Pesquisadora realiza curso de leitura em unidades prisionais do estado

Grupo de Pesquisa e Extensão Educação em Prisões coordenado por professora do Cedu forma monitores de leitura e pretende chegar nas nove unidades prisionais em Alagoas

Por Ryan Charles - estudante de Jornalismo
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Ao término do curso, os participantes são certificados pela Ufal, com uma carga horária de 60 horas, como forma de dar uma oportunidade para que essas pessoas possam construir sua jornada fora da prisão
Ao término do curso, os participantes são certificados pela Ufal, com uma carga horária de 60 horas, como forma de dar uma oportunidade para que essas pessoas possam construir sua jornada fora da prisão

Foi Paulo Freire, grande filósofo e educador brasileiro, que defendeu a ideia de que o estudante não é uma parte vazia a ser preenchida, mas, sim, um sujeito histórico que traz consigo uma bagagem de vida, muitas vezes marcada pelas desigualdades, pela exclusão e pelo sofrimento social, e que só conhecendo suas mazelas e cicatrizes é que o ensino-aprendizagem se faz libertador.

E é seguindo a lógica freireana que a professora Conceição Valença, do Centro de Educação (Cedu) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), coordena o Grupo de Pesquisa e Extensão Educação em Prisões (GPEP), que tem proporcionado a leitura e processos de aprendizagem para pessoas privadas de liberdade por meio de ações educativas nos presídios do estado.

Com atividades voltadas para pessoas privadas de liberdade desde o ano 2000, em Pernambuco, ao chegar à Ufal, em 2015, a professora submeteu o primeiro projeto ao Pibic, em 2016, para conhecer o sistema prisional no estado de Alagoas e nele, a educação. Com a aprovação do projeto do Pibic, fez uma seleção com três estudantes da Pedagogia, orientou a pesquisa e, a partir dela, teve mais elementos para submeter uma proposta para a criação do GPEP, em 2017.

“A criação foi aprovada em plenária aqui no Cedu, por unanimidade. Logo em seguida, no mesmo ano, submeti uma proposta para uma disciplina eletiva de “Políticas Públicas para Educação em Prisões”, que foi ofertada e inserida no projeto pedagógico do curso de Pedagogia”, relembrou.

Atualmente, o GPEP é formado por estudantes e professores da graduação e da pós-graduação de diferentes cursos da Ufal, também por docentes da Educação Básica, policiais penais e demais servidores da Secretaria de Ressocialização e Inclusão Social (Seris), bem como por profissionais de variadas áreas de conhecimento, participantes da comunidade acadêmica.

Quanto ao Curso de Monitores de Leitura no Sistema Prisional, é realizado em parceria com a 16ª Vara de Execuções Penais (VEP), com a Secretaria de Ressocialização e Inclusão Social (Seris) e com o Conselho da Comunidade de Maceió (CCM), proporcionando oportunidades de formação de monitores para a promoção da leitura e da escrita no sistema prisional articulado ao Projeto “Livros que Libertam”.

A professora Conceição adentrou o projeto de formação de monitores de leitura com o propósito de viabilizar uma formação básica a esses monitores dentro do sistema prisional para que eles possam, além de reduzir suas penas, contribuir com o processo de leitura dos seus companheiros de cela.

“O objetivo do curso é contribuir com a formação desses monitores, porque, desde quando iniciou a ação de monitoria no “Projeto livros que Libertam” cada um fazia do seu jeito, a partir do que entendia sobre como ajudar os demais leitores e do entendimento que tinham do que significa ser monitor”, contou.

A professora explicou que o grande diferencial da ação é que não há exigência de o participante saber ler, basta se interessar pela leitura para que a equipe do projeto proporcione o aprendizado, possibilitando que os textos sejam lidos para quem ainda não sabe ler a palavra, mas que possa ser interpretados por eles.

“A formação aborda temas como a leitura como direito, o papel do monitor de leitura, técnicas de leitura, leitura performática, técnicas de teatro, gêneros e tipos de texto, organização de biblioteca, dentre outros. Os participantes também mantêm um diário de monitoria, no qual registram as atividades realizadas, dificuldades, sentimentos, inseguranças e avanços observados durante a participação no curso e a atuação nos módulos e celas”, contou.

Ao término do curso, os participantes são certificados pela Ufal, com uma carga horária de 60 horas, como forma de dar uma oportunidade para que essas pessoas possam construir sua jornada fora da prisão, “isso é algo que motiva demais, porque essas pessoas, mais cedo ou mais tarde, vão sair do sistema prisional e há uma dificuldade muito grande, uma resistência imensa da sociedade para acolher essas pessoas por várias razões”. Mas essas pessoas, ao saírem da prisão e estarem aqui na condição de egressas do sistema prisional com um certificado de um curso de extensão da Ufal, podem ser vistas com outro olhar pelas pessoas”, destacou.

As ações extensionistas são ganho para quem estuda e ganho para quem participa, já que garantem a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. “Os estudantes que têm interesse participam. Acontece muito assim: geralmente, eles primeiro fazem a disciplina eletiva, daí demonstram interesse em participar do GPEP. No GPEP, muitos tiram dessa experiência o seu objeto de pesquisa para o Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC, por exemplo”, complementou.

