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Impacto do oleo nas aves migratorias_GAT PAN Limicolas.pdf
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                    Posicionamento do Grupo de Assessoramento Técnico (GAT) e Colaboradores do
Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas Migratórias sobre o derrame
de óleo nas praias do nordeste

Às autoridades competentes, incluindo ICMBio, IBAMA, OEMAs, GERCOs

O derrame de óleo nas praias do nordeste brasileiro e as aves limícolas migratórias
Nos dias 12 e 13 de outubro, comemorou-se o Dia Mundial das Aves Migratórias, que também
foi comemorado no dia 12 de maio. As datas coincidem com a época de migração dessas aves.
Agora em outubro, elas estão em pleno movimento, deixando suas áreas de reprodução ao
norte em busca de descanso e alimentação ao sul. Deslocam-se por centenas a milhares de
quilômetros entre o extremo norte e sul de suas viagens. Dentre essas aves viajantes temos
beija-flores, passarinhos, gaviões, aves de rapina, aves marinhas e aves limícolas.
Aves limícolas (“limus” = lodo em latim), também conhecidas como maçaricos e batuíras,
alimentam-se principalmente na zona entre-marés e margens de ecossistemas aquáticos. São
pequenas, algumas pesam um pouco mais do que 20g, outras chegam a 250-280g. Apesar de
pequenas, migram distâncias gigantes, estando dentre as maiores migrações observadas no
mundo. Algumas vão do ártico, no norte da América do Norte, à Patagônia, no sul da América
do sul. Chegam ao Brasil entre setembro e outubro, depois de voar entre 3.000 a 5.000 km por
aproximadamente 3 - 8 dias, sem parar para se alimentar nem descansar. Cansadas e sem
energia, chegam ávidas pela comida e tranquilidade que encontram nas praias do Norte e
Nordeste brasileiro.
Esse ano, no entanto, elas estão chegando juntamente com óleo advindo de um derramamento
em alto mar. O óleo que está sujando praias e manguezais, desde o Maranhão até a Bahia, está
afetando muitas áreas importantes para as aves limícolas migratórias. As grandes manchas de
óleo fazem com que a praia fique indisponível para as aves e as manchas menores sujam suas
patas e penas, e ainda contaminam seu alimento e sua água (Figuras 1 – 4). A contaminação da
cadeia alimentar ocorre através de mariscos, pequenos siris e caranguejos, entre outros
organismos que são predados pelas aves (Figura 3). A ingestão de alimento contaminado pode
comprometer o voo e orientação das aves. Aves atingidas pelo óleo também podem se intoxicar
ao tentar limpar suas penas. Além disso, o óleo irrita a pele da ave e afeta a função de
impermeabilização da plumagem, fundamental para o voo e para a manutenção do calor do
corpo. Adicionalmente, a limpeza de praias oleadas feita com a retirada da camada superior da
areia por tratores leva consigo todo o alimento (invertebrados marinhos como mariscos,
caranguejos, poliquetas, etc.) que vivem sobre a areia, ou enterrados nos primeiros dez
centímetros (Figura 5). Sem alimento, o caminho é sem volta.
Nós, membros do Grupo de Assessoramento Técnico e colaboradores do Plano de Ação Nacional
para Conservação das Aves Limícolas Migratórias vimos manifestar nossa preocupação com o
impacto que as aves limícolas estão sofrendo. Várias praias afetadas pelo óleo são utilizadas por
quatro espécies de aves limícolas ameaçadas de extinção (Calidris canutus, Calidris pusilla,
Limnodromus griseus e Charadrius wilsonia), dez espécies foco da Inciativa Pró-Aves Limícolas
Migratórias na Rota Atlântica, além um total de 21 espécies incluídas no Plano de Ação Nacional
para Conservação das Aves Limícolas Migratórias (PAN Aves Limícolas) e no Apêndice II da
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Posicionamento do GAT e Colaboradores do PAN Aves Limícolas sobre o
derrame de óleo nas praias do nordeste
Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Selvagens (CMS) da qual o Brasil é signatário.
Adicionalmente, áreas de grande importância para essas espécies já foram afetadas, incluindo a
área de maior importância no Brasil, as Reentrâncias Maranhenses (Ilha de Caçueira e Ilha de
Manguça dentro da RESEX Cururupu, MA), que é um sítio de Importância Hemisférica da Rede
Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas (WHSRN – sigla em inglês). Existem ainda áreas
comprovadamente importantes (Banco dos Cajuais/CE, sítio WHSRN de Importância Regional, e
Bacia Potiguar/RN, em vias de se tornar um sítio WHSRN) que correm risco de serem afetadas,
e outros locais potenciais que já foram afetados, como a Ilha do Caranguejo no estado do
Maranhão e o Delta do Parnaíba, no Piauí.
Considerando o atual cenário de contaminação por óleo, solicitamos que seja(m):
1. Tomadas medidas eficientes de contenção para evitar o avanço da contaminação dos
sítios importantes para aves limícolas (Tabela I)
2. Implementados monitoramentos nos sítios para acompanhamento da alteração
populacional de aves e de invertebrados costeiros, seguindo protocolo adequado para
aves limícolas;
3. Informado ao GAT quais procedimentos foram adotados para descontaminar as praias
e manguezais importantes para aves limícolas;
Tabela 1. Áreas importantes para aves limícolas no Nordeste do Brasil.
Praias oleadas importante para aves limícolas da região Nordeste do Brasil
Sítios
Estado
Lat
Long
APA das Reentrâncias Maranhenses Ilha de Caçacoeira e Ilha de Munguça
MA
1°36'55''
44°39'10''
Baía de São Marcos Ilha do Caranguejo
MA
2°46'12''
44°30'36''
Delta do Parnaíba
PI
2°51'55''
41°39'56''
Cajueiro
PI
2°57'03''
41°13'31''
Bacia Potiguar
RN
5°06'07''
36°21'38''
Ilha da Restinga
PB
7°03'33''
34°51'34''
Coroa do Avião
PE
07°40'
34°50'
APA Piaçabuçu
AL
09°26'05''
36°23'10"
Foz do Rio São Francisco
AL
10°29'54''
36°24'39''
Foz do Rio Vaza Barris
SE
11°07'14''
37°09'51''
Mangue Seco/Jandaíra
BA
11°45'38''
37°31'48''
Fonte: Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas e
Valente et al. 2011
Praias ainda não oleadas e importantes para aves limícolas - somente NE
Banco Cajuais
CE
4°42'35''
37°18'58''
Trombaí
MA
1°44'25''
45°50'24''
Turiaçu
MA
1°39'43''
45°15''51''
Baia de Cumã
MA
2°07'44''
44°31'38"
Baia do Arraial
MA
2°45'34''
43°55'09''
Fonte: Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas
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Posicionamento do GAT e Colaboradores do PAN Aves Limícolas sobre o
derrame de óleo nas praias do nordeste

