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                    O BOM CAMPONÊS
Não eram mais de cinco da manhã, quando N’bundé chamou o filho e
falou-lhe, sobremaneira, do início das atividades agrícolas.
— Por que ontem, o pai não me avisou? — resmungou.
— Do trabalho avisa-se? — inquiriu à rigor militar e com um sorriso católico.
Era uma raiar da manhã magnífica na qual neutraliza as criaturas corpóreas,
deixando-as mais inanimadas e sorrindo sobre a felicidade da vida no inferno vivo
daquela tabanca, para tanto, redarguiu o filho do camponês. Demais, o seu corpo
estava

em repouso absoluto, tranquilizando o espírito das preocupações

instantâneas e oscilantes que circundam a família camponesa.
O ano era de 1981, do dia 20 do mês de maio, sinalizando cinco dias após o
começo da época chuvosa na Guiné-Bissau. Naquele ano, o Estado, por belas
intenções e promessas longe de cumpridas, havia decretado, exigindo o
cumprimento de duas alíneas imprescindíveis:
a) “Nenhum indivíduo, residente no território guineense, pode exercer
atividade agrícola. No incumprimento de tal questão, a criatura em
causa oferece de forma voluntária, como pagamento ao Estado, a sua
própria garganta. Sem exceções, quer a mulher ou a criança quer o
homem ante a violência são todos iguais”.
b) Todo indivíduo, em qualquer parte do país, é obrigado a levar os
produtos alimentícios a Bissau, especificamente levá-los e lançá-los ao
porto de Pindjiguiti, no tardar um mês, a partir da publicação deste
documento.
Ouviu-se indagações e lamentações por todos os cantos e esquinas de cada
casa e das mais remotas tabancas do país, mas o Estado asseverou a população e
balbuciou o motivo dos lançamentos e dos trabalhos findos. Após o decreto e as
boas-fés, foram outrossim severas às vigilâncias em todo território nacional, nisto
chamavam-nos polícias invisíveis e metamórficos, os tais vigilantes. Porquanto do
nada e em instantes inesperados, em qualquer parte dos matagais das tabancas
guineenses, acudiam sem ser chamados, mas sim odiados.

A princípio a população, sobremaneira a camponesa, tentava resistir e
descumprir o cumprimento lacônico, mas apareciam de súbito e aprisionavam todo
mundo e todas as suas bugigangas.
— Têm razões — admitiam os míopes.
— Havemos de ver — ponderavam os de ver e crer.
O Estado havia dito e reforçava de hora em hora, tanto de boca em boca
quanto na rádio Difusão Nacional da nação, a qual conseguia ser sintonizada, onde
quer que estivesse o guineense, mesmo no fundo do poço da última tabanca
guineense, sobre o cumprimento das normas anormais.
N’bundé era, por sua maneira, composto de fisionomia astuta, aspecto sólido
e jovial, sorriso sagaz e, na maioria dos casos, católico. Contava sessenta e cinco
anos na certidão de batismo, porém o seu semblante disseminava vinte e cinco, em
virtude disso, deveras, chegou a confessar que era o único no universo com tal
minudência humana. Desafiara o Estado e os policiais invisíveis, fê-lo com os mais
sutis encantos. De modo que tão somente ele conseguira fazer e, pois, ousara fazer.
Por isso acordara o filho naquela hora. Aliás, em nenhum momento de suas
vidas e em nenhuma época de seus cultivos, haviam se levantado e ido ao campo
de lavoura nos tais momentos inanimados. Todavia, clandestinamente, pouco a
pouco, foram cultivando. O campo foi vestindo-se de verde vivo, o cultivo foi
nutrindo-se da vida e da vista e começou a abrilhantar o olhar de animaizinhos e a
estrelar o bosque e, enfim, a deixá-los de apetite voraz, porém o filho do camponês
serviu do policial invisível, reprimindo cada passo dos macacos e das ratazanas.
Nos anos retrasados que N'bundé cultivava o campo com um aspecto
religioso e suplicante, não havia conseguido senhorear nada igual ao ano do
decreto. “Deus existe” dizia de si para si, no mais das vezes, “o Diabo morreu”, de si
para o filho. Comemorava à toa a exuberância do cultivo e, ao mesmo tempo, levava
o espírito ocupado de reflexões contrárias, umas suaves e outras aflitivas, logo,
inquiria a si próprio sobre as fisionomias dos seus vizinhos.
A magnificência da lavoura misteriosa e secreta, os sussurros dos macacos e
das ratazanas, o policiamento do filho, contrastavam de maneira fatigada durante
quatro meses. O jorro de mandioca, a jovialidade de mancarra, a relíquia de milho e
de arroz tropeçaram-se, abraçaram-se e beijaram-se calorosamente, durante todo o
inverno espavorido, uns aos outros. De quando em quando, o filho e o pai faziam os
gestos laboriosos, e cantarolavam os cantos sinfónicos no matagal, de hora em hora

