Pesquisa da Ufal alerta para manejo do fogo no combate à mudança climática

Uma das conclusões do estudo é que evitar o fogo no pico da seca na Amazônia pode ajudar na mitigação climática e na manutenção da floresta

Por Ascom Ufal com Letras Ambientais
- Atualizado em 28/02/2025 16h28
Fogo descontrolado costuma trazer impactos devastadores para os ecossistemas, especialmente em florestas tropicais
Fogo descontrolado costuma trazer impactos devastadores para os ecossistemas, especialmente em florestas tropicais

Um novo estudo publicado pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) no periódico internacional Atmosphere, identificou o impacto dos incêndios florestais na Bacia da Amazônia sobre as emissões de gases de efeito estufa (GEE), nas últimas duas décadas (2001-2020).

Incêndios florestais frequentes e furiosos é uma das consequências mais nefastas da mudança climática. O fogo descontrolado costuma trazer impactos devastadores para os ecossistemas, especialmente em florestas tropicais. Mas o que pouco se fala no Brasil é que o fogo pode ser usado como ferramenta de manejo para evitar incêndios florestais de grandes proporções.

Concentrar as queimadas fora do pico climático crítico já é uma prática utilizada em alguns países, para ajudar na conservação da biodiversidade e na redução das emissões. Na Austrália, por exemplo, a queima precoce (no início do período seco) tem sido usada, de forma experimental, para evitar grandes incêndios posteriores, que se agravam durante a seca. O uso controlado do fogo é uma prática milenar adotada por culturas indígenas, em baixa escala, para limpeza da terra.

Na pesquisa feita pelos pesquisadores da Ufal, foi identificado que concentrar o fogo em períodos específicos do ano contribui para reduzir o impacto das emissões de carbono (CO) e nitrogênio (NO2), liberados pelos incêndios florestais. Uma das conclusões do estudo é que evitar o fogo no pico da seca na Amazônia pode ajudar na mitigação climática e na manutenção da floresta.

A queima controlada é feita em pequenas extensões, ainda com umidade do solo relativamente alta, no início da estação seca e em condições atmosféricas adequadas. Assim, o risco de o fogo se alastrar diminui e apenas a camada superficial do solo é afetada. Essa mudança na sazonalidade do fogo representa um novo paradigma em relação ao seu uso: de grandes incêndios, no auge da seca, para pequenas queimadas, com baixas emissões de carbono, no início da seca.

Segundo o professor Humberto Barbosa, meteorologista, fundador do Laboratório Lapis e responsável pelo estudo, o fogo é uma das poucas ferramentas disponíveis em locais com poucos recursos para limpeza da terra, por ser eficaz e barato. “Embora o cenário ideal seja não utilizar essa prática, é fato que as queimadas fazem parte da cultura da população. O grande problema é quando uma queimada pequena se alastra e se transforma em um incêndio florestal de grande proporção”, afirma.

Por isso, a necessidade de pesquisas para orientar políticas quanto ao uso controlado o fogo, para conservação da biodiversidade e mitigação climática. Mas cada região/localidade exige uma abordagem específica, para cumprir objetivos ecológicos e socioeconômicos.

Dentre as estratégias recomendadas estão: evitar as queimadas no pico da seca e concentrá-las no início dessa estação. “É uma forma de manter a biodiversidade e a resiliência dos ecossistemas de forma mais eficaz contra os incêndios mais graves e devastadores”, destaca o pesquisador.

Amazônia

A pesquisa identificou que a variação mensal do fogo na Amazônia começa a aumentar em julho, atinge o pico em agosto e setembro, diminuindo a partir de outubro. Foram identificados picos simultâneos de incêndios e de emissões de gases de efeito estufa durante os meses mais secos (agosto e setembro).

As maiores áreas de vegetação queimada foram observadas desde o sul até o leste da Bacia Amazônica, havendo relação direta com o uso e cobertura da terra. Essas áreas, conhecidas como “arco do desmatamento”, estão mais degradadas pela remoção da cobertura vegetal e pelas queimadas, predominando savanas e pastagens. Também são as áreas mais propensas aos impactos da seca.

No estudo, a avaliação do percentual médio do índice de cobertura vegetal, identificou perda de cerca de 50% da cobertura vegetal nessas áreas, ao longo das suas décadas.

Saiba mais

De acordo com a pesquisa, nas últimas duas décadas, incêndios florestais na Amazônia tiveram forte impacto nas emissões de gases de efeito estufa. Esses gases ficam retidos na atmosfera e pioram a mudança climática. Um padrão que se repetiu em todos os anos analisados foi um aumento abrupto das emissões de CO e NO2, derivadas dos incêndios, durante a seca (julho a setembro).

Para o professor Humberto, embora já existam projetos importantes de manejo do fogo para mitigação climática, ainda há controvérsias, tendo em vista sua complexidade. É que os resultados dependem de vários fatores, como o tipo de vegetação, mudanças no uso e cobertura da terra, topografia, característica climática de cada ecossistema, entre outros fatores.

“Os padrões de emissões de carbono e nitrogênio liberados pelo fogo dependem da quantidade total de biomassa queimada, da intensidade do fogo e do volume de emissões liberadas. Por isso, a complexidade dos vários fatores que devem ser analisados, antes de se recomendar se é promissor o uso do fogo como ferramenta de manejo para determinado ecossistema”, explica.

A mudança climática piora a situação dos incêndios florestais, em razão das secas repetidas e intensas, além das altas temperaturas. O clima mais quente e seco torna o ambiente propício ao aumento da queima da vegetação pela ação humana, com incêndios mais severos e frequentes.

O grande risco da expansão do fogo, intensificada pelo aquecimento global, é transformar biomas sumidouros de carbono, essenciais para o Planeta, em fontes emissoras desse poluente. É o caso da região da Amazônia, que se tornou mais vulnerável aos incêndios com a mudança climática.

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