Grupo de Assessoramento Técnico do PAN Aves Limícolas
Especialistas e/ou colaboradores do PAN Aves Limícolas
Ana Maria Marcelino, IDEMA/RN
Bruno Jackson Melo de Almeida, Dr., Consultor Especialista em Aves Limícolas e Costeiras
Carlos David da Silva Oliveira dos Santos, Dr., UFPA
Demétrio Luis Guadagnin, Dr., UFRGS
Glayson Bencke, MSc., SEMA/RS
Jason Alan Mobley, Dr., AQUASIS/CE
João Paulo Tavares Damasceno, MSc., UFRN
Juliana Bosi de Almeida, Ph.D., SAVE Brasil
Laís de Morais Rêgo Silva, MSc., SEMA/MA
Luís Fernando Carvalho Perelló, Dr., FEPAM/SEMA/RS
Maria Raquel de Carvalho, Dr., SAVE Brasil
Patrícia Mancini, Dra., UFRJ
Renato Gaban-Lima, Dr., UFAL
Wallace Rodrigues Telino Júnior, Dr., UFRPE

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Porque a ave se suja quando em tese poderia voar e “escolher” onde pousar?
A resposta tem vários níveis que incluem a evolução dos comportamentos, a disponibilidade do
alimento ao longo da costa, a dinâmica da migração e a forma de se alimentar.
1. As aves não entendem o perigo – não houve a evolução do comportamento de defesa frente
a “óleo” nas áreas de alimentação
As aves migratórias evoluíram para evitar várias intempéries e “desastres” naturais, como
por exemplo furacões. Pesquisadores já observaram que as aves desviam de furacões
quando estão migrando, ou quando estão próximas às ilhas do Caribe, elas pousam
esperando a turbulência passar. Algumas vezes conseguem inclusive usar os ventos a seu
favor. Isso acontece porque esse fenômeno existe há milhões de anos e as aves
desenvolveram mecanismos de defesa para se proteger. No entanto, derrame de petróleo
no mar não é um desastre natural e passou a ser provocado pelo homem nas últimas
décadas. As aves não desenvolveram mecanismos de defesa/reconhecimento e por isso não