relembrava-os o decreto estatal, inesperadamente, permaneciam estáticos e mudos
durante dois ou três dias, permitindo que os animaizinhos também comessem um
pouco pelo bem do catolicismo e boa-fé da Maria Madelena para com eles. Visto que
recomenda-se, a convivência católica, a repartição dos bens e riquezas uns para
com os outros, sobretudo as almas pobretonas.
Com um sorriso católico e umas pestanas à rigor militar para com o filho
sobre o trabalho do campo e não sobre a vida estudantil, N'bundé, vezes outras,
insinuava:
— Jesus Cristo disse que quando se possui, em nomes dos anjos e dos
santos vivos e em sobrenomes dos anjos e dos santos mortos, deve oferecer a
quem está desprovido ou despido de alimentos.
Passados os cinco meses, a lavoura já se pulsava e se revelava cozida.
N'bundé, por seu instinto sagaz, construiu centenas de bembas, de forma a colocar
e conservar os alimentos para os meses de janeiro, fevereiro, março e abril, os quais
eram bordados pela fome dilacerante.
Já no aniversário do menino Jesus, no sorriso e no olhar da população, viu-se
a escassez da refeição da ceia. Por sobre as cabeças dos guineenses brilhava um
relâmpago e uma necessidade suprema e suplicante, contudo, permaneceram
benquerenças, por respeito a Deus e aos outros santos.
Chegada a época da fome, os raios de sol redobraram os esforços e
faiscavam a terra, vestindo-a num frescor inquietante, proibindo as crianças de
andarem descalças. Assim, o holocausto da população atingiu o auge nos cerebros,
começaram as indagações ao Estado sobre os alimentos prometidos e, deveras,
percoriam de memórias nas farturas desperdiçadas no porto de Pindjiguiti.
— Os permitidos alimentos, onde estão? — interrogavam os míopes.
— Tinha traço de inverdade tal decreto — asseguravam os de ver e crer.
No desabar do dia mal-aventurado, redobraram e ecoaram em todo o
território nacional os protestos, mas o Estado permanecera estático e sem proferir
uma única palavra, tal qual ao pai e ao filho no inverno sôfrego, as pessoas
começaram a morrer de fome. Ouvia-se na rádio Difusão Nacional os relatos das
mortes prematuras da população míope em todos os cantos do país, não se fez
nada. Caminhava alguém, subitamente caía e partia para o além.
Da mesma forma, viu-se um esforço infame a caminho de Bissau, nas
veredas poeirentas, isto é, nas suas bermas os mortos haviam amontoados, tal era a

