 66 de microplásticos
e realizadas histopatologias de 120 peixes. Também
foram realizadas três palestras científicas transmiti‐
das ao vivo pelo Instagram da Ufal, somando mais
de quatro mil visualizações; duas mil visitas ao Oce‐
anário do Sesc-DF; foram vistados 15 escolas, quatro
sítios e oito comunidades, entre indígenas, quilom‐
Questionada sobre a continuidade do Barco da
Saúde, a vice-reitora da Ufal e responsável pelas
bolas e de artesãos; entregues três fossas agroeco‐
lógicas; e analisadas seis sub-bacias.
Vice-reitora Eliane Cavalcanti coordenou trabalho de assistência aos ribeirinhos, promovido pelo Barco da Saúde
Renner Boldrino
Rose Ferreira
ASSISTÊNCIA
“A gente sabe que as pessoas que vivem à mar‐
gem dos grandes centros, das grandes cidades, não
têm acesso a uma saúde de alta complexidade. O
nosso objetivo com o Barco da Saúde também foi
chegar nesse povo, chegar nessa população, e ten‐
tarmos rastrear alguns tipos de câncer que, até então,
caem na alta complexidade e que, às vezes, o paci‐
ente não chega a ter acesso”, complementou Eliane
Cavalcanti.
ações de saúde da Expedição Científica do Baixo São
Francisco se mostra otimista. De acordo com ela, esta
é uma iniciativa que não deve mais “ter volta”.
67
ALÉM-MAR
Roberta Brito
Festival de Música de Penedo leva
cultura alagoana para a Europa
Evento acontece no Brasil e em Portugal este ano; programação
inclui palestras, oficinas e apresentações musicais
Músico Joselho Rocha, integrante da Orquestra Sinfônica da Ufal, foi uma das atrações no Palco da Música na Noite Pernambucana
Eduardo Almeida
C
riado pela Universidade Federal de Alagoas
(Ufal) há 13 anos, o Festival de Música de Pe‐
nedo desembarca na Europa em 2023. Depois de pas‐
sar por Maceió, Arapiraca, Marechal Deodoro e se
fixar na cidade ribeirinha que dá nome ao evento, o
Festival também acontece em Portugal este ano, le‐
vando a cultura alagoana para o Velho Continente.
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A programação do evento inclui palestras, ofi‐
cinas, debates e apresentações culturais. Desde 2009,
quando surgiu como Jornada Pedagógica para Músi‐
cos de Bandas, o Festival realizou mais de sete mil
horas de atividades e certificou mais de três mil par‐
ticipantes. Tudo isso com a chancela da maior insti‐
tuição de ensino superior do estado.
Mas o caminho até a consolidação não foi fácil.
Conforme Marcos Moreira, professor do curso de Músi‐
ca da Ufal e idealizador do evento, à medida que o
Festival cresceu, novos desafios surgiram. O principal
deles tem sido viabilizar a estrutura logística para a
realização das atividades. O apoio da Universidade
e de parceiros tem se mostrado fundamental.
“Nossa maior dificuldade sempre é o patrocínio,
porque o Festival está ficando cada vez mais amplo
e precisa de recursos. A Universidade é apenas o ser
pensante do processo. Em nossa última edição, con‐
tamos com o apoio da própria Ufal, do governo de
Alagoas, da Prefeitura Municipal de Penedo e do Se‐
brae para viabilizar questões relacionadas à estrutura,
transporte e assegurar as apresentações”, ressaltou
Moreira.
O Festival de Música de Penedo busca alinhar
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“Nos últimos anos, nós ampliamos os fóruns re‐
alizados para contemplar temas como musicologia,
educação musical, presença das mulheres na música,
contexto da música gratuita, educação comunitária,
relação afro-brasileira dentro da música e regiona‐
lismo no Nordeste. Nós também oferecemos oficinas
de metais, de madeiras e, agora, a gente deve ofertar
oficina de cordas”, acrescentou o professor.
De acordo com Moreira, o Festival de Música,
atualmente, é um dos maiores eventos realizados
pela Ufal. “[O Festival] está enraizado como um grande
evento da Universidade. E, sendo um grande evento,
ele ajuda a divulgar todo o processo de licenciatura
em Música. Frise-se: é o único curso gratuito de li‐
cenciatura em Música do estado, naquela que é a
maior instituição gratuita de Alagoas, que é a Ufal”,
expôs.