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Posicionamento do GAT e Colaboradores do PAN Aves Limícolas sobre o
derrame de óleo nas praias do nordeste
percebem o perigo. Inclusive, dependendo do ambiente onde as manchas estão, por
exemplo em manguezais, as manchas podem ser confundidas com lama.
2. As aves podem estar usando áreas sem óleo quando pousam, mas o óleo chega enquanto
estão se alimentando.
A chegada do óleo às praias pode não ter acontecido antes das aves chegarem. Elas podem
até ter pousado em uma área sem óleo, mas estarem se alimentando na beira da água
quando o óleo chegou à praia. Nesse caso podem tanto ingerir como se sujarem de óleo.

Consequências do contato das aves com o óleo
1. Manchas pequenas podem ser confundidas com “sujeira” na zona entre marés.
É comum em áreas de parada e alimentação encontrar algas, sargaço, folhas, troncos,
madeiras, etc., que vem à praia trazidos pelas correntes marinhas. As pequenas manchas de
óleo podem estar entremeadas com essa matéria orgânica, que também tem pequenos
animais (invertebrados) que são alimento para algumas espécies. Enquanto se alimentam
andando nesse material, as aves acabam se sujando com o óleo.
Várias espécies de aves limícolas migratórias se alimentam perfurando a areia com o bico
para encontrar os invertebrados (mariscos, caranguejo chama-maré, poliquetas, entre
outros); alimentam-se de uma forma frenética, mergulhando o bico na água (às vezes a
cabeça inteira) e na areia numa rapidez que nos remete ao movimento da agulha numa
máquina de costura. Isso impede com que vejam manchas chegando na água.
Adicionalmente, ao perfurar a areia/lama para encontrar o alimento podem sugar essas
pequeninas manchas espalhadas pela área (Figura 3). Podem ainda, pisar ou se sujar quando
se deitam para descansar (Figura 4). O óleo que fica nas patas e/ou penas pode ser ingerido
pois a única forma que a ave tem de tentar se limpar é com o bico (Figuras 1 – 4). O óleo
prejudica a impermeabilidade da pena e a ave fica molhada, e passa frio (hipotermia). Numa
contagem de 20 minutos de duração em Estância (SE), estuário do Vaza-Barris, divisa com o
estado da Bahia, conduzida pelo especialista Bruno Jackson Melo de Almeida, 15% das aves
tinham manchas de óleo (50 aves no total). Na foto encaminhada por ele, dos cinco
maçaricos brancos três possuem manchas (Figura 2). Essa espécie é personagem principal
do curta-metragem da Pixar, que leva o nome de “Piper”.
Distribuição do alimento não é homogênea ao longo de toda a costa Quando migram, ou
quando estão nas áreas de “invernada” (referência ao inverno no hemisfério norte)
descansando em nossas praias e manguezais, as aves migratórias são frequentemente
encontradas em grandes concentrações. Viajar em grandes grupos é uma forma de proteção
contra-ataques de predadores, além de melhorar a aerodinâmica e diminuir o desgaste das
penas. Assim, grandes grupos precisam de áreas com grande oferta de alimento porque
todos precisam ganhar peso rapidamente. A costa (praia e manguezais) não é homogênea –
existe concentração de alimento em algumas porções apenas, como próximo à foz de rios e
baías. São nesses lugares que as aves migratórias são encontradas com mais frequência.
Como exemplo de áreas importantes temos as Reentrâncias Maranhenses, o Delta do Rio
Parnaíba, o Banco dos Cajuais, Bacia Potiguar e a foz do rio Vaza-Barris, segundo o Plano de
Ação Nacional para Aves Limícolas Migratórias. Das cinco áreas citadas aqui, três
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Posicionamento do GAT e Colaboradores do PAN Aves Limícolas sobre o
derrame de óleo nas praias do nordeste
(Reentrâncias Maranhenses [representada pela RESEX Cururupu], Delta do Parnaíba e foz
do Vaza-Barris) foram afetadas por manchas de óleo (Tabela 1). Todas essas áreas são
utilizadas por espécies ameaçadas de extinção, sendo que das quatro espécies de aves
limícolas ameaçadas encontradas nesses sítios, três são migratórias. Uma é residente e está
iniciando na época de reprodução. Para melhor compreensão, é possível fazer a seguinte
analogia: para se fazer uma viagem de avião (ou de carro) de 20.000km, do ártico à
Patagônia, é preciso planejamento. O avião não consegue fazer toda a viagem sem parar
para abastecer. Existem locais onde o avião não tem como pousar (como no mar ou em
regiões montanhosas), e existe uma extensa área de costa/praia onde pode pousar. Só que
ao longo dessa costa só existe posto de combustível em alguns pontos, mas nem todos tem
o combustível que o seu avião precisa, ou tem mas não em quantidade ou qualidade
suficiente para fazer a próxima etapa da viagem. Você faz o planejamento da viagem,
sabendo onde pode parar. Só que quando chega lá, o posto não existe mais ou não tem o
combustível que você precisa. Se você ainda tiver um pouco de combustível, tenta chegar
no próximo posto, mas se você teve que desviar de um furacão e gastou combustível
adicional, não consegue chegar até o próximo posto; coloca o combustível que tem. Só que
o combustível adulterado não permite que você chegue ao seu próximo ponto de parada –
seu avião pode cair... Essa é mais ou menos a dinâmica dessas aves. Existem pontos
específicos onde elas podem encontrar alimento, se não conseguem nessa área, mesmo que
se desloquem um pouco mais, não conseguem suprir as necessidades.
2. Forma de limpeza da praia pode remover o alimento das aves
Em reportagem da MarcoZero, foi mostrado tratores retirando a camada superior das praias
para remover as manchas de óleo em Piaçabuçu, em Alagoas. O alimento dessas aves está
na camada superior da areia (veja Figura 5). Uma vez removida a camada superior da areia,
as aves não encontrarão no local o alimento que precisam.
3. O impacto de derramamento de óleo no mar sobre aves limícolas, costeiras e marinhas pode
ser imenso.
No acidente da BP no Golfo do México (Deep Water Horizon Spill) estima-se que 1 bilhão de
aves morreram devido ao vazamento (“estimated that 800,000 coastal birds died during the
acute phase of the Deepwater Horizon spill. The second paper examined the mortality of
offshore birds. In that paper, the authors found that approximately 200,000 offshore birds
died during the spill's acute phase” – fonte: National Audubon e New York Times). Em
contraste, nenhuma medida foi tomada no Brasil até essa última semana, mais de 30 dias
depois que as primeiras manchas chegaram a praias e o óleo esparramou-se por mais de
170 praias ao longo do Nordeste do Brasil. Não existe previsão de onde ou quando o óleo
ainda pode chegar, nem de quanto óleo. Além disso, no vazamento da BP houve um grande
movimento de mobilização, 47 mil pessoas trabalharam para conter os impactos. Mesmo
guardada as devidas proporções quanto ao volume de óleo, não houve esforço no Brasil
para mobilizar pessoas para conter o impacto causado ao longo de metade da costa
brasileira.

