Pesquisa investiga fatores genéticos no tratamento da esquistossomose

Trabalho está em fase de coleta em municípios alagoanos e busca contribuir para o aperfeiçoamento dos protocolos terapêuticos adotados no SUS

Por Manuella Soares - jornalista
- Atualizado em
Trabalho foi premiado no 17º Simpósio Internacional sobre Esquistossomose
Trabalho foi premiado no 17º Simpósio Internacional sobre Esquistossomose

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) está ajudando a responder uma questão importante para a saúde pública brasileira: Por que um mesmo medicamento pode apresentar efeitos diferentes entre pessoas que vivem na mesma comunidade e enfrentam a mesma doença? A partir dessa pergunta, pesquisadores da Universidade investigam como fatores genéticos da população podem influenciar a resposta ao Praziquantel, principal medicamento utilizado no tratamento da esquistossomose no Brasil.

A esquistossomose é uma doença parasitária crônica que ainda representa um desafio significativo para a saúde pública, especialmente em regiões marcadas por vulnerabilidades sociais, dificuldade de acesso ao saneamento básico e maior exposição a ambientes de risco. Mesmo com avanços nas estratégias de controle, a enfermidade segue presente em diversas áreas endêmicas do país, atingindo populações que convivem historicamente com condições propícias à transmissão.

No Brasil, o tratamento da doença depende exclusivamente do Praziquantel, medicamento amplamente utilizado por sua eficácia e segurança. Mas estudos científicos já demonstram que a resposta terapêutica ao fármaco pode variar entre os indivíduos. Em alguns casos, há diferenças na eficácia do tratamento e até na ocorrência de efeitos adversos. Essa variabilidade tem despertado o interesse da comunidade científica, sobretudo pelo impacto que pode causar nas ações de controle da esquistossomose em escala populacional.

É nesse contexto que surge o projeto Farmacogenômica da resposta ao Praziquantel e o impacto no tratamento da esquistossomose na população brasileira miscigenada. A proposta busca compreender de que forma variações genéticas, especialmente em genes relacionados à metabolização de medicamentos, podem interferir na forma como o organismo responde ao tratamento. A investigação pode ajudar a explicar falhas terapêuticas, diferenças de resposta entre pacientes e possíveis reações adversas ao medicamento.

O estudo é coordenado pelos pesquisadores da Ufal Vinicius de Albuquerque Sortica e Müller Ribeiro Andrade, e envolve uma parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa é financiada pela Chamada nº 21/2023 – Estudos Transdisciplinares em Saúde Coletiva, com apoio do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit), da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde (Sectics), do Ministério da Saúde, além do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Atualmente, o projeto está na fase de coleta de amostras biológicas em diferentes municípios alagoanos, contemplando tanto áreas urbanas quanto rurais. A iniciativa é realizada em articulação com as secretarias municipais de saúde e conta com a participação direta da população. O estudo também reúne informações clínico-epidemiológicas e dados genéticos dos participantes, permitindo um acompanhamento mais amplo sobre adesão ao tratamento, resposta terapêutica e ocorrência de efeitos colaterais.

Segundo os pesquisadores, esse desenho de estudo é fundamental para compreender a esquistossomose de forma mais integrada, considerando não apenas o agente causador da doença, mas também as características biológicas e sociais da população afetada.

Ciência mais perto da população

Além da produção científica, o projeto também se destaca por incorporar ações de extensão e educação em saúde como parte estratégica de sua atuação. A proposta é aproximar o conhecimento acadêmico da realidade das comunidades envolvidas, fortalecendo o diálogo entre universidade, serviços de saúde e população.

Durante o Sinpete, por exemplo, a equipe promoveu atividades de sensibilização com a comunidade, abordando temas como prevenção, diagnóstico e tratamento da esquistossomose. As ações também incluíram discussões sobre a importância dos fatores genéticos na resposta aos medicamentos, ampliando o acesso da população a informações qualificadas sobre saúde e pesquisa científica.

Para o professor Müller Ribeiro Andrade, esse contato direto com a comunidade fortalece o papel social da universidade pública. “Essas ações fortalecem o diálogo entre ciência e sociedade, promovendo acesso à informação qualificada e incentivando a participação social”, destacou. O grupo também mantém ações de divulgação científica por meio do Instagram @schisto_gene, ampliando o alcance das informações produzidas pelo projeto.

Reconhecimento científico

A relevância do trabalho já tem alcançado repercussão para além do ambiente local. A equipe foi premiada no 17º Simpósio Internacional sobre Esquistossomose, realizado em Salvador (BA), recebendo o prêmio de melhor trabalho científico pelo estudo Pharmacogenetics and Praziquantel: CYP2C19 phenotypes frequencies in Alagoas state, Brazil.

O reconhecimento reforça a relevância da pesquisa no campo da farmacogenética aplicada às doenças negligenciadas. “O resultado evidencia a importância do estudo e sua contribuição para o avanço do conhecimento nessa área, especialmente em doenças que ainda afetam populações socialmente vulneráveis”, ressaltou o professor Müller.

Contribuições para o SUS

De acordo com os pesquisadores, os resultados obtidos poderão subsidiar, no futuro, a readequação e a otimização dos protocolos terapêuticos atualmente adotados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), levando em conta a diversidade genética da população brasileira. A expectativa é que esse conhecimento contribua para tratamentos mais eficazes, com menor risco de falhas terapêuticas e melhor acompanhamento dos pacientes.

“Essa abordagem pode tornar o tratamento mais eficaz, reduzir falhas terapêuticas e contribuir de forma estratégica para o controle e a eliminação da esquistossomose no país, alinhando-se às metas globais de saúde até 2030”, reforçou o professor da Ufal.

 

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