circunstância dos guineenses, mesmo assim, foram caminhando, arrastando e
morrendo à procura do pão para, cada alma, libertar-se da morte.
Chegado a Bissau, os mais robustos tanto quanto N’bundé, amontoaram
defronte de Casa Escada, protestando e exigindo ao Estado, o cumprimento dos
dois pontos. Soergueram, vezes sem conta, as cartolinas que continham os escritos
como: “Estado, tem dó do seu povo e liberta-o da fome e da morte.” Ao romper da
manhã, protestavam de barrigas vazias; ao desabar da noite, acampavam
amontoados nos seus acampamentos, famintos de tal maneira que uns continuavam
os protestos no além da vida, outros por enormes esforços retornavam à vida, porém
mortos nas almas.
Numa noite esplêndida, o menos esplêndido filho do camponês, bordado por
dentro e por fora de cólera, enfureceu não se sabia como, todavia sabia-se o
porquê, dirigiu-se ao segurança e inquiriu:
— Está a ceia onde?
— Sai daqui! — vociferou o segurança.
— Mas o Estado… — balbuciou o filho do camponês com uma fisionomia
atordoada de pavor.
— Fora daqui! — replicou com uma fúria diabólica.
Apalermado o segurança, irou-se ainda mais e sapateando o filho do
camponês, que era rechonchudo e rabugento tanto com o pai como com qualquer
que fosse criatura. Algo arrebentou no interior da barriga, caiu, com os olhos
cerrados contemplou mil estrelas e mil lesmas ao mesmo tempo, depois soergueu as
sobrancelhas sobre os ofegantes olhos, contemplou um rouxinol que trazia no seu
bico um galho da azaleia, sorriu com um sorriso delicado e… morreu.
N’bundé pela sua parte, bradou um clamor pontiagudo que fora ouvida em
todas as tabancas, arrastando-se em direção ao filho. Tal era a fúria da população e
o segurança enfiou-se no interior de Casa Escada, tendo saído com gás
lacrimogêneo, lançando-o sobre a população que se rebelou assim como o Diabo
nas cobranças das dívidas indignas. Para arrancar N’bundé sobre o corpo do filho,
foi necessário dizer-lhe que o filho continuaria vivendo em outro mundo.
Foi uma noite apalermada cujas gaivotas ressoavam por toda parte, as
estrelas jamais pestanejavam em um céu coberto de um tom purpúreo, era um sinal
de malquerença do Estado para com a população. Tal foi a mágoa, tanta foi a fúria,
todavia ninguém ousara desafiar, em hipótese alguma, o Estado novamente, aliás,

esfriaram os espíritos à míngua da vida, tão somente restou uma luz mortiça no
semblante do bom camponês. Tampouco conseguiu suster o espírito católico.
— O Diabo sempre, neste país, está por de trás da porta — asseverou e
suplicou — que a sua alma em paz descanse, meu rechonchudo filho! — Que Deus
o tenha na sua santa glória, e ocupe o nosso quarto na mesma casa, a qual residem
Jesus Cristo e sua mãe virgem Maria — implorou ao filho.
Ouviu-se: “o filho seu sempre será relembrado como um heroi.’’
Assim, toda a gente fez-se presente na alcova do bom camponês,
prestando-lhe a mais honrosa solidariedade, deixando os mais sentidos e profundos
pêsames para com ele. Comovido na alma, contemplava as criaturas defronte dele,
cravava-lhes o olhar mortiço, examinava-lhes as pálpebras meio cerradas, e tão
somente via nas faces caudalosas, via prantos e prantos a enfeitá-los dos pés às
cabeças, e difundindo ausência da ceia e, ao que parecia, propagando a presença
da morte no seio daquela gente abandonada.
N'bundé, inconformado com a situação, ou dito de outro modo, o camponês
que sempre fora à igreja e ouvira a história de José filho de Jacó, e que fora vendido
pelos seus irmãos. O camponês, destarte, deixou-se estar racionalizando sobre o
seu catolicismo e a sua índole aqui na terra, em seguida, vestiu-se o avental
católico, imaginando como se estivesse no Egito, como se se enfiasse ao interior do
palácio do faraó, como se estivesse ante armazém do faraó. Retornou a Bissau,
licenciou-se do Estado guineense, este a contragosto fê-lo e falou à população pela
rádio Difusão Nacional, e anunciara a boa-nova, a de venda e do empréstimo dos
sustentos para toda a população da Guiné-Bissau durante todo aquele verão
dilacerante.