Roberta Brito
Orgulhoso com os resultados obtidos, Marcos
Moreira também destaca a importância “extramuros”
que o Festival de Música de Penedo alcançou. “O
evento acontece em outro município, garantindo a
interiorização do curso de Música. Há ainda a ques‐
tão intercampus com outras universidades, com pes‐
soas que vêm de outras instituições para atuar no
evento. Além disso, pessoas da comunidade que pas‐
sam a entender como o curso de Música vem con‐
tribuindo para a própria sociedade”, observou.
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Professor e pesquisador Marcos Moreira é
o idealizador e coordenador-geral do Festival de
Música de Penedo e faz a Universidade Federal de
Alagoas dialogar com vários públicos, num trabalho
de extensão que promove a interiorização do
curso de licenciatura em Música e o intercâmbio
com outras intituições do Brasil e de Portugal
A organização do Festival de Música envolve,
hoje, cerca de 30 pessoas. Além de Marcos Moreira,
o evento conta com a participação da produtora cul‐
tural Ana Rodrigues - que faz parte da Coordenadoria
de Assuntos Culturais da Ufal - e de estudantes, que
se dividem entre bolsistas, voluntários e monitores
das atividades desenvolvidas.
Os resultados do Festival de Música de Penedo
podem ser conferidos em publicações produzidas
pela editora paulista Pimenta Cultural. Tanto em 2021
quanto em 2022, a editora lançou cinco livros, ela‐
borados por professores e pesquisadores alagoanos,
que mostram um pouco do trabalho realizado no es‐
tado. “São dez títulos, das mais diversas vertentes,
que expõem um pouco da produção científica rea‐
lizada na Ufal”, apontou Moreira.
Portugal
Marcos Moreira alinhava os últimos detalhes antes
da realização do evento que acontecerá em maio
deste ano em Portugal. Os acertos para a realização
das atividades na Europa envolvem diretamente o
Ministério da Cultura de Portugal e a Direção-Geral
das Artes de Portugal (DGArtes).
A proposta é promover o intercâmbio de conhe‐
cimento entre os brasileiros - os alagoanos, de forma
mais específica - e os portugueses. As edições rea‐
lizadas no Brasil já contam com a presença de agen‐
tes culturais europeus, o que também seria ampliado
pela parceria.
“A ideia é levar o nome de Alagoas, de Penedo
e da Universidade Federal para a Europa”, concluiu
o professor e idealizador do Festival de Música Marcos
Moreira.
Músicos de várias idades e
gerações participaram de
apresentações pelas
ruas da cidade histórica
de Penedo, durante os
desfiles e retretas de
bandas de músicas
Roberta Brito
ensino, pesquisa e extensão, fazendo com que o co‐
nhecimento produzido dentro da Universidade che‐
gue a uma parcela cada vez maior da população. Os
debates, as palestras e as oficinas contam com a par‐
ticipação de estudantes do ensino superior, mas prin‐
cipalmente com a presença de estudantes do ensino
fundamental e médio que integram bandas de músi‐
cas de diversos municípios de Alagoas.
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CULTURA
Circuito Penedo de Cinema coloca
Alagoas na rota do audiovisual no Brasil
Evento promovido pela Ufal chegou à sua 12ª edição em 2022,
reunindo grandes nomes do cenário local e nacional
Eduardo Almeida
A
cidade de Penedo, no Litoral Sul de Alagoas,
palco de grandes festivais nas décadas de 1970
e 1980, é o pano de fundo para a construção de uma
nova (e bela) história do cinema brasileiro. O município
ribeirinho sedia, desde 2011, iniciativas lideradas pela
Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que buscam
colocar o estado na rota do audiovisual no Brasil, reu‐
nindo grandes nomes do cenário local e nacional.
Se o passado nos remete ao Festival do Cinema
Brasileiro, o presente é construído pelo Circuito Pe‐
nedo de Cinema. A iniciativa agrega quatro eventos
consagrados do audiovisual: o Festival de Cinema
Universitário de Alagoas; o Encontro de Cinema Ala‐
goano; a Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental;
e o próprio Festival do Cinema Brasileiro. O evento
se tornou parte do calendário cultural do país.
A história do Circuito Penedo de Cinema tem
origem em 2011, quando um grupo de professores
da Ufal, ligados à área cultural, decidiu lançar o Circuito
de Cinema Universitário. O sucesso da iniciativa levou
os organizadores do evento a considerar a possibi‐
lidade de resgatar o antigo Festival do Cinema Bra‐
sileiro, que acontecia às margens do Rio São Fran‐
cisco entre 1975 e 1982, o que, de fato, ocorreu.
