Discurso da vice-reitora Eliane Cavalcanti em reconhecimento Hermeto Pascoal
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Senhoras e senhores, boa noite!
Cumprimento as autoridades aqui presentes, a comunidade universitária,
os artistas e todas as pessoas que hoje celebram conosco este momento
histórico para a Universidade Federal de Alagoas.
Reunimo-nos neste Festival de Música, no coração de Penedo (cidade
que respira arte, cultura e memória) para um ato de grande significado: a
concessão, in memoriam, do Título de Doutor Honoris Causa da UFAL ao
mestre Hermeto Pascoal.
O título de Doutor Honoris Causa é o mais alto reconhecimento
concedido por nossa Universidade. É o gesto pelo qual o nosso Conselho
Universitário homenageia personalidades cuja trajetória se confunde com a
própria criação, com o conhecimento e com a liberdade de pensar e sentir o
mundo.
E eu aqui indago: quem, entre nós, representaria melhor essa integração
entre sabedoria, arte e vida do que Hermeto Pascoal?
O menino de Lagoa da Canoa que, desde cedo, ouvia o universo tocar.
Que fez da panela, do balde, do corpo, do vento e do silêncio matéria-prima de
sinfonia.
O músico que nos ensinou que tudo vibra — e que, portanto, tudo é música.
Hermeto foi, e sempre será, um mestre sem moldura. Um pesquisador da alma
sonora do Brasil.
Um inventor de linguagens que uniu o popular e o erudito, o regional e o
cósmico, o chão e o infinito.
Hermeto fez da música um território de liberdade, de invenção e de encontro.
Hoje, quando lhe concedemos o título de Doutor Honoris Causa,
reconhecemos o seu saber como sendo pleno, legítimo e transformador —
aquele que nasce da curiosidade, da escuta e do respeito à natureza da vida.
Hermeto nos mostrou que o conhecimento não é monopólio da academia: ele
nasce do povo, da experiência, da intuição e do improviso que faz surgir o
novo.
Este título é, portanto, uma homenagem da Universidade à genialidade
que não se aprende nos livros, mas que, ao mesmo tempo, nos ensina o
muitas vezes nenhum livro é capaz de dizer.
Infelizmente, este diploma não chegou a tempo de ser entregue em suas
mãos. Mas chega hoje, com emoção e reverência, ao coração de todos nós.
Chega às mãos de seu filho, que o representa com orgulho e ternura, e que
traz em si a continuidade desse legado inestimável.
E, para quem acredita — como Hermeto acreditava — que a vida não
tem fim, que a energia nunca se desfaz, apenas se transforma em som, em
vento, em luz, podemos dizer, com certeza, que Hermeto Pascoal recebe, de
onde estiver, esta homenagem: talvez sorrindo, talvez improvisando um tema
novo, talvez regendo, com seu inconfundível chapéu, uma orquestra agora de
estrelas.
Hermeto vive.
Vive nas partituras que ainda não foram escritas.
Vive nas crianças que descobrem o som da vida.
Vive nos músicos que ousam inventar.
E, a partir deste instante, viverá também entre todos os doutores e todas as
doutoras desta casa — porque a UFAL o acolhe, solenemente, como Doutor
Honoris Causa, em reconhecimento à sua imensa contribuição à cultura, à arte
e ao pensamento brasileiro.
Que este título seja também um compromisso da Universidade Federal
de Alagoas: o de seguir cultivando, com liberdade e sensibilidade, o poder
transformador da criação e da arte como caminho de conhecimento e
humanidade.
Hermeto, nosso mestre eterno, que as notas do seu sopro continuem
atravessando o tempo, e que, neste festival, cada acorde, cada voz e cada
silêncio tenham significado um “obrigado” em forma de música.
E, para encerrar, deixo as palavras do poeta alagoano Lêdo Ivo, que
parecem ter sido escritas para este instante:
“A música é o ar que se respira.
É o invisível que nos sustenta.
É o dom que o homem recebeu para lembrar que a vida é som.”
Muito obrigada.