Pesquisa investiga fatores genéticos no tratamento da esquistossomose
Trabalho está em fase de coleta em municípios alagoanos e busca contribuir para o aperfeiçoamento dos protocolos terapêuticos adotados no SUS
- Atualizado em
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) está ajudando a responder uma questão importante para a saúde pública brasileira: Por que um mesmo medicamento pode apresentar efeitos diferentes entre pessoas que vivem na mesma comunidade e enfrentam a mesma doença? A partir dessa pergunta, pesquisadores da Universidade investigam como fatores genéticos da população podem influenciar a resposta ao Praziquantel, principal medicamento utilizado no tratamento da esquistossomose no Brasil.
A esquistossomose é uma doença parasitária crônica que ainda representa um desafio significativo para a saúde pública, especialmente em regiões marcadas por vulnerabilidades sociais, dificuldade de acesso ao saneamento básico e maior exposição a ambientes de risco. Mesmo com avanços nas estratégias de controle, a enfermidade segue presente em diversas áreas endêmicas do país, atingindo populações que convivem historicamente com condições propícias à transmissão.
No Brasil, o tratamento da doença depende exclusivamente do Praziquantel, medicamento amplamente utilizado por sua eficácia e segurança. Mas estudos científicos já demonstram que a resposta terapêutica ao fármaco pode variar entre os indivíduos. Em alguns casos, há diferenças na eficácia do tratamento e até na ocorrência de efeitos adversos. Essa variabilidade tem despertado o interesse da comunidade científica, sobretudo pelo impacto que pode causar nas ações de controle da esquistossomose em escala populacional.
É nesse contexto que surge o projeto Farmacogenômica da resposta ao Praziquantel e o impacto no tratamento da esquistossomose na população brasileira miscigenada. A proposta busca compreender de que forma variações genéticas, especialmente em genes relacionados à metabolização de medicamentos, podem interferir na forma como o organismo responde ao tratamento. A investigação pode ajudar a explicar falhas terapêuticas, diferenças de resposta entre pacientes e possíveis reações adversas ao medicamento.
O estudo é coordenado pelos pesquisadores da Ufal Vinicius de Albuquerque Sortica e Müller Ribeiro Andrade, e envolve uma parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa é financiada pela Chamada nº 21/2023 – Estudos Transdisciplinares em Saúde Coletiva, com apoio do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit), da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde (Sectics), do Ministério da Saúde, além do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Atualmente, o projeto está na fase de coleta de amostras biológicas em diferentes municípios alagoanos, contemplando tanto áreas urbanas quanto rurais. A iniciativa é realizada em articulação com as secretarias municipais de saúde e conta com a participação direta da população. O estudo também reúne informações clínico-epidemiológicas e dados genéticos dos participantes, permitindo um acompanhamento mais amplo sobre adesão ao tratamento, resposta terapêutica e ocorrência de efeitos colaterais.
Segundo os pesquisadores, esse desenho de estudo é fundamental para compreender a esquistossomose de forma mais integrada, considerando não apenas o agente causador da doença, mas também as características biológicas e sociais da população afetada.
Ciência mais perto da população
Além da produção científica, o projeto também se destaca por incorporar ações de extensão e educação em saúde como parte estratégica de sua atuação. A proposta é aproximar o conhecimento acadêmico da realidade das comunidades envolvidas, fortalecendo o diálogo entre universidade, serviços de saúde e população.
Durante o Sinpete, por exemplo, a equipe promoveu atividades de sensibilização com a comunidade, abordando temas como prevenção, diagnóstico e tratamento da esquistossomose. As ações também incluíram discussões sobre a importância dos fatores genéticos na resposta aos medicamentos, ampliando o acesso da população a informações qualificadas sobre saúde e pesquisa científica.
Para o professor Müller Ribeiro Andrade, esse contato direto com a comunidade fortalece o papel social da universidade pública. “Essas ações fortalecem o diálogo entre ciência e sociedade, promovendo acesso à informação qualificada e incentivando a participação social”, destacou. O grupo também mantém ações de divulgação científica por meio do Instagram @schisto_gene, ampliando o alcance das informações produzidas pelo projeto.
Reconhecimento científico
A relevância do trabalho já tem alcançado repercussão para além do ambiente local. A equipe foi premiada no 17º Simpósio Internacional sobre Esquistossomose, realizado em Salvador (BA), recebendo o prêmio de melhor trabalho científico pelo estudo Pharmacogenetics and Praziquantel: CYP2C19 phenotypes frequencies in Alagoas state, Brazil.
O reconhecimento reforça a relevância da pesquisa no campo da farmacogenética aplicada às doenças negligenciadas. “O resultado evidencia a importância do estudo e sua contribuição para o avanço do conhecimento nessa área, especialmente em doenças que ainda afetam populações socialmente vulneráveis”, ressaltou o professor Müller.
Contribuições para o SUS
De acordo com os pesquisadores, os resultados obtidos poderão subsidiar, no futuro, a readequação e a otimização dos protocolos terapêuticos atualmente adotados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), levando em conta a diversidade genética da população brasileira. A expectativa é que esse conhecimento contribua para tratamentos mais eficazes, com menor risco de falhas terapêuticas e melhor acompanhamento dos pacientes.
“Essa abordagem pode tornar o tratamento mais eficaz, reduzir falhas terapêuticas e contribuir de forma estratégica para o controle e a eliminação da esquistossomose no país, alinhando-se às metas globais de saúde até 2030”, reforçou o professor da Ufal.