“Em 2016, decidimos pela retomada do Festival
do Cinema Brasileiro, a partir da sua 9ª edição, já que
ele foi encerrado em 1982. Colocamos o Festival de
Cinema Universitário, a Mostra Velho Chico, o Encontro
Acadêmico e o Festival Brasileiro em um caldeirão,
que passou a se chamar Circuito Penedo de Cinema.
Desde então, ele vem se fortalecendo”, explicou Sérgio
Onofre, coordenador-geral do Circuito Penedo de
Cinema.
A programação do evento cresce a cada ano e
conta com mostras, feiras, oficinas, apresentações
culturais e musicais, palestras, bate-papos, além, é
claro, da exibição de filmes. Tudo isso de forma gra‐
tuita e com a participação popular. Em 2022, foram
sete dias de programação (de 14 a 20 de novembro),
distribuída em três turnos.
“No ano de 2022, celebramos o retorno presen‐
cial do evento, porque, nas duas edições anteriores
[2020 e 2021], o Circuito Penedo de Cinema ficou
muito restrito em virtude da pandemia. Não trouxemos
realizadores, nem bandas de fora para tocar em Pe‐
nedo, por exemplo. A gente se concentrou na cidade,
com o público de Penedo, com os músicos de Pe‐
nedo, e realizou todas as outras atividades de forma
on-line”, lembrou Sérgio Onofre.
Conforme o coordenador-geral do evento, o Cir‐
cuito Penedo de Cinema cumpre um papel impor‐
tante no cenário audiovisual local e nacional. “De al‐
guma forma, [o evento] contribuiu com a revitalização
de espaços, como o Cine São Francisco, que era um
desejo latente na sociedade, e atende à memória
afetiva da população, que falava constantemente dos
antigos festivais que aconteciam na região”, acres‐
centou.
A 12ª edição do evento, que aconteceu em 2022,
reuniu grandes nomes do cenário local e nacional,
Paula Fernandes
Um dos pontos altos do Circuito é o projeto de levar crianças para assistirem aos filmes exibidos na Mostra de Cinema Infantil
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como a atriz Isabel Teixeira, que deu vida à persona‐
gem Maria Bruaca, na novela Pantanal, da TV Globo.
“É o quarto dia que estou aqui, mas parece que estou
há um mês, porque é muita riqueza, muito calor das
pessoas, um acolhimento ótimo em torno de um
festival de cinema”, relatou a atriz em vídeo publicado
nas redes sociais do Circuito.
Pedro Mechior, do Rio de Janeiro, ganhou prêmio de melhor filme
escolhido pelo júri popular do Festival Universitário
O mesmo sentimento foi compartilhado pela
primeira roteirista, diretora e produtora audiovisual
trans do estado da Paraíba, Danny Barbosa, uma das
convidadas do evento em sua mais recente edição.
“Esse encontro reúne artistas incríveis, obras incríveis
do cinema nacional. Já participei e sei da satisfação
e do carinho que envolve todo esse festival. Estaremos
juntos celebrando o cinema e a arte”, afirmou por
meio de redes sociais.
Programação
Além de reunir grandes nomes do cenário au‐
diovisual brasileiro, o Circuito Penedo de Cinema é
responsável pelo fomento à produção local e por
promover debates. Em sua página institucional, o Cir‐
cuito descrito como um espaço que busca reafirmar
“seu papel como instrumento para olhares e pers‐
pectivas sobre o vasto patrimônio audiovisual alago‐
ano e nacional, em diálogo com a educação”.
A programação da edição 2022 do Circuito Pe‐
nedo incluiu mostras de longa-metragem nacional,
mostra de cinema livre, mostra internacional de cinema
socioambiental, feira de empreendedores culturais,
festival de rock, mostras de cinema infantil, mostras
competitivas, além de oficinas e diversas apresen‐
tações culturais.
“De terça até sábado, só na Mostra de Cinema
Livre, nós exibimos um apanhado dos filmes apre‐
sentados nas últimas edições do Circuito. Ao todo,
só nessa mostra, foram exibidos 92 filmes. Além disso,
mais sete longas-metragens, filmes da mostra infantil
e das mostras competitivas”, destacou Onofre, coor‐
denador-geral do Circuito Penedo de Cinema.
