Estudo aponta que pandemia deixou rastro de mortes por álcool e drogas no Brasil

Pesquisa liderada pela Ufal identificou aumento de até 26% dos óbitos nos primeiros anos após a covid-19

Por Manuella Soares - jornalista

Além do vírus, uma marca preocupante alertada por pesquisadores: depois da pandemia de covid-19, houve um crescimento contínuo no número de mortes associadas ao consumo de drogas e álcool no Brasil. Um estudo ecológico e de base populacional liderado pelo professor Márcio Bezerra, do Complexo de Ciências Médicas e de Enfermagem, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Campus Arapiraca, analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) entre 2015 e 2022 e revelou um aumento expressivo dessas mortes durante os três primeiros anos da pandemia de covid‑19.

Os autores identificaram variações percentuais de óbitos de 18,3% em 2020, 22,4% em 2021 e 26% em 2022, em comparação com o número esperado, quando foram registradas mais de 25,9 mil mortes. No total, foram 178 mil mortes relacionadas ao uso de substâncias psicoativas, sendo mais de 80% associadas ao álcool, principal vetor do problema no país. Os pesquisadores relacionam esse salto de mortalidade a uma epidemia colateral decorrente das interrupções provocadas pela pandemia.

“O estudo revela um aumento alarmante e sem precedentes nas taxas de mortalidade por álcool e drogas durante a pandemia de covid-19 em todos os estados do Brasil. Identificamos que o isolamento social, a crise econômica e a interrupção de serviços de saúde mental exacerbaram vulnerabilidades pré-existentes. Estes dados são um alerta urgente para a necessidade de políticas de saúde mental e redução de danos que sobrevivam a períodos de crise sanitária”, ressaltou o professor Márcio.

Os dados da pesquisa foram publicados na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, considerada o padrão-ouro da literatura médica mundial. “Este espaço não é apenas um reconhecimento de prestígio, mas a validação de que a ciência que produzimos aqui é rigorosa, ética e capaz de pautar o debate global sobre saúde pública”, reforçou o professor do Campus Arapiraca, que também faz parte dos Programas de Pós-graduação em Ciências da Saúde da UFS e da Ufal.

Regiões mais impactadas

A análise do estudo feita por regiões mostrou os maiores aumentos no Nordeste, Sudeste e Sul, e quase todos os estados registraram crescimento nos óbitos, com casos extremos em, Pernambuco, Amapá e Tocantins, que tiveram elevações superiores a 50% em determinados anos.

As estatísticas apontam que a maior parcela das mortes durante o período foi atribuída a condições ligadas ao consumo de álcool. As tendências temporais indicaram que, enquanto as taxas eram estáveis ou em queda antes da pandemia em algumas regiões, houve aumento significativo a partir de 2020, quebrando esse padrão no Brasil depois que a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia.

A pesquisa utilizou modelos de regressão Joinpoint, séries temporais interrompidas (modelo ARIMA) e mapas coropléticos para análise espacial, cobrindo todo o território nacional.

Epidemia entre jovens e mulheres

De acordo com os dados publicados na revista The Lancet, homens e mulheres apresentaram aumento das taxas, sendo os homens concentrando o maior número de mortes e as mulheres com crescimento proporcional mais intenso, chegando a média anual de 4,6%, contra os 3,6% de aumento entre o sexo masculino.

Já o recorte da pesquisa por faixa etária identificou que houve aumento especialmente em jovens de 20 a 39 anos (AAPC = 2%) e em pessoas com 60 anos ou mais (AAPC = 1,8%). Análises de séries temporais interrompidas confirmaram uma mudança significativa no número de óbitos a partir de março de 2020.

“A pesquisa reforça a importância da aplicação de técnicas estatísticas robustas na análise de bancos de dados públicos do Sistema Único de Saúde [SUS], evidenciando o potencial dessas informações para a geração de conhecimento científico de alta qualidade e para o aprimoramento das políticas públicas em saúde”, destacou a professora de Epidemiologia do curso de Medicina da Ufal Arapiraca, Maria Amélia Gurgel, coautora do trabalho.

Relevância e alerta

Entre as limitações apontadas no trabalho estão possíveis vieses dos dados secundários do SIM, como subnotificação, atrasos no registro e imprecisões na codificação das causas de morte, além da ausência de informações sobre gênero e raça/etnia.

Mesmo assim, os autores afirmam que os achados fornecem evidências robustas sobre o impacto da pandemia nas mortes relacionadas ao álcool e às drogas no Brasil e concluem pela urgência de intervenções públicas para mitigar consequências semelhantes em crises futuras.

Também assinam o estudo os pesquisadores Lucas Almeida Andrade; Wandklebson Silva da Paz; Glauber Rocha Monteiro; Karina Conceição Gomes de Araújo; Allan Dantas dos Santos; Carlos Dornels Freire de Souzag; Álvaro Francisco Lopes de Sousaoi; Lariane Angel Cepasj; Ana Paula Morais Fernandesj; Débora dos Santos Tavaresk; e Tatiana Rodrigues de Mourae, sob coordenação do professor Márcio, da Ufal.

“Ao liderarmos um estudo desta magnitude, colocamos a Ufal na elite da produção intelectual internacional. É a prova inequívoca de que a universidade pública de qualidade produz conhecimento que salva vidas e orienta decisões governamentais ao mais alto nível", finalizou Márcio Bezerra-Santos.

 

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