Carta de Maragogi
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Carta de Maragogi
Realizou-se o Encontro dos Povos das Águas, Florestas e Campos de Alagoas no dia 03 de junho de 2022,
durante o XI Simpósio Nordestino de Etnobiologia e Etnoecologia, na cidade de Maragogi, Alagoas. Participaram
representantes de diferentes comunidades e povos tradicionais (indígenas, quilombolas, pescadores e pescadoras,
camponeses e camponesas, extrativistas e combinações destes, entre outros) de Alagoas e estados vizinhos, bem
como estudantes, pesquisadores e profissionais de instituições acadêmicas e não acadêmicas.
O objetivo do Encontro foi discutir temas e problemas de interesse comum, tais como: educação,
sustentabilidade, modos de produção tradicionais e/ou camponeses, mudanças climáticas, patrimônio biocultural,
qualidade de vida, juventudes, saúde, gênero, entre outros. As principais considerações, reflexões e reivindicações
construídas durante as discussões são trazidas a público através do presente documento, intitulado “Carta de
Maragogi”, que se direciona a tomadores de decisão e diferentes segmentos da sociedade direta ou indiretamente
envolvidos com as questões discutidas. Assim:
Considerando que o Encontro, assim como toda sociedade, em especial as camadas mais pobres e vulneráveis,
foram fortemente afetados: (1) pelas fortes chuvas que resultaram em tragédias com perdas de vidas nos estados de
Alagoas e, principalmente, Pernambuco, demonstrando, mais uma vez, que a falta de planejamento urbano e a
injustiça ambiental poderá trazer muito mais mortes em razão das mudanças climáticas; (2) pelo contexto pandêmico,
com mais de 650 mil mortes causadas pela Covid-19 desde 2020, que gerou sofrimento e distanciou as pessoas,
afetando a saúde de diferentes formas, algumas ainda desconhecidas; (3) pela cruel crise econômica, que reduziu
drasticamente o poder de consumo das famílias e se agravou nos últimos anos, trazendo o país de volta ao mapa da
fome, com mais de 33 milhões de pessoas em situação de fome.
Considerando que o bem viver dos povos das águas, florestas e campos se refere, ao mesmo tempo, à
percepção coletiva de todos e de todas de que somos parte da natureza e como tal precisamos cuidar bem dela;
Considerando que o Estado prioriza as demandas do agronegócio, favorece a especulação imobiliária,
incentiva a carcinicultura, o turismo de massa, e ignora de forma recorrente as demandas dos povos tradicionais, que
precisam de maior união e apoio para garantir conquistas;
Considerando que as mudanças climáticas exigem uma visão de longo prazo e que, apesar disso, a maior parte
das ações humanas intensificam os efeitos naturais dessas mudanças, afetando principalmente as camadas mais
pobres e vulneráveis da sociedade, como as populações rurais tradicionais que dependem diretamente dos bens ou
“recursos” da natureza para a reprodução de seus modos de vida e moradores de zonas periféricas das cidades;
Considerando que é fundamental que as juventudes estejam organizadas, especialmente as juventudes do
campo e dos meios populares e que os coletivos facilitem a organização e o acesso a conhecimentos que articulem as
questões que envolvem saúde, educação e políticas públicas;
Considerando que a educação contextualizada contribui para a valorização dos conhecimentos e saberes
tradicionais, e pode também contribuir na gestão territorial e ambiental das terras dos povos tradicionais.
Considerando que o acesso à educação ainda é um desafio para as juventudes rurais, bem como a construção
de um projeto de vida e de trabalho;
Considerando que os saberes que estruturam os sistemas produtivos tradicionais, desde o cultivo até o
alimento servido, constituem um “patrimônio cultural imaterial”, que pode integrar identidade, satisfação e qualidade
de vida, os participantes do Encontro dos Povos das Águas, Florestas e Campos de Alagoas anunciam as seguintes
proposições e reivindicações para toda a sociedade:
- Exigimos maior ação dos governos, de modo que atuem de forma responsável em benefício das populações
mais vulneráveis e em situação de risco de desastres por eventos climáticos extremos, como chuvas intensas e secas
prolongadas. É preciso desenvolver soluções alternativas e criativas, que não se limitem às medidas convencionais dos
Planos de Contingência, Habitação Popular e caminhão pipa, por exemplo.
- É necessário ação contínua da academia, dos órgãos de pesquisa e de educação que alcancem as populações
do campo, no sentido de: (a) valorizar o trabalho e os produtos do campo; conscientizar as populações urbanas sobre
o custo real dos alimentos (reduzindo o papel dos atravessadores); garantir de visibilidade dos rótulos e marcas que
ressaltem os contextos locais de origem destes produtos, sua história, os modos de vida associados e as práticas destas
comunidades humanas que promovem a proteção da natureza com geração de renda.
- Governos e sociedade precisam apoiar as comunidades tradicionais para que estas permaneçam em suas
áreas, preservando sua cultura e conservando a natureza, com dignidade e qualidade. Um dos caminhos é o turismo
de base comunitária e a boa governança dos recursos comuns.