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Expedito Cavalcante, coordenador da Unidade de Penedo da
Ufal; a atriz Izabel Teixeira; e o coordenador-geral do Circuito,
Sérgio Onofre, na noite de premiação
Arantos
Arantos
Além da participação da Universidade Federal
de Alagoas, o Circuito Penedo de Cinema conta com
o apoio do governo de Alagoas, por meio da Secretaria
de Estado da Cultura (Secult), do Instituto de Estudos
Culturais, Políticos e Sociais do Homem Contempo‐
râneo (IECPS), com patrocínio do Comitê da Bacia
Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), da Prefeitura
de Penedo e do Sebrae Alagoas.
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OPINIÃO
“Quando construímos parcerias,
transformamos a realidade”
Diana Aleixo, Mirelle Camargo e Josival Oliveira – coordenadores da Feira Agroecológica Novo Jardim
A
Feira Agroecológica Novo Jardim é uma iniciativa
do Instituto de Preservação dos Direitos Ambi‐
entais e Direitos Humanos – Vale do Sol, em parceria
com o Movimento de Libertação dos Sem Terra em
Alagoas e ocorre desde setembro de 2021. A parceria
com a Universidade Federal de Alagoas, no entanto,
antecede a ocorrência da Feira, visto que se conso‐
lidou com as ações de combate ao vírus causador
da covid-19, na distribuição de máscaras produzidas
pela Escola Técnica de Artes (ETA), e a orientação
do uso correto das máscaras na prevenção individual
e coletiva.
Além de promover o escoamento da produção
camponesa e a troca de experiências entre a agri‐
cultura familiar com comunidades inteiras nas áreas
rurais, urbanas e periurbanas, as feiras são espaços
de educação popular que costuram as relações so‐
ciais no Brasil, pela riqueza e pela diversidade cultural
de cada região. De acordo com Souza (2015), as feiras
também devem ser compreendidas como “espaços
educativos e pedagógicos não formais de aprendi‐
zagem, que revelam a dimensão educativa das ci‐
dades e da relação do trabalho com a formação hu‐
mana.”
Nesse sentido, a Feira Agroecológica Novo Jardim
é uma ferramenta pública geradora de saúde, cultura
e vivências agroecológicas. É um serviço de utilidade
pública que resgata costumes e tradições alimentares,
promove ações de orientação, oficinas, cineclube com
roda de conversas, atividades formativas abertas à
comunidade em que é realizada, bem como tem pos‐
sibilitado a integração de gerações em seus públicos,
além de ter se tornado um polo cultural em uma re‐
gião por vezes esquecida no circuito cultural em Ma‐
ceió e em Alagoas. A Feira é um verdadeiro laboratório
vivo da sociedade, em que as classes sociais se re‐
lacionam para além da relação comercial, já que o
encontro de costumes possibilita a aproximação entre
os sujeitos, sem distinção de classes.
Arquivo pessoal
Diana Aleixo, Josival Oliveira e Mirelle Camargo, coordenadores da Feira Agroecológica
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Integrando as dimensões histórica, econômica,
socioambiental e cultural da vida em sociedade e
tendo sua relevância já reconhecida na própria co‐
munidade do Novo Jardim, bem como em outros es‐
paços em que já foi realizada, como o Teatro Deodoro
e o bairro do Prado, e por diversas entidades e as‐
sociações comunitárias de Maceió e do estado, este
evento de interesse público possibilita o escoamento
da produção agroecológica da agricultura familiar,
oriunda de comunidades rurais do interior de Alagoas,
livre de venenos e a preço acessível em uma região
periférica, no bairro Cidade Universitária da capital,
ou seja, também compõe um movimento que se con‐
trapõe à hegemonia do agronegócio nos grandes
centros rurais e urbanos.
Durante os três dias de evento, em cada edição,
passam pela Feira centenas de pessoas, famílias mo‐
radoras da região e visitantes de outras localidades.
O público acolhido por 20 e até 50 feirantes – agri‐
cultores e agricultoras familiares, que vendem na Feira
a sua produção de manejo agroecológico, e por toda
a equipe de apoio, colaboradores voluntários – não
se caracteriza apenas enquanto consumidor dos pro‐
dutos à venda. A esse aspecto fundamental soma-se
o consumo direto de cultura, saúde, educação am‐
biental, uma releitura de ações pedagógicas – visitas
ecopedagógicas com informação e formação social.
Isso é possível porque o Instituto Vale do Sol
tem firmado parcerias imprescindíveis com movi‐
mentos sociais, instituições e coletivos organizados,
destacando a importância de preservação humana
conectada à sustentabilidade ecológica socioambi‐
ental e cultural. Iniciativas coletivas e voluntárias que
prezam pelo bem viver de todas as comunidades.