Ações na prática

Ainda sobre o curso de monitores, o primeiro curso-piloto foi realizado no Presídio Baldomero Cavalcanti, no segundo semestre de 2025. Na unidade, havia 100 monitores de leitura, com cada monitor atendendo aproximadamente de 12 a 15 pessoas privadas de liberdade. Já em 2026, a formação foi realizada em mais dois presídios, no Presídio Feminino Santa Luzia, concluído no início de agosto e no Presídio Cyridião Durval, com encerramento previsto para o final de novembro.

Segundo a professora, a proposta do projeto é ser realizada em todas as demais unidades prisionais do estado. “Pretendemos levar a formação até as nove unidades prisionais de Alagoas: oito localizadas no complexo prisional de Maceió e o Presídio do Agreste, em Girau do Ponciano. A previsão apresentada pela professora é que a formação chegue ao Presídio do Agreste no segundo semestre de 2027”, revelou.

Um dos grandes diferenciais da atuação do GPEP é o acolhimento que os integrantes do grupo dão às pessoas privadas de liberdade. Antes de todas as formações se iniciarem nas unidades prisionais, existe um momento de escuta dos participantes, no qual os monitores de leitura são ouvidos e, para a professora, o momento é essencial.

“Nós fazemos isso porque cada unidade é única, cada grupo de monitores é único e cada monitor é único. Então, precisamos dessa sensibilidade, principalmente com relação às necessidades e dificuldades individuais, que terminam por caracterizar as dificuldades do grupo, de um grupo de monitores”, explicou.

E com as atividades também vêm os desafios. Ainda que eles consigam doação de livros e de material didático graças à parceria com o Conselho da Comunidade de Maceió (CCM), o calor, o barulho, os espaços apertados e diversas dificuldades podem prejudicar o processo de aprendizagem. Mas, ainda assim, a professora diz que esses percalços são apenas parte do seu principal objetivo, que é incentivar a leitura na vida dessas pessoas.

“Está na Constituição, no artigo 205 que todos nós temos direito à educação. Seja educação escolar, seja educação não escolar. Algo também que é importante dizer é que o único direito que essas pessoas que estão em privação de liberdade perdem no processo em que estão custodiadas no sistema prisional é o direito de ir e vir. Todos os outros direitos permanecem, elas continuam tendo esses direitos. Precisamos entender que, apesar dos estigmas e da resistência que a população tem, todo ser humano, ao meu ver, precisa de pelo menos de uma oportunidade”, ressaltou.

“Eu não sou da Justiça, eu sou da educação”

Para a professora Conceição, o papel que os educadores realizam à frente da educação é essencial para “esperançar”, como dito por Paulo Freire, a vida das pessoas. Ao longo dos seus 25 anos de trabalho voltados a pessoas privadas de liberdade, contou que nunca foi de seu interesse saber o motivo das prisões, mas é da sua responsabilidade contribuir com os processos educativos.

“Eu não sou da área de direito. Eu não posso julgar ninguém, não tenho esse direito. Isso elas vão tratar na Justiça e eu sou da educação. Então, compete a mim e às pessoas que se engajam nesse trabalho darmos a nossa contribuição no processo de formação humana, de formação cidadã. Nós temos essa condição ontológica de ser mais, de pensarmos melhor. O processo educacional não é só aquele que acontece na escola”, falou.

Relacionado a isso, a docente aproveitou para ressaltar o trabalho da Ufal enquanto formadora de docentes, destacando o papel da universidade como a maior universidade pública do estado, formando estudantes da graduação em licenciatura e assumindo o papel de responsabilidade social que uma universidade deve ter.

“Futuramente, esses profissionais poderão atuar no sistema prisional, porque o campo de atuação dos licenciados é amplo. Por isso, desde a criação do GPEP, fazemos um trabalho sistematizado e contínuo, com a participação de estudantes de graduação e da pós-graduação de diversas áreas de conhecimento, e isso é muito rico. É nessa relação da universidade com a sociedade civil e com as instâncias que são parceiras que vamos dialogando, identificando desafios e nos empenhando para enfrentar e superar os desafios na medida do possível”, relembrou.

A docente entende que é se empenhando que as mudanças acontecem e é pela universidade, pela educação e, principalmente, por meio da leitura que as pessoas conseguem vislumbrar possibilidades para transformação humana e cidadã. “Ao construir conhecimento, você vai poder intervir, contribuir com a sua formação e com as pessoas que estão nas relações interpessoais com você na sociedade em que vive. A leitura proporciona esse processo de construção do conhecimento e, consequentemente, de melhorias suas como ser humano e de todo o seu entorno”, pontuou.

Por fim, para a docente, o que a mantém com o brilho no olhar no trabalho, mesmo em meio a essas pessoas que enfrentam diariamente tantas dores, é gostar do que faz, é poder motivar essas pessoas a entenderem que há possibilidades de um amanhã diferente, também a gratidão expressa pelos monitores no fim de cada formação. “Eu já ouvi depoimentos do tipo: ‘Professora, quando eu estou aqui dentro, eu esqueço que estou na prisão’. Eu gosto muito do que faço. É isso que me dá prazer. Eu digo que não sei quando vou querer sair da Ufal, porque, enquanto eu puder fazer esse trabalho, eu vou fazer, pra mim é uma missão”, finalizou.

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