- É necessário maior articulação de todos os povos. Nas palavras de uma das participantes: "Temos que
conhecer o que somos, ter a nossa identidade, ser quilombola, indígena, mas essas pessoas têm que gritar. Estão
faltando os gritos! Um encontro como esse é importante (...) São muitos entraves na luta, mas o maior é a questão
financeira (...) Precisamos entender a realidade do nosso povo, entender os motivos daqueles que não se envolvem na
luta".
- É necessário maior articulação dos movimentos sociais com as redes e com as instituições formais de
educação, bem como com as políticas públicas voltadas ao meio ambiente, à agroecologia, educação do campo e
desenvolvimento rural, como, por exemplo, a política nacional de alimentação escolar, a política de aquisição de
alimentos, de captação e uso de água das chuvas e de saneamento rural.
- É necessário maior apoio de prefeituras e governos aos sistemas produtivos tradicionais, por meio de
orientação na formação de Associações e Cooperativas, inclusão de seus produtos na merenda escolar e eventos
oficiais, desenvolvimento de selos de qualidade, reforço à identidade com o território, elaboração de leis municipais
e estaduais para valorização das atividades e produtos tradicionais.
- O apoio dos mais velhos aos jovens é de fundamental importância, não apenas para a valorização dos saberes
ancestrais, como também para a construção de identidades e fortalecimento de projetos de vida da juventude no
campo. Fortalecer a identidade dos povos é investir na saúde integral e na plenitude do bem viver.
- É necessário garantir políticas públicas para a juventude e apoiar a esse público no conhecimento e acesso a
essas políticas, pois um projeto popular de sociedade precisa considerar a juventude e suas necessidades;
- Reconhecemos a importância da organização das juventudes camponesas (sejam elas indígenas, quilombolas
ou outras), através de coletivos jovens, para garantir direitos e promover a mobilização no território. As cobranças
que o sistema capitalista exerce sobre a juventude adoecem e matam cada vez mais jovens. É urgente pensar a cura a
partir do território e investir na construção de territórios saudáveis;
- As políticas para o bem viver devem permear a discussões sobre saúde e educação A saúde é
multidimensional e a sua dimensão espiritual deve ser valorizada. A perspectiva da saúde integral envolve a plenitude
da vida de cada ser e das comunidades a que pertencem. O adoecimento da sociedade requer uma perspectiva de
“Cura planetária”;
Diante do exposto, concluímos que estamos comprometidos com uma perspectiva de bem viver dos povos
das águas, florestas e campos, com respeito à diversidade biocultural, aos modos de vida e produção tradicionais, às
juventudes, ao meio ambiente e à saúde integral. Nesse sentido, reconhecemos a necessidade de políticas públicas e
investimentos que contribuam para o bem viver. Também reconhecemos a necessidade de maior articulação entre os
povos e destes com as instituições de ensino, pesquisa, gestão, entre outras que possam contribuir no fortalecimento
das lutas e das pautas coletivas aqui apresentadas e refletidas.
Maragogi, junho de 2022.
Lista das organizações e movimentos participantes do Encontro
Associação Aroeira (AL)
Associação de Agricultores Alternativos (AAGRA - AL)
Associação de Jangadeiros Artesanais do Município de Barra de Santo Antônio (AJAMBASA - AL)
Associação de pescadores de Barra Grande (AL)
Associação de Jovens Produtores Indígenas Tingui Botó (AL)
Bacharelado em Agroecologia do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – PRONERA (UFAL)
Bacharelado em Agroecologia, Campesinato e Educação Popular (UFRPE)
Boleiras de Coqueiro Seco (AL)
Boleiras de Santa Luzia do Norte (AL)
Colônia de Pescadores Z-21 “Santo Amaro” – Paripueira (AL)
Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHRSF)
Conselho Indigenista Missionário
Cooperativa mista de produção e comercialização camponesa (COOPCAM - AL)
Embrapa Alimentos e Territórios
Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ)
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
Laboratório de Biologia e Química do IFAL – Maragogi (AL)
Laboratório de Ecologia Conservação e Evolução Biocultural (LECEB/UFAL)
Laboratório de Etnobiologia e Conservação de Ecossistemas (LAEC/UNEAL)
Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos (DIBICT/UFAL)
Programa de Pós-Graduação em Educação do Campo e Sustentabilidade (UNEAL)
Programa de Pós-Graduação em Etnobiologia e Conservação da Natureza (UFRPE)
Rede de Educação Contextualizada do Agreste e Semiárido (RECASA)
Representante Assentamento Popular Maria Aparecida (RN)
Representante do Quilombo Lunga (Taquarana, AL)
Representante do Quilombola Cajá dos Negros (Batalha, AL)
Representante Kariri-Xocó (Porto Real do Colégio, AL)
Representante Quilombo Caraíbas em Canhoba (SE)
Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia (SBEE)