O diálogo dinâmico da comunidade acadêmica
a cada edição da Feira Agroecológica Novo Jardim
é movimentado em uma evolução de importantes
atores da Ufal. É importante salientar que as atividades
realizadas não se resumem à extensão, porque são
vários eixos que sustentam a instituição Academia.
A Feira Agroecológica Novo Jardim tem se revelado
um valioso campo para a prática do tripé pesquisa,
ensino e extensão. Tem sido palco de aulas de campo
com o corpo docente, discente e com rica participa‐
ção da comunidade, desde as famílias produtoras
da agricultura familiar, até as famílias consumidoras
das áreas de comunidades periurbanas da cidade
de Maceió.
Além disso, há a iniciativa de vários coletivos
organizados pelo alunado realizando mutirões de ma‐
nejo agroecológico em assentamentos e acampa‐
mentos da reforma agrária de Alagoas, em uma as‐
sociação entre teoria e práxis do conhecimento das
técnicas vindas do cotidiano nas famílias da agricul‐
tura familiar.
Esse trabalho se tornou um movimento, ativando
uma cadeia de fortalecimento da troca de saberes
e na compreensão da realidade entre o campo e a
cidade. A Sala de Cuidados Antônio Piranema da Ufal,
que realiza atendimentos ao longo de cada edição
da Feira Agroecológica Novo Jardim, tem realizado
debates e cuidados por meio das Práticas Integrativas
e Complementares em Saúde (PICS), permitindo aten‐
dimento de autocuidados para a população, acolhen‐
do essas pessoas e demarcando para a comunidade
a existência desse serviço no Sistema Único de Saúde
(SUS) e como acessá-lo em outros espaços.
Contamos com o Coletivo Sabiá Experimentos
Agroecológicos e o Coletivo DaTerra, pois o processo
organizativo da Feira Agroecológica Novo Jardim en‐
volve muitos colaboradores – design, filmes, criação
de conteúdo, mídia social, assessoria de comunicação
– e é essa rede de apoiadores que constrói em agru‐
pamentos ou individualmente o perfil e a dinâmica
deste projeto. Temos aproximadamente 15 alunas vo‐
luntárias e alunos voluntários, organizando ativida‐
des de formação, debates, cineclube, mobilização
A troca de informação chega a partir do fluxo
de circulação das pessoas nas edições da Feira Agro‐
ecológica Novo Jardim, grande oportunidade para
novas etapas com as visitas ecopedagógicas, trazen‐
do as comunidades urbanas, rurais, acadêmica, nas
parcerias com as escolas do ensino fundamental e
ensino médio, repassando os processos de produção
agroecológica, assim como a sobrevivência das fa‐
mílias, qual a forma de organização para o escoamento
da produção agroecológica em comunidades periur‐
banas na capital alagoana e no interior.
e mutirões importantes nas áreas de assentamentos
e acampamentos.
O apoio da Universidade Federal de Alagoas
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vem da da compreensão do reitor Josealdo Tonholo
e o pró-reitor de Extensão, Cézar Nonato Candeias,
que vivenciam cotidianamente a cada edição da Feira
Agroecológica Novo Jardim os seus desafios, mas
proporcionando uma série de trabalhos coletivos na
construção acadêmica dessa experiência estrutura‐
dora na consolidação econômica, social e política
no estado de Alagoas. E, com isso, demonstrando
alternativas de sustentabilidade para os camponeses
e a melhoria da qualidade de vida das famílias urbanas
a partir de alimentos da produção agroecológica.
Em uma dinâmica que beneficia diretamente
comunidades rurais, periurbanas e comunidades ur‐
bano-periféricas, a Feira Agroecológica Novo Jardim
defende o intercâmbio do produtor da agricultura
familiar com os consumidores finais, resgata o diá‐
logo entre o campo e a cidade (o que se expressa
na convivência durante a comercialização), oferece
à comunidade opções de acesso gratuito de pesqui‐
sa, estudo, lazer e cultura, além de praça de alimen‐
tação com culinária regional, exposição de casa de
farinha – demonstrando as etapas de processamento
da macaxeira até o produto final que é a farinha –,
casa do bolo, caldo de cana e as barracas, que são
verdadeiros pontos de variedade produtiva, resga‐
tando as memórias do campo.
Os resultados também se mostram relevantes
a partir do estímulo aos produtores da agricultura
familiar no campo e um permanente olhar empreen‐
dedor, reconhecendo a riqueza de sua força de tra‐
balho e visualizando o potencial da comercialização
da produção agroecológica pela agricultura familiar.
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