Missão acadêmica leva Ufal à conferência e pesquisa de campo em Angola

Viagem financiada pela Fapeal reuniu atividades de pesquisa, conferência e articulação para futuras parcerias entre instituições brasileiras e angolanas

Por Jessyka Faustino - jornalista
Professora Flávia Maria de Carvalho e Paulo Nicolau
Professora Flávia Maria de Carvalho e Paulo Nicolau

A professora Flávia Maria de Carvalho, docente de História da África da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e integrante do Laboratório de História da África e das Afro-Brasilidades (Lahafro), esteve em Angola para uma série de atividades acadêmicas, de pesquisa e de articulação institucional. A viagem foi financiada por edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) e teve como ponto de partida um convite da professora Idalina Freitas, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), vinculada à equipe do projeto “Dores do Atlântico”, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Conferência apresenta panorama dos estudos africanos no Brasil

Entre as atividades realizadas durante a agenda em Angola esteve a conferência “Conexões históricas: panorama dos estudos africanos nas universidades brasileiras”, realizada em 28 de setembro, na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, em Luanda. A atividade foi destinada a estudantes de mestrado e doutorado da instituição e contou com a participação das professoras Flávia Maria de Carvalho, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e Idalina Freitas, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

A conferência teve como objetivo apresentar um panorama da produção acadêmica sobre os estudos africanos nas universidades brasileiras, tomando como referência o levantamento realizado pela Coordenação Nacional do Grupo de Trabalho de História da África da Associação Nacional de História (ANPUH). A atividade também abriu espaço para o debate sobre os caminhos percorridos pela área no Brasil e as possibilidades de aproximação e cooperação com instituições angolanas.

A apresentação partiu das transformações pelas quais os estudos africanos passaram no Brasil nas últimas décadas, considerando, entre outros aspectos, os impactos da Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira na educação brasileira.

A presença de pesquisadores brasileiros na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto também contribuiu para aproximar experiências acadêmicas dos dois países e discutir possibilidades de construção de redes de pesquisa e intercâmbio voltadas aos estudos sobre África e suas conexões históricas com o Brasil.

Pesquisa de campo no Cuanza Sul

A agenda da professora em Angola também contou com uma experiência de pesquisa de campo no município de Calulo, localizado na província do Cuanza Sul. A visita foi realizada por meio da mediação de Graciete Antas e possibilitou o contato com o sobado local e uma entrevista com o atual soba, Paulo Nicolau.

A atividade dialoga diretamente com a trajetória de pesquisa desenvolvida por Flávia Carvalho desde o mestrado, dedicada ao estudo das relações estabelecidas entre os agentes da administração portuguesa e os poderes locais em Angola, especialmente entre os séculos XVII e XVIII.

Para a professora, estar no território e dialogar diretamente com representantes da organização política local permitiu observar aspectos que contribuem para novas interpretações sobre as formas de organização das sociedades angolanas.

“Estar ali com outros membros da elite política do Calulo evidenciou a força das tradições e a coexistência entre diferentes esferas de poder, que juntas ordenam e organizam diferentes áreas da vida e da sociedade da região”, destaca Flávia Carvalho.

Segundo a pesquisadora, o contato com a realidade local também reforça a necessidade de revisitar conceitos utilizados na produção acadêmica sobre a História da África. “Estudar histórias dos sobados ambundos exige a revisão de conceitos que fazem parte de nosso vocabulário, o que contribui diretamente para novas leituras e interpretações sobre temas como a coexistência entre os poderes invisíveis e os poderes visíveis que agem e interferem no cotidiano da população”, explica.

Diálogo com instituições angolanas

A passagem pelo Cuanza Sul também possibilitou ampliar o diálogo com diferentes representantes da região. A professora participou de uma entrevista em uma rádio local, de uma conversa com o prefeito e seus assessores e de uma reunião institucional com o diretor do Instituto Superior Politécnico do Libolo, Octávio Spíndola.

Durante o encontro, foi manifestado interesse na construção de diálogos e ações conjuntas com representantes das universidades brasileiras envolvidas nas atividades, entre elas a Ufal, a Unilab, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal Fluminense (UFF).

A agenda desenvolvida em Angola, portanto, articulou diferentes dimensões da atuação universitária: produção de conhecimento, pesquisa de campo, divulgação científica e aproximação institucional. Para a Ufal, a participação da professora Flávia Carvalho contribui para ampliar os intercâmbios acadêmicos relacionados aos estudos africanos e fortalecer redes de pesquisa e cooperação entre Brasil e Angola.

A experiência também reafirma a importância da internacionalização da pesquisa e da construção de diálogos acadêmicos que considerem os territórios, os sujeitos e os diferentes saberes envolvidos na produção das Histórias da África

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