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Posicionamento do GAT e Colaboradores do PAN Aves Limícolas sobre o
derrame de óleo nas praias do nordeste
ANEXO I. Imagens de aves migratórias sujas pelo óleo nas praias do nordeste

Foto: Renato Gaban-Lima
Figura 1. Batuíra semipalmata (Charadrius semipalmatus), espécie migratória,
com óleo no bico, patas e plumagem. Praia Feliz Deserto, AL 14/10/2019.

Figura 2. Maçaricos-brancos (Calidris alba), espécie migratória. Três das cinco
aves possuem manchas de óleo na plumagem. Praia das Dunas, Estância (APA
Litoral Sul de Sergipe), 12/10/2019.
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derrame de óleo nas praias do nordeste

Figura 3. (acima) Piru-piru
(Haematopus palliatus), espécie
residente, com mancha de óleo na
plumagem. Praia do Viral no
município de Aracaju, Foz do Rio
Vaza Barris, SE, 10/10/2019.
(à esquerda) Óleo contaminando
alimento das aves limícolas. Praia
Feliz Deserto, AL, 14/10/2019.

Foto: Renato Gaban-Lima

Figura 4. Maçaricos-brancos (Calidris alba), espécie migratória, na
faixa entre marés com presença de manchas. O maçarico mais a
esquerda está limpando uma mancha de óleo na plumagem. Praia da
Costa, Barra dos Coqueiros, SE, 13/10/2019.

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derrame de óleo nas praias do nordeste

Figura 5. Diferenças no comprimento dos bicos das aves e os diferentes invertebrados utilizados
como alimento e encontrados na zona entre marés (Fonte: Castro e Huber, Marine Biology